Verão da Lata: navio jogou toneladas de maconha no litoral brasileiro há 33 anos

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Das 15 mil latas lançadas ao mar, a polícia só conseguiu apreender 2.563, conforme os registros oficiais. O resto foi consumido ou se perdeu nos mares brasileiros. As informações são do History

Em 1987, milhares de latas cheias de maconha de boa qualidade começaram a aparecer no litoral brasileiro. Tudo começou no dia 13 de setembro daquele ano, quando a tripulação do navio Solana Star, temendo ser presa no Brasil, resolveu lançar ao mar 22 toneladas da erva. Assim, pouco tempo após o fim dos anos de chumbo da ditadura militar (1964-1984), estava aberto o caminho para o início do lendário “Verão da Lata”.

Ao todo, foram deixadas para trás 15 mil latas cheias de maconha, cada uma com 1,3 ou 1,5 quilo de erva. Para muita gente, avistar e recolher uma delas no mar ou na praia durante o verão de 1987-1988 era como acertar na loteria. Os usuários de cannabis sentiam que haviam tirado a sorte grande ao escapar da polícia e dos traficantes ao mesmo tempo. E a polícia sabia o que essas pessoas faziam, mas não podia fazer muita coisa. Era muita, mas muita lata invadindo 2 mil quilômetros de praias, do litoral do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

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O navio que deu origem ao famoso Verão da Lata foi o Solana Star, que partiu da Austrália e parou para recolher sua preciosa carga em Singapura, no sudeste da Ásia. Seu destino oficial era o Panamá, mas no caminho a droga seria distribuída nos EUA, a partir de Miami. Depois de navegar por 65 dias, o barco começou a ser perseguido pela Marinha e Guarda Costeira, perto de Angra dos Reis, após ter que fazer uma baldeação de emergência no Brasil.

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Perseguição e descarte do carregamento

A DEA (Drug Enforcement Administration), órgão dos EUA responsável pelo combate ao tráfico de drogas, fez o alerta sobre a carga do Solana Star para as autoridades brasileiras, enquanto o navio ainda estava na metade do caminho para cá. Um grupo de 15 a 20 homens promoveu uma caçada ao navio por duas semanas, com o apoio de aeronaves, utilizando até uma fragata e um contratorpedeiro da Marinha do Brasil. Foi uma verdadeira operação de guerra. Para se livrar do flagrante, aproximadamente 22 toneladas de maconha foram despejadas próximo a Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Depois disso, as correntes marítimas espalharam as latas, principalmente, no litoral paulista e fluminense.

Antes de jogar ao mar as 15 mil latas, os tripulantes, que estavam sem comida e água potável, pensaram em afundar o Solana Star com toda a carga dentro. Pegariam outro barco nos EUA, retornando para buscar o carregamento no fundo do mar meses depois. Seis norte-americanos e um costa-riquenho, com idades entre 32 e 52 anos, formavam a tripulação registrada do Solana Star que desembarcou no Rio de Janeiro. O cozinheiro foi o único preso. Após três vistorias, apenas dez centigramas de maconha foram encontradas pela polícia nos depósitos do Solana Star, onze dias depois de sua ancoragem no Rio de Janeiro. Somente o cozinheiro foi preso na época, no Rio de Janeiro.

O cozinheiro foi condenado a 20 anos de cadeia, mas foi absolvido em segunda instância, após passar um ano na prisão. Uma carga de 22 toneladas, como a do Solana Star, renderia por volta de 90 milhões de dólares aos traficantes internacionais.

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“Qualidade superior”

No Brasil, devido à “qualidade superior da erva”, cada lata de maconha poderia ser comercializada por até 500 dólares na Zona Sul do Rio de Janeiro. Das 15 mil latas lançadas ao mar, a polícia só conseguiu apreender 2.563, conforme os registros oficiais. O resto foi consumido ou se perdeu nos mares brasileiros.

Mesmo quem não consumia a droga caçava as latas. Durante o dia, elas eram escondidas na areia e revendidas mais tarde para intermediários. Alguns surfistas viraram traficantes. Pescadores e marinheiros também trocavam as latas, que tinham alto valor, por pranchas, redes de pesca, carros e até casas. “São pessoas humildes, que tentavam ganhar dinheiro fácil e acabaram se dando mal”, afirmaram policiais aos repórteres quando prendiam caiçaras que vendiam a lata para quem vinha buscar na fonte. Já os traficantes chegavam a passar para frente o conteúdo por cinco vezes mais. Um caseiro foi preso com 334 latas escondidas em uma mansão em Angra dos Reis.

E que fim levou o Solana Star? O navio foi apreendido e leiloado, ganhando um novo nome: Tunamar, destinado à pesca de atum. Sua vida útil, no entanto, durou muito pouco. Logo em sua viagem inaugural, em 11 de outubro de 1994, afundou quando fazia uma viagem de Niterói ao litoral de Santa Catarina.

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#PraCegoVer: em destaque, foto em preto e branco de algumas das latas sobre um piso de caquinhos e uma delas aberta com o seu conteúdo sendo segurado por uma pessoa que está agachada, da qual se vê apenas o braços e parte da perna.

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