Vivendo com cannabis: o desafio de ajudar pacientes de câncer a viver com conforto

 Vivendo com cannabis: o desafio de ajudar pacientes de câncer a viver com conforto

A maconha provavelmente tem um papel significativo no tratamento oncológico, mas determinar quais pacientes e sintomas se beneficiam mais é atualmente um desafio. Saiba mais sobre o tema no artigo de Dylan M. Zylla* para o The Cancer Letter

Na eleição dessa semana, os eleitores estadunidenses disseram sim a medidas para legalizar a cannabis para uso adulto nos estados do Arizona (60%), Nova Jersey (67%) e Montana (57%). As medidas para legalizar a cannabis medicinal foram aprovadas no Mississippi (68%) e em Dakota do Sul (54%).

Pacientes com câncer avançado lutam contra sintomas debilitantes de dor, náusea e ansiedade, entre outros. Muitos pacientes ficaram com medo de tomar opioides, apesar de sentirem fortes dores relacionadas ao câncer, por causa da epidemia de opioides em curso nos EUA.

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O uso de maconha está se tornando mais prevalente em pacientes com câncer1, talvez devido à sua capacidade de ajudar a controlar vários sintomas com efeitos colaterais mínimos.2,3 Apesar das escassas evidências clínicas, além dos relatos de casos, quase um quarto dos pacientes também usa cannabis, com a esperança de que ela trate o câncer.1

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Além disso, quase três em cada quatro pacientes  querem informações sobre a cannabis de sua equipe de tratamento do câncer, mas apenas 15% a recebem. No entanto, apenas 30% dos oncologistas dos EUA sentem que têm treinamento suficiente para fazer recomendações informadas sobre a cannabis4, e 85% querem mais educação.5

Embora não existam dados robustos de ensaios randomizados com cannabis, desde 2000, 19 estudos clínicos avaliaram como os produtos que contêm cannabis impactam os sintomas e a qualidade de vida global em pacientes com câncer.6 Nabiximols, um spray oromucoso contendo uma proporção de 1:1 de tetraidrocanabinol (THC) para canabidiol (CBD), foi avaliado em dois grandes ensaios controlados com placebo para dor relacionada ao câncer7, mostrando pouco impacto geral em pacientes com dor refratária relacionada ao câncer.

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Além disso, dois grandes estudos envolvendo mais de 4.000 pacientes demonstraram que a cannabis pode melhorar uma variedade de sintomas e pode diminuir o uso de medicamentos concomitantes, como opioides e antieméticos.2,3 A falta de padrões claros de dosagem e mecanismos de entrega tornam a análise dos resultados dos estudos um desafio.

Para os pacientes, as questões de segurança, estigma, qualidade e custo podem ser as mais importantes. Os efeitos colaterais da cannabis relatados nos estudos mencionados foram geralmente leves. A cannabis pode ser mais segura do que os opioides, uma vez que os estudos indicam menos mortes relacionadas com os opioides em estados que promulgaram as leis sobre a cannabis.

Embora a cannabis seja geralmente considerada segura com os agentes citotóxicos tradicionais, existe uma preocupação crescente de que as propriedades anti-inflamatórias da cannabis possam ter um impacto negativo na imunoterapia.8,9 Além disso, pouco se sabe sobre como a cannabis pode afetar o metabolismo da quimioterapia oral (por exemplo, “agentes direcionados”), como a que é comumente usada ​​para câncer de mama e de próstata.

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O estigma do uso de cannabis pode impedir uma implementação mais ampla. Os pacientes podem relutar em revelar seu uso de cannabis (ou interesse no uso potencial) por medo de que seu oncologista possa limitar ou alterar o plano de tratamento direcionado ao câncer. Determinar a dose exata de THC ou CBD que os pacientes estão ingerindo é difícil, a menos que os testes laboratoriais dos produtos se tornem comuns. Ainda menos pode ser conhecido sobre os onipresentes produtos vendidos somente com CBD, onde o uso está se tornando generalizado.

Finalmente, os custos dos produtos de maconha podem ser proibitivos, com usuários regulares pagando US$ 3.000 ou mais por ano. Em oncologia, os custos diretos para tratamentos de quimioterapia e cuidados de rotina já pesam sobre os pacientes.

