“Única solução para a violência é legalização de todas as drogas”, diz ex-presidente colombiano

juan manuel santos “Única solução para a violência é legalização de todas as drogas”, diz ex presidente colombiano

Nobel da Paz pela assinatura do acordo de paz com as Farc, Juan Manuel Santos acusa atual presidente de não implementar aspectos sociais e de segurança do pacto; para ele, lideranças como as de Bolsonaro e Trump estão em declínio. As informações são d’O Globo

Ele parece não perder nunca o bom humor, mas quando o assunto é paz a expressão muda. Cinco anos após ter assinado o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) está preocupado. Numa longa entrevista em seu escritório de Bogotá, o ex-chefe de Estado afirmou que o entendimento não corre risco, mas admitiu que a violência aumentou de forma expressiva nas regiões onde a saída da guerrilha deixou um vazio hoje ocupado por diferentes grupos criminosos.

Ganhador do Nobel da Paz em 2016, Santos defende um acordo com o Exército de Liberação Nacional (ELN), a última guerrilha em atuação na Colômbia. Para combater a violência do narcotráfico, ele defende a legalização de todas as drogas. As tensões políticas na América Latina o inquietam: “O Brasil deveria ser o líder, mas seu presidente é o menos indicado”. Para Santos, “lideranças autoritárias como as de Trump e Bolsonaro estão em declínio”.

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Como o senhor avalia o processo de paz?

Não podemos esquecer, primeiro, que este foi um acordo para terminar com a guerra com as Farc, a guerrilha mais antiga e poderosa da América Latina. Esse acordo foi bem sucedido, 95% dos membros das Farc que se desmobilizaram e entregaram suas armas participam do processo. Os dissidentes recrutaram pessoas por fora. Apenas 5% são ex-membros das Farc. A média de reincidência é entre 12% e 15%. A maioria dos ex-guerrilheiros está se integrando à vida civil, são um partido político, isso funcionou muito bem. Mas o acordo de paz tinha objetivos muito mais ambiciosos. Buscavam-se transformações nas zonas onde estava concentrada a violência, reformas políticas, a questão do narcotráfico, o acordo tem capítulos sobre etnias, gênero. A primeira fase foi cumprida. Dos outros aspectos, que envolviam um plano de desenvolvimento no longo prazo, alguns funcionaram e outros não. O acordo encontrou resistência neste governo, que votou contra o acordo [no referendo de 2016]. Quando percebeu que não podia ir contra o acordo, passou a dizer que estavam fazendo mais que nosso governo. Seria ótimo se fosse verdade, mas não é. Isso mostra que o acordo não é frágil, como disse o presidente [Iván Duque] nas Nações Unidas.

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O governo de Duque exibe resultados positivos do acordo.

Isso quer dizer que agora sim estão entusiasmados. Seria bom que esse entusiasmo levasse o governo a dedicar mais orçamento e ter políticas mais ativas. De qualquer forma, o acordo não tem volta atrás. O próximo governo terá um plano de voo. No acordo estão as soluções para muitos dos problemas do país, que foram agravados pela pandemia. A desigualdade, sobretudo no campo. Temos a maior concentração de terras no mundo.

O acordo não inclui muitos grupos violentos que estão atuando no país.

Muitos desses grupos criminosos, que quiseram preencher o vazio deixado pelas Farc, já existiam, mas se multiplicaram. Essa violência que estamos vendo em certas regiões, os assassinatos dos líderes sociais, isso demonstra a incapacidade do governo de aplicar uma política de segurança efetiva.

O senhor vê uma intenção do governo Duque nisso, talvez uma tentativa de gerar críticas ao processo de paz?

Não. Acho que simplesmente abandonaram algumas políticas porque eram do governo anterior. Temos isso, combinado à ineficiência do governo. É triste, porque nessas regiões hoje as pessoas estão desesperançadas. No começo, a erradicação de cultivos ilícitos foi muito bem-sucedida. Se você não dá alternativas aos camponeses eles voltam a plantar esses cultivos. Por isso, o acordo fala sobre substituição voluntária de cultivos ilícitos, o que nós começamos a fazer. As Nações Unidas revisaram essa parte do acordo, e no começo menos de 1% dos camponeses voltaram a produzir drogas. Mas este governo, e o governo de Trump nos Estados Unidos também, tem a imagem de que os camponeses são terroristas e fazem parte da guerrilha. Deixaram esse programa morrer. Fizeram o mesmo com o programa das Forças Armadas de criar pelotões nas regiões de conflito, para fazer trabalho social. Isso gerou um vazio que foi ocupado pelos grupos violentos, os narcotraficantes. Algo se fez, mas muito menos do que deveriam.

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O processo de paz está em risco?

Não. As Farc não voltarão e o processo está blindado juridicamente. Os outros grupos violentos não são atores políticos.

O que se faz com esses grupos violentos?

Com o ELN poderia ser feito um acordo de paz. Com os outros é preciso fazer uma política de segurança. O problema é que tivemos ministros da Defesa que não sabem a diferença entre um coronel e um sargento.

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Qual é sua expectativa sobre a mudança de governo na Colômbia e como ela poderá impactar no processo de paz?

