Tóquio Hemp: primeira Olimpíada após CBD deixar de ser doping aquece debate sobre maconha no esporte

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Passou a vigorar neste ano uma mudança no código sobre as drogas proibidas da Agência Mundial Antidoping, que até então previa punição de até quatro anos para atletas que fossem pegos com drogas de uso adulto — agora, a pena será de apenas um mês, caso o atleta aceite um tratamento. Desde 2018, o CBD não consta mais na lista de proibição do órgão regulador. Saiba mais na reportagem especial do UOL

Os Jogos Olímpicos de Tóquio começam em 71 dias. Será a primeira Olimpíada desde que a Agência Mundial Antidoping (Wada) suavizou punições por uso de drogas sociais (maconha, cocaína, heroína e ecstasy), e retirou da lista de substâncias proibidas o canabidiol (CBD), um dos compostos da maconha.

O processo começou em 2018 e hoje o debate está quente, inclusive no Brasil: no ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a venda do primeiro produto de cannabis sob a RDC 327/2019. Também está próxima de votação uma lei que promete facilitar o acesso a medicamentos com substâncias da cannabis, mas há resistência de setores sociais e do governo federal.

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Por outro lado, personalidades públicas divulgam cada vez mais os benefícios. Uma delas é o ex-pugilista Maguila, que usa o canabidiol para controlar uma doença degenerativa no cérebro — segundo médicos e familiares disseram ao UOL, o tratamento melhorou sua qualidade de vida.

O uso medicinal da maconha não é novo. A novidade é a relação com o esporte: como uma substância derivada da maconha pode fazer a diferença de um jeito positivo? Essa é uma das perguntas que tentamos responder. Apesar da escassez de estudos clínicos sobre a influência da cannabis no esporte, já existem artigos, publicações científicas e, principalmente, observação clínica. Alguns atletas que passaram a usar medicamentos compostos por canabidiol, também chamado pela sigla CBD, têm experiências positivas para compartilhar. Conversamos com dois que estarão em Tóquio.

 Tóquio Hemp: primeira Olimpíada após CBD deixar de ser doping aquece debate sobre maconha no esporte

O preconceito histórico em relação à maconha e o boom de aproveitadores também são assunto aqui. É hora do debate, não de tabus.

Canabidiol “dá barato”? Entenda

“Não vejo como foco de polêmica; é mais um receio em conhecer”

Bruno Soares, tenista brasileiro de 39 anos, tem 34 títulos no circuito profissional e é o atual número seis do mundo no ranking de duplas da ATP. Usa o canabidiol há três anos enquanto se prepara para sua terceira — e, possivelmente, última — Olimpíada.

“O atleta corre riscos constantemente com a dor e o cansaço. A recuperação é algo superimportante. Para tudo isso, eu nunca gostei de tomar coisa de laboratório, coisa preparada, a droga em si. Sempre gostei das coisas naturais”, conta.

Em Tóquio, Bruno poderá usufruir dos chamados benefícios de “recovery” (recuperação) da substância. “Uso o óleo e os cremes para massagem, que têm uma capacidade anti-inflamatória muito boa de recuperação e relaxamento. As gotas me ajudam a trabalhar a tranquilidade, lidar com a ansiedade, desconectar um pouco. O creme, geralmente, coloco onde tenho dor e deixo durante a noite”.

Na manga de seu uniforme está estampada uma marca de produtos à base de cannabis. Ele conta que isso gera mais interesse por parte de atletas, fãs e comissões técnicas em eventos esportivos do que preconceito. “Há, ainda, uma lenda muito grande por trás disso, as pessoas associam com a maconha recreativa. O fato de entenderem que é um tratamento eficaz para várias doenças, que vários atletas estão usando, chama a atenção para os benefícios”, diz, antes de completar: “Cabe a cada um quebrar esse tabu e se aprofundar no recurso”.

“Há três anos comecei a ver atletas falando sobre os benefícios do CBD. O primeiro que vi foi Bob Burnquist, skatista do mais alto nível, de quem sou fã. Passei a me aprofundar, pesquisar e acompanhar estudos, conversei com médicos e resolvi provar.

Dentro do esporte, o meu corpo é a minha máquina. Eu não estaria colocando nada para dentro se não acreditasse que é pela minha saúde, para meu benefício.”

Saiba mais: O canabidiol (CBD) é uma substância psicoativa ou não?

“Um dos primeiros atletas a utilizar CBD em Jogos Olímpicos serei eu”

O UOL conversou com três médicos que já prescreveram ou prescrevem periodicamente medicamentos à base de cannabis, geralmente um óleo (mas também há cápsula, spray e até balinha), para atletas. O objetivo é alívio de dores em músculos e articulações, mas há também potencial para melhorar cicatrização de ossos e proteger neurônios. Estudos sobre propriedades anti-inflamatórias, antináuseas e anticonvulsivas estão em andamento, além de análises sobre aceleração do processo de recuperação de lesões e até como ansiolítico.

É neste último ponto a experiência do maratonista Daniel Chaves, 32 anos, em preparação para Tóquio. O atleta, que corre desde a infância, não se classificou para a Rio-2016 e chegou a interromper a carreira por falta de patrocínios. Ele trata síndrome bipolar depressiva com a substância. “Comecei a utilizar a cannabis de forma errônea, com excesso e sem benefício algum”, diz, sobre o período em que tinha apenas uma sessão de treinos com atletas amadores em sua agenda diária.