Em Minnesota, um ensaio randomizado tipo delayed-start de cannabis em pacientes com câncer incurável que requer opioides para a dor foi lançado com o objetivo de minimizar as necessidades de opioides e melhorar a qualidade de vida.10 O estudo usou um novo design utilizando um programa de cannabis patrocinado pelo estado, com 36% dos pacientes elegíveis selecionados finalmente se inscrevendo. Dos 30 pacientes inscritos, os usuários de cannabis mostraram uma tendência de melhora no controle da dor e menor uso de opioides.

Pacientes com doenças malignas avançadas geralmente preferem focar na qualidade de vida em vez de na quantidade. Dessa forma, é fundamental encontrar maneiras seguras, eficazes e econômicas de ajudá-los a controlar os sintomas.

Em dezembro de 2020, o Simpósio de Pesquisa sobre Cannabis, Canabinoides e Câncer do Instituto Nacional do Câncer dos EUA reunirá líderes neste campo. A cannabis provavelmente tem um papel, mas determinar quais pacientes (e sintomas) se beneficiam mais é atualmente um desafio.

Estudos de alta qualidade são necessários para permitir que pacientes, provedores e legisladores tomem decisões informadas sobre o uso de cannabis. Sem dados adicionais, os verdadeiros benefícios e riscos do uso de cannabis permanecerão obscurecidos pela fumaça.

*Dylan M. Zylla é diretor médico da HealthPartners / Centro de Pesquisa do Câncer Park Nicollet e professor assistente adjunto na Universidade de Minnesota.

Referências

  1. Pergam, S.A., et al., Cannabis use among patients at a comprehensive cancer center in a state with legalized medicinal and recreational use. Cancer, 2017. 123(22): p. 4488-4497.

  2. Anderson, S.P., et al., Impact of Medical Cannabis on Patient-Reported Symptoms for Patients With Cancer Enrolled in Minnesota’s Medical Cannabis Program. J Oncol Pract, 2019. 15(4): p. e338-e345.

  3. Bar-Lev Schleider, L., et al., Prospective analysis of safety and efficacy of medical cannabis in large unselected population of patients with cancer. Eur J Intern Med, 2018. 49: p. 37-43.

  4. Braun, I.M., et al., Medical Oncologists’ Beliefs, Practices, and Knowledge Regarding Marijuana Used Therapeutically: A Nationally Representative Survey Study. J Clin Oncol, 2018. 36(19): p. 1957-1962.

  5. Zylla, D., et al., Oncology Clinicians and the Minnesota Medical Cannabis Program: A Survey on Medical Cannabis Practice Patterns, Barriers to Enrollment, and Educational Needs. Cannabis Cannabinoid Res, 2018. 3(1): p. 195-202.

  6. Steele, G., T. Arneson, and D. Zylla, A Comprehensive Review of Cannabis in Patients with Cancer: Availability in the USA, General Efficacy, and Safety. Curr Oncol Rep, 2019. 21(1): p. 10.

  7. Fallon, M.T., et al., Sativex oromucosal spray as adjunctive therapy in advanced cancer patients with chronic pain unalleviated by optimized opioid therapy: two double-blind, randomized, placebo-controlled phase 3 studies. Br J Pain, 2017. 11(3): p. 119-133.

  8. Bar-Sela, G., et al., Cannabis Consumption Used by Cancer Patients during Immunotherapy Correlates with Poor Clinical Outcome. Cancers (Basel), 2020. 12(9).

  9. Taha, T., et al., Cannabis Impacts Tumor Response Rate to Nivolumab in Patients with Advanced Malignancies. Oncologist, 2019. 24(4): p. 549-554.

  10. Zylla, D., et al., A randomized trial of medical cannabis (MC) in patients with advanced cancer (AC) to assess impact on opioid use and cancer-related symptoms. https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.2019.37.31_suppl.109, 2019.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia em plano fechado que mostra duas mãos, vindas da parte de cima da foto, unidas em forma de concha e sustentando uma porção de buds secos de maconha, e um fundo escuro. Imagem: Sharon McCutcheon | Pexels.

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