Tornar-se mãeconheira

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Maíra Castanheiro, em parceria com a Bem Bolado Brasil, conta sua história como mãe, mãeconheira e ativista

Ser mãeconheira: da gestação para gastação até gera ação* 

Começo este texto buscando adequar-me neste ser mãeconheira que sem querer querendo eu construí. Construí a partir de uma brincadeira. Tal como as crianças aprendem, brincando, se divertindo.

Eu estava brincando com o fato de eu ser muito maconheira e de repente, mãe. Começou na gestação. Logo veio a gastação: eu já muito maconheira me via agora mãeconheira. Risos. Eu não queria parar de fumar. O ano era 2012. A única rede social que eu usava era o facebook. Eu não tinha celular e tinha um blog: América Latindo. Não havia nas redes sociais quase nada sobre maconha e maternidade, sobre drogas e maternidade.

Sempre que havia algum papo sobre drogas e maternidade, era carregado de estigmas, cujas mães eram dependentes químicas, uma relação não saudável, no lugar de vítima, de derrota, de depressão, de autodestruição.

E esta cena veio primeiro na minha casa, antes mesmo de eu conhecer histórias como essas nos filmes, livros e novelas. Antes mesmo de eu ler Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Antes mesmo de eu ver os filmes Kids, Trainspotting. Cresci com minha mãe sendo uma usuária de drogas: álcool, tabaco, cocaína, crack, e isso implicou diretamente na sua maternidade. Dos 14 aos 18 anos eu não tive contato físico com minha mãe. Morava com meu pai na Bahia e ela morava em Florianópolis. Estava sempre sendo internada por conta de sua dependência química, somada aos seus transtornos como bipolaridade e borderline.

Só quando de fato casei engravidei pari amamentei e me separei, que pude perceber o contexto histórico de minha mãe pra entender porque ela estava naquele papel, naquela cena, naquele drama. Foi quando entendi muito sobre machismo estrutural, que entra em nossas casas em nossas vidas causando muitas feridas. Feridas que muitas vezes não são curadas porque sequer são vistas. Ainda que as feridas sejam de carne viva, muitas mulheres não puderam olhar pra a própria carne que sangra e pedia cuidado. Elas seguiram e pariram. E seguiram e pariram.

Entender a história e o lugar de minha mãe foi importante pra eu entender o meu lugar e propósito. Pesquisei muito sobre maconha na gravidez e amamentação e encontrei a pesquisa de Melanie Dreher, uma pesquisa profunda e séria sobre o tema. O conhecimento me fez sentir segura para seguir fumando maconha na gravidez e na amamentação.

Após separar-me do pai de minha filha, em 2015 quando Maria Alice tinha então 2 anos e meio, eu comecei a escrever o Diário de uma Mãeconheira. Sem nenhuma pretensão política e literária. O diário é meu instrumento de autoconhecimento que há muito anos desenvolvo. Desde que aprendi a escrever na verdade. Quando escrevo o diário, exerço a escrita de si escrita criativa curativa, ou seja, eu simplesmente deixo as palavras virem, tento ao máximo lidar com minha verdade, meus sentimentos e pensamentos. E tornar público este exercício ganha outro sentido. Quando publicamos nossas histórias e temos o retorno quase que imediato do público (a internet nos proporciona muito isso) cria-se um diálogo e pontes. 

Muitas pessoas, com contextos e histórias completamente distintas, se reconhecem nos textos e trazem suas reflexões que por suas vezes me fazem refletir. Este debate público foi tecendo minha escrita. Foi tecendo minha estética. Foi tecendo minha política. E quanto mais o diário crescia e aparecia, mais rebelde ele é e mais incomoda.

Foi quando começou a implicar na minha vida como professora: muitas escolas não me admitiam ou me demitiram quando descobriram que eu assinava tal blog no facebook: O Diário de uma Mãeconheira.

Em 2019 o pai de minha filha conseguiu a guarda provisória de nossa filha e no processo anexou prints dos textos Diário de uma Mãeconheira. Eu estava desempregada, alugando um quarto, professora sem escola, escritora sem livro, mãe sem filha. Tava muito foda e pesado. Eu já com 30 e muitos anos e esta cena me apavorava. Até que consegui trampo numa escola de carteira assinada, sob a condição de excluir o blog. Eu me entreguei e excluí. Estava cansada e sozinha. E muita gente não via sentido eu escrever aqueles textos, falando  de maconha e lsd, quando isso custava minha maternidade e profissão. Muita gente menosprezava este debate colocando-o como algo juvenil, adolescente.

Eu poderia escrever muitas páginas contando essa história. Eu sou historiadora. Meu avô era historiador. E meu pai, apesar de não ter feito faculdade, sempre nos trouxe muito a história. Poderia contar a história do Cuidado de Si desde Sócrates. 

A história do movimento literário de contracultura Beat. Como os Beats usaram as drogas e escrita de si para exercer o Cuidado de Si. E de como os Beats trazem uma escrita possível para qualquer um, que foda-se as regras gramaticais e as normas cultas. Desde que se escreva com verdade e coração, tudo vale a pena quando a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa, um poeta português que nada tem a ver com os Beats, mas que muito tem a ver com o Cuidado de si e com o autoconhecimento. Poderia dizer que tudo isso chega e está no Brasil com nome de Antropofagia. Oswald de Andrade nos explica. E daí temos o modernismo, o tropicalismo e a poesia marginal, todas insurgindo diante de ditaduras e tendo a palavra como principal instrumento de luta, de emancipação, de ser e estar.

Poderia explicar que maternidade e drogas são temas essenciais para pautarmos com honestidade, abarcando todas suas diversidades e adversidades. São temas urgentes e necessários para uma mudança na nossa sociedade: porque perpassa por tudo e por todos. Tá todo mundo dentro.

Mas, eu quis apenas tentar escrever o porque sou mãeconheira. Sim, começou com uma brincadeira. Mas, incomodou tanto que fui e sou obrigada a cada dia levar mais a sério. A cada dia estudar mais e conhecer mais mãeconheiras. Somos muitas, de muitas idades e lugares contextos. São muitas histórias e quando eu conto a minha sempre chega uma mãeconheira inspirada a contar a sua. E isso nos fortalece, nos aproxima e nos cura um pouco. O silêncio só é interessante para o patriarcado. As mulheres que ousam contar a própria história e torná-las públicas são vistas como putas, no sentido pejorativo como bem explica Virginie Despentes em Teoria King Kong. Rebecca Solnit, outra feminista, nos explica a importância de rompermos silêncios.

Nós, mulheres e mães, precisamos contar nossa história e este processo de fazer história já desata alguns nós. São nós de marinheiros. Mas, a cada parto a gente desata um pouco este nó. Cada uma com sua onda que quando se junta é para sol mar. Até porque mãe é mar de tanto a-mar-go. Nós mães estamos conquistando a dor e a delícia de ser só. Estamos gozando. Estamos usando nossas drogas, ouvindo nossos discos, cuidando de nossos filhos, estando com nossos amigos e buscando criar nossas crianças e nossas criações.

E ser mãeconheira é a maternidade que mais me adequa. Esta planta verdeverdade tem uma história tão antiga quanto as mães. Tá desde o início essa treta: são muitos anos que estão nos proibindo – nós, seres femininos vivos resistentes e potentes. Porque o tempo passa e ela segue resistindo e flore-sendo, apesar dos pesares a pesar. Porque maconha mulher mãe, é só poder. Como diz a Nahbrisa, só as fêmeas dão onda.

Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas!

*Texto assinado por Maíra Castanheiro. 

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