Usar maconha na gravidez não prejudica a cognição das crianças, segundo décadas de estudos

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Revisão de quase três décadas de estudos revela que não há evidência de que o uso de cannabis durante a gravidez interfira no desenvolvimento cognitivo das crianças. As informações são da Forbes, traduzidas pela Smoke Buddies

Nos EUA, as crianças e seus pais enfrentam rotineiramente a separação e outras formas de punição devido a políticas legais e médicas em torno da exposição pré-natal à cannabis, e a noção de que o uso de cannabis durante a gravidez pode prejudicar o desenvolvimento das crianças.

Mas de acordo com uma revisão da pesquisa até o momento, não há evidências para apoiar essa crença sobre a cannabis, nem as políticas indiscutivelmente prejudiciais que se fiam nela. Após quase seis anos comparando os resultados dos estudos, pesquisadores da Universidade de Columbia, do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York e da Universidade de Swinburne descobriram que a exposição pré-natal à cannabis não leva ao comprometimento cognitivo em crianças, com base em dados de décadas de estudos sobre essa questão.

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Publicada em maio na revista Frontiers in Psychology, a revisão sistemática revelou que a vasta maioria dos estudos sobre esse tópico não encontrou diferenças estatísticas significativas entre as crianças que foram expostas à cannabis durante a gravidez e as que não foram. Menos de 5% dos estudos comparáveis ​​nessa área mostraram qualquer diferença estatística entre as pontuações das crianças nos testes cognitivos; é importante ressaltar que eles incluíram pequenas quedas e melhorias nas pontuações, e todos, exceto 0,3% dos resultados do estudo, ainda caíram na faixa de normalidade.

Embora as análises de pesquisas anteriormente estabelecidas demonstrem que a exposição pré-natal à cannabis parece não afetar adversamente o desenvolvimento físico das crianças, a questão sobre se isso poderia ou não afetar seu desenvolvimento cognitivo permaneceu um tanto sem resposta nessa escala maior — enfim, deixando as autoridades médicas e legais basearem suas políticas em estudos individuais que não mostram todo o quadro estatístico, sem falar nas implicações clínicas para as crianças na vida real.

Para examinar as implicações estatísticas de todos os dados existentes sobre a exposição pré-natal à cannabis até agora, os pesquisadores Dra. Ciara A. Torres, Dr. Carl L. Hart, Christopher Medina-Kirchner e Kate Y. O’Malley revisaram centenas de estudos referentes ao uso de cannabis e crianças, enfocando várias dezenas que abordavam especificamente a exposição pré-natal à cannabis e a cognição infantil.

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“No geral, descobrimos um total de 1.001 comparações estatísticas entre grupos de participantes que foram expostos à cannabis no pré-natal e controles não expostos… e apesar de analisar estudos em aproximadamente três décadas, concluímos que as evidências não apoiam uma associação entre exposição pré-natal à cannabis e déficits cognitivos clinicamente relevantes”, escreveram os pesquisadores. Em geral, eles escreveram: “Os estudos revisados ​​mostram que existem diferenças sutis no desempenho cognitivo entre crianças que foram expostas à droga no pré-natal e controles, mas as conclusões tiradas às vezes se estendem muito além dos dados reais”.

“As implicações clínicas dessas diferenças sutis são quase impossíveis de se determinar sem o conhecimento do intervalo de desempenho esperado para um grupo específico através do uso de dados normativos… um princípio central de avaliação em neuropsicologia clínica que parece ser amplamente ignorado na literatura sobre a exposição pré-natal à cannabis”, eles continuaram.

“Portanto, este artigo aborda uma lacuna importante em nosso conhecimento científico, na medida em que os resultados devem esclarecer até que ponto a exposição pré-natal à cannabis produz consequências clínicas na prole… o que poderia ter importantes implicações políticas e de saúde pública.”

