“Verdinha”: como a guerra às drogas e o racismo estão criminalizando Ludmilla

ludmilla close up “Verdinha”: como a guerra às drogas e o racismo estão criminalizando Ludmilla

“Ludmilla não está sendo acusada e criminalizada por apologia à maconha apenas por causa da música ‘Verdinha’. É preciso levar em consideração a sua condição de mulher negra, que já foi vítima de racismo em outras situações”. Entenda mais sobre a história no artigo de Henrique Oliveira*

No dia 29 de novembro de 2019, a funkeira Ludmilla lançou em seu canal no Youtube o clipe da música “Verdinha”. Em menos de 2 meses, o videoclipe teve mais de 33 milhões de visualizações, sobretudo graças à polêmica criada sobre uma suposta apologia à maconha em torno da música. Nele, a cantora aparece fumando um cigarro, num ambiente esfumaçado – só que, ao invés de maconha, há uma plantação de hortaliças. Em partes da música Ludmillla chega a falar “Fiquei loucona, chapadona só com a marola da ‘juana’“, mas em momento algum existe uma menção direta à palavra maconha. A mensagem é subliminar e fica ao sabor de cada um a interpretação sobre o que seria realmente essa “verdinha”.

Desde que o clipe foi lançado, a cantora tem sido acusada de fazer apologia à maconha, no entanto, ela nega que a música é sobre maconha. Ludmilla chegou até a postar em sua rede social que sua música estava influenciando crianças a comerem alface e outras verduras. Contudo, isso não foi suficiente para que ela não perdesse o patrocínio de uma marca de sapatos logo após o clipe ser lançado, o que cantora resumiu como vergonhoso. Ainda no final do ano passado, o clipe chegou a ser reclassificado para maiores de idade no Youtube.

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Mas o ponto alto da criminalização que Ludmilla vem sofrendo aconteceu após a funkeira cantar a música “Verdinha” no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo. O deputado federal e pastor Otoni de Paula (PSC/RJ) protocolou uma notícia-crime contra a apresentadora Fátima Bernardes, pedindo investigação sobre apologia ao uso de drogas. Segundo o deputado, a música “Verdinha” faz explícita referência ao plantio, uso e comercialização de maconha, além do fato da música ter sido exibida no turno matutino da televisão, num horário em que menores de idade poderiam ser telespectadores.

O senador Eduardo Girão (Podemos–CE) encaminhou um ofício ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, pedindo ação do referido órgão contra a apresentação de Ludmilla no programa. No ofício enviado a Moro, o senador argumentou que a música “Verdinha” contém um “cunho apelativo e estimula o uso de drogas ilícitas e em nome da família brasileira, principalmente as que sofrem as consequências drásticas que a dependência química causa, bem como pela afronta à legislação penal vigente, requeremos deste Ministério a adoção de medidas cabíveis“.

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E como não poderia faltar, o mentiroso ministro da Cidadania Osmar Terra disse que a música “Verdinha” é um “lobby descarado pela legalização da maconha”. A marca de cosméticos Avon está sendo ameaçada de boicote por anunciar Ludmilla como sua garota propaganda para uma promoção no Instagram.

Em sua defesa, Ludmilla disse que não vai poupar esforços para adotar medidas cíveis e criminais para responsabilizar os autores de conteúdos preconceituosos e caluniosos, que mascarados de reprovação, visam, na verdade, difundir ódio e discriminação a sua manifestação cultural e à liberdade de expressão garantida pela Constituição.

A perseguição que está sofrendo Ludmilla não difere muito da repressão sofrida pela banda Planet Hemp, na década de 90, quando em 1997 os artistas ficaram presos por cinco dias em Brasília acusados por apologia ao uso de maconha.

O sambista Bezerra da Silva cantava suas músicas com temas relacionados às drogas, a exemplo de “Malandragem dá um tempo”, “Overdose de cocada”, “Semente” e “Tem coca aí na geladeira”, canções interpretadas com ironia e humor, que caracterizam o samba malandro. Na música “Overdose de cocada”, Bezerra da Silva faz uma metáfora entre cocada, doce à base de coco, e cocaína, a droga ilícita, mas em nenhum momento a música afirma estar falando de cocaína: o objeto se encontra indefinido, porque justamente está em estado metafórico, assim como na música “Verdinha”.

Além do mais, nós sabemos que a principal estratégia para a criminalização do Funk no Brasil é associá-lo ao tráfico de drogas, recentemente o DJ Rennan da Penha foi libertado após ser condenado sem nenhuma prova que demonstre a associação do DJ com o tráfico de drogas. DJ Rennan é acusado de promover bailes funk para que uma determinada facção venda drogas e de ser olheiro do tráfico, por causa de publicações em rede social sobre tiroteios na Vila Cruzeiro. Alguém acusaria os promotores de raves de estarem organizando festas para a venda de drogas sintéticas?

Durante a instalação das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), os bailes funk foram proibidos ou só poderiam ser realizados com permissão da autoridade policial. Da mesma forma, foi a guerra às drogas que legitimou a entrada violenta da polícia de São Paulo no batidão em Paraisópolis, provocando a morte de 9 pessoas.

Ludmilla não está sendo acusada e criminalizada por apologia à maconha apenas por causa da música “Verdinha”. É preciso levar em consideração a sua condição de mulher negra, que já foi vítima de racismo em outras situações. Portanto, o estereótipo mulher negra e funkeira é rapidamente subterfúgio para que a sua atividade esteja à serviço do consumo e da venda de drogas ilegais. Porque, no imaginário social, o Funk é um estilo musical moralmente reprovável por causa da sexualidade das mulheres, o ambiente social das festas é favela, logo tem a presença de homens armados com fuzil e todos esses sujeitos são estigmatizados por serem negros. Não há outra forma de nomear isso a não ser dizendo: É racismo!

*Henrique Oliveira é historiador e militante antirracista contra a proibição das drogas.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia em close-up e meio perfil de Ludmilla, com chapéu branco, adornado com tirinhas de pedrinhas brancas, e peruca de duas cores, verde e preta. Imagem: reprodução/Youtube.

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