O pulo para o uso medicinal veio pouco depois: “Um amigo tinha acabado de capotar com o carro, se arrebentou e me disse que só estava sem dor por que tomava um óleo, nenhum remédio tinha ajudado. ‘E esse óleo aí, o que é?’, eu perguntei”. Era o óleo de CBD, que em pouco tempo se tornou fundamental: “Fui para Londres correr e fiz o índice olímpico muito por causa do canabidiol.”

“Estou bem feliz com a classificação para Tóquio, quero honrar nosso país. E usando CBD, sendo um dos primeiros atletas a utilizar nos Jogos Olímpicos. É um marco, uma quebra de paradigmas e uma bandeira que levanto porque acredito.

A cannabis tem um paralelo muito perfeito com a prática esportiva. Eu uso para me manter estável, meu foco aumenta, ganho clareza mental, me mantenho equilibrado, e assim eu corro melhor, descanso melhor, minha recuperação muscular é melhor. Esses benefícios levo diretamente para o esporte. Eu tomo minhas gotas e, 20, 30 minutos depois, já sinto todos os efeitos. As pessoas pensam que tomando isso vão ficar moles e não. Eu tomo CBD como pré-treino, logo de manhã. É um dos mitos que não batem. Você não fica chapado, pode tomar um vidro de óleo.

A cannabis é uma planta, uma raiz, algo natural, então cada meio de utilização dela irá trazer consequências ou benefícios. As pessoas fizeram uso errado por muito tempo e o óleo tira esse preconceito em que a planta sempre esteve imersa no mundo todo. Minha mãe, minha esposa, utilizam, pessoas que você não verá numa esquina fumando um. Mas usam o óleo como medicação. Nós atletas conseguimos mostrar um estilo de vida saudável usando a cannabis e não aquele estereótipo de maconheiros fomentando o tráfico.”

Mito do maconheiro preguiçoso é destruído pela ciência: usuários de cannabis não fazem menos exercícios

Esportistas & Cannabis

Mike Tyson

O ex-campeão mundial dos pesos-pesados no boxe se recuperou de problemas financeiros investindo na maconha. Na Califórnia, como em outros 16 estados americanos, há legalização da planta para fins medicinais e uso adulto. Por isso, o ex-pugilista decidiu investir na fabricação de produtos que rendem lucro mensal de US$ 610 mil (R$ 3,2 milhões) e no fomento de debates sobre as propriedades terapêuticas. O “Rancho Tyson”, sociedade com o ex-jogador de futebol americano Eben Britton, tem 160 mil metros de plantação. “Não gosto da pessoa que sou quando não uso.”

Megan Rapinoe

A norte-americana, atual bicampeã mundial, dona de um ouro olímpico e eleita melhor jogadora de futebol do mundo em 2019, faz uso e é embaixadora do CBD. Ela afirma que a medicação a ajuda a lidar com as dores e a se recuperar de um histórico de quatro sérias lesões nos joelhos. A NWSL (principal liga de futebol feminino dos EUA), considerada uma das mais progressistas do planeta, não só permite o uso da substância como tem patrocinadores ligados ao mercado. “Faz parte da minha rotina: me alimento bem, bebo água, uso CBD e durmo bastante: receita secreta.”

Bob Burnquist

Um dos maiores atletas da história do skate, Bob Burnquist é ativista pela legalização da cannabis. O brasileiro, que já presidiu a Confederação Brasileira de Skate, utiliza as redes sociais como ferramenta de conscientização e afirmou querer liderar estudos e montar uma comissão para dialogar na Wada. Apesar dos avanços em relação ao CBD, advoga também pelos benefícios do THC no esporte. “Estudos mostram um risco muito menor do que os opioides [medicamentos produzidos a partir do ópio, como morfina]. É uma ironia e uma hipocrisia o THC ser proibido e opioides não”, disse, à ESPN Brasil.

Livinha Souza

Ex-15ª colocada do ranking peso-palha feminino do UFC, a brasileira Livinha Souza virou em março embaixadora da USA Hemp, empresa de cannabis medicinal dos Estados Unidos. A ideia é ajudar a combater o preconceito da sociedade brasileira em relação à planta. Ela também é ativista da legalização do uso adulto, como é em alguns estados americanos. Livinha disse recentemente: “O álcool, que mata milhares de pessoas nas estradas, pode ser consumido, mas a cannabis não pode, sendo que está sendo cada vez mais comprovado cientificamente que está ajudando as pessoas”.

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#PraCegoVer: fotografia que mostra uma pessoa, em meio perfil e do nariz para baixo, que segura um baseado aceso enquanto solta uma fumaça densa pela boca. Foto: Kindel Media / Unsplash.

Sanção social da maconha: um panorama histórico

Tudo começou nos séculos 19 e 20, período marcado por grandes mudanças sociais e econômicas, como a escravidão, as abolições e o consequente desenvolvimento das cidades. “Os temas do racismo e da xenofobia são fundamentais. A cannabis tinha relação direta com o preconceito contra latino-americanos, particularmente mexicanos, e contra os negros”, explica Paulo Pereira, especialista em política internacional de drogas da PUC-SP.

“É claro que não eram só os negros que usavam maconha, mas ficou estereotipado, porque era uma maneira de identificar grupos sociais considerados subversivos, indesejados pela classe dominante”, analisa o professor. “A droga se tornou, em muitos momentos, uma carta utilizada