A Dra. Torres, professora assistente de psicologia da Columbia e principal autora da revisão, observou que estudos individuais têm sido frequentemente citados pelas autoridades legais e médicas dos EUA e do estado ao implementar políticas que servem para punir as mães — como encarcerando-as ou removendo crianças de casa — simplesmente por testarem positivo para maconha antes ou depois do parto.

A Dra. Torres disse que ficou “perturbada” quando soube dessas práticas comuns, que serviram de motivação parcial para a revisão do estudo. “Eu queria ver se as enormes preocupações que tivemos [como sociedade] em relação à exposição pré-natal à maconha eram justificadas”, explicou ela em uma entrevista por telefone.

Agora que os anos de trabalho dela e de seus colegas neste projeto estão concluídos, disse Torres, parece claro que a qualidade e a quantidade de dados existentes sobre a exposição pré-natal simplesmente não sugerem que isso leve a resultados cognitivos fora da faixa de normalidade para crianças. Ela ressaltou que a maioria dos estudos existentes também não apresenta o tipo de análise de relevância clínica que os pesquisadores e formuladores de políticas devem estar procurando no futuro.

Torres observou que as diferenças estatísticas entre os grupos recebem muita atenção nos círculos científico e da mídia, mas geralmente dizem pouco ou nada sobre o impacto clínico de tais diferenças, se elas existem. Por exemplo, de uma perspectiva clínica, descobrir que o QI médio em uma sala de aula é 98, mas 104 na sala ao lado não seria motivo de preocupação; isso ocorre porque um QI “normal”, conforme definido pela Kaufman Assessment Battery for Children, segunda edição, varia de 85 a 115.

“Só por que dois grupos são diferentes, não significa que um grupo precise de ajuda”, disse ela. Ela também enfatizou que, apesar de alguns grupos com exposição pré-natal à cannabis terem pontuações mais altas em algumas métricas, a grande maioria das pesquisas nessa área e similares tem procurado ativamente resultados negativos e, portanto, pode estar interpretando pequenas diferenças entre os grupos como evidência de comprometimento.

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“Há uma suposição de que, apesar de as crianças nascerem saudáveis ​​e normais, há um impacto que não podemos ver, que precisamos apenas esperar que elas cresçam para ver a deficiência”, disse Torres. Ela disse que também é importante que os formuladores de políticas e a mídia estejam cientes de que esses tipos de estudos (incluindo os dela) “não estão tentando determinar se algo afeta a cognição”, e os resultados não nos dizem se esse fator foi responsável pelas diferenças de desempenho, melhores ou piores.

“Tudo o que eles podem nos dizer é que há uma associação entre [diferenças de desempenho] ​​e maconha”, continuou a Dra. Torres. E a vasta maioria desses estudos sugere que diferenças significativas no desempenho simplesmente não existem.

A Dra. Torres e seus coautores observaram que um estudo sobre crianças em idade escolar, publicado em 2008, merece “atenção especial” por ser o único artigo encontrado “onde o grupo exposto à cannabis no pré-natal obteve pontuações [cognitivas] que caíram fora da faixa normal”.

No entanto, eles alertaram que as conclusões desse estudo deveriam ser tiradas como um grão de sal, em suma, por que os sujeitos também mostravam diferenças nos ambientes domésticos, níveis de pobreza e capacidade cognitiva materna. Esse estudo também não considerou se as crianças haviam se beneficiado de participar de programas de pré-escola ou creche, devido à falta de informações.

De fato, de acordo com a advogada Lynn Paltrow, diretora executiva do National Advocates for Pregnant Women (NAPW), as pesquisas sugerem cada vez mais que uma ampla gama de circunstâncias de vida maiores e muitas vezes inerentes tem um impacto muito maior no desenvolvimento infantil do que praticamente qualquer coisa que os pais possam ter feito no período de gravidez.

“O que entendo dos cientistas e pesquisadores é que parece que nada que uma pessoa grávida faz durante o curso da gravidez tem maior influência sobre o resultado da gravidez do que todos os anos anteriores de sua vida que antecederam a gravidez”.