Acho que a mudança de governo será positiva para o processo de paz, ganhe quem ganhar. Hoje todos estão entusiasmados e dizem que vão implementar o processo. Sou otimista. Depois dessa prova de fogo, de ter sobrevivido durante quatro anos a um governo hostil, o acordo ficará fortalecido.

O nível de violência lhe preocupa?

Sim, claro. Mas essa violência não é culpa do acordo. Aqui falta uma política de segurança. As Forças Armadas e policiais foram politizadas. A Colômbia continua tendo muita violência e uma das origens dessa violência é o narcotráfico. Nesse sentido, tenho uma posição radical. Sou a pessoa que mais erradicou cultivos ilícitos, que mais fumigou, que mais narcotraficantes extraditou, foram mais de 1.400. Hoje estou convencido de que a única solução, no longo prazo, é a legalização.

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Da cocaína inclusive?

Sim, da coca também. Digo isso desde que era presidente, mas sei que é impopular. Me diziam que eu queria envenenar as crianças. Minha pergunta era, para as mães dos que seriam presos por narcotráfico, se preferiam que seus filhos fossem presos ou levados a uma instituição para serem reabilitados. Todas diziam que prisão não. Pois bem, essa seria a legalização. Regular para tirar o dinheiro das máfias. Foi o que aconteceu nos EUA com o uísque. Sempre conto uma anedota de Churchill, que chegou aos EUA e pediu um uísque. Quando lhe disseram que estava proibido, ele respondeu: “Que país mais estranho, o dinheiro gigantesco que rende a venda de uísque vai para as máfias. No meu país esse dinheiro vai para a arrecadação fiscal”. Estou num grupo que se chama Comissão Global de Políticas de Drogas, onde está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e ambos defendemos essa política de legalização.

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Como o senhor vê hoje a região?

Muito mal, da Argentina ao México, vejo uma total falta de liderança. Uma polarização por todos os lados. A pandemia revelou problemas estruturais e os piorou, somos o continente mais desigual do planeta. Falta uma liderança que possa aproveitar as oportunidades que vão surgindo, a oportunidade de fazer um novo contrato social.

O Brasil não lidera…

O Brasil deveria ser o líder, mas seu presidente é o menos indicado. O México seria uma alternativa, mas ali tampouco vejo essa liderança. Faltam líderes que despertem empatia, apoio no resto da região. Talvez essa liderança autoritária estilo Trump e Bolsonaro esteja em declínio, e, ao mesmo tempo, esteja surgindo uma liderança que gere confiança, que fale verdades. Veja exemplos como a Nova Zelândia, Alemanha, é o que as pessoas hoje admiram no mundo. Na América Latina, podemos encontrar esse tipo de liderança com mais compaixão. Precisamos de líderes que entendam que, se não trabalharmos pelos mais pobres, não teremos futuro. Também que sejam mais empáticos com a natureza.

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O senhor acredita que nas próximas eleições presidenciais a região vai fazer um giro ao centro?

Acho que pouco a pouco giraremos mais a um centro diferente. Toda a região escandinava, por exemplo, é social-democrata. A Alemanha agora também será. Isso combinado com políticas mais verdes é o que precisamos.

Pensando na eleição brasileira, como o senhor vê, por exemplo, a possibilidade de que Lula volte a ser presidente?

Prefiro não opinar, mas, se tivesse de escolher entre Lula e Bolsonaro, prefiro Lula. Como presidente, tive uma relação muito boa com Lula, que me ajudou no processo de paz. Estou muito agradecido a ele.

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O governo Joe Biden já é uma decepção?

A decepção é para toda a América Latina, havia muita expectativa. Quase que não existimos. Isso é atribuído dentro do governo aos problemas internos. Ao peso dos conservadores latinos no estado da Flórida. Mas é uma pena, ainda existe grande expectativa. Espero que cheguem logo, porque talvez seja tarde.

O que mais lhe preocupa?

A situação na Nicarágua, por exemplo, é um desastre. Por que a Nicarágua não sofre as mesmas sanções que a Venezuela? Eu escrevi contra Daniel Ortega em 1985 e sou persona non grata no país. Nenhum desses regimes pode perdurar muito tempo. É o que espero.

Maduro parece mais forte do que nunca?

Sim, por erros como os que foram cometidos por Duque. Ele foi advertido.

O senhor acredita numa solução para a Venezuela?

Se oferecerem a Maduro uma ponte de ouro, e derem ao chavismo garantias parecidas com as que deram a Ortega a primeira vez que saiu do governo [após a derrota nas eleições de 1990], poderia haver uma transição pacífica e negociada. Essa seria a única forma de ter um resultado que não seja um desastre do ponto de vista humano. Não sou muito otimista sobre as negociações no México, mas o simples fato de que estejam sentados lá negociando é uma boa sinalização. Mas a solução da Venezuela passa por Rússia, China, Cuba, e todos deveriam estar interessados em construir essa ponte de ouro. O próprio chavismo, pelo menos com os chavistas que eu falo, também estaria interessado. Sabem que podem perdurar, mas a situação social e econômica é muito complicada.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra Juan Manuel Santos, vestido com paletó preto e gravata azul, segurando o diploma e a medalha do prêmio Nobel da Paz. Foto: Håkon Mosvold Larsen / NTB.

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