Para um exemplo recente e pungente, Paltrow apontou para o aumento da cobertura e investigação nos últimos anos do “fato de as mulheres grávidas negras terem taxas tão altas de morbimortalidade materna e mortalidade”.

Ao tentar explicar essa grave divisão de resultados, alguns pesquisadores e profissionais de saúde assumiram a premissa “francamente racista” de que as mulheres pretas usavam mais álcool e drogas — o que a pesquisa mostrou que “simplesmente não é o caso”, disse Paltrow. Eles tentaram vinculá-la ao nível de renda, disse ela, teorizando que mulheres negras mais seguras e/ou privilegiadas financeiramente não veriam taxas tão altas de resultados negativos, e mais uma vez se mostraram errados.

Em vez disso, “a melhor teoria para explicar as taxas de mortalidade materna de pretas — que inclui todas as mulheres negras — é que o estresse de ser negra nos Estados Unidos da América, por resistir ao racismo durante todos esses anos, cria problemas de saúde durante e após a gravidez”, Paltrow disse.

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Como advogada e defensora da justiça reprodutiva, Paltrow disse que seu principal argumento tanto sobre a revisão pré-natal da cannabis quanto sobre o estado atual das coisas é que as políticas públicas relativas à gravidez “devem se basear na ciência”.

“Repetidamente vemos políticas, muitas delas punitivas, que não têm base científica, e crianças são removidas de suas casas e mulheres são presas”, disse ela. “Esse sistema de usar testes de drogas para determinar a capacidade dos pais está totalmente fora de controle, mesmo nos estados que não definem o uso de substâncias durante a gravidez como abuso físico de crianças e não se baseiam em evidências que vinculem o uso de drogas ao abuso de crianças”.

Nesta área, como tantas outras, as decisões dos formuladores de políticas, bem como dos prestadores de serviços médicos e sociais, ainda são muitas vezes baseadas em “desinformação médica e preconceito alimentados por 40 anos de propaganda da guerra às drogas”, disse Paltrow, assim como a ideologia antiaborto “que promove o mito de que o feto é de alguma forma separado da saúde dos pais, que a única fonte de risco para os fetos é a pessoa grávida e que ela é a única pessoa que causa impacto durante a gravidez”.

Na ausência de pesquisas que realmente examinem os possíveis vínculos entre abuso de substâncias e relatórios de abuso infantil, acrescentou Paltrow, os profissionais de saúde parecem pensar que devem fornecer informações falsas para “assustar as mulheres porque eles não confiam nas mulheres para tomar boas decisões informadas durante a gravidez”.

“Há uma tendência de tratar as mulheres grávidas como se elas fossem crianças”, disse ela, e, como se vê, os resultados da propagação de falsidades supostamente bem-intencionadas podem ser bastante prejudiciais.

Quando se trata de cannabis, álcool ou outras opções de consumo, mas também coisas como poluição no ar e perclorato na água, também é importante que as grávidas estejam cientes de que não conseguem controlar a maioria dos fatores mais importantes na maneira como seus filhos nascerão, disse Paltrow.

“Continuamos fingindo que, se você pode consertar uma pessoa grávida, pode garantir um resultado saudável ao nascer, mesmo que 10 a 15% das gestações sejam perdidas, não importando o que aconteça — e espalhando o mito de que os resultados do nascimento dependem principalmente do que os pais fazem ou não fazem, quando fica claro que o útero social é o que realmente importa.”

O conselho de Paltrow para todos os membros bem-intencionados da mídia que cobrem essas questões é que, além de reforçar os preconceitos raciais e de gênero de longa data, eles devem garantir que qualquer cobertura de estudos isolados seja “extremamente cética, especialmente se forem feitos em ratos”.

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#PraCegoVer: em destaque, foto em plano fechado que mostra os pezinhos de um bebê sobre a mão de uma mulher, que está deitada sobre um tapete cinza, podendo-se ver seu cabelo na parte esquerda da imagem; detalhe para o esmalte preto nas unhas. Foto: PublicCo | Pixabay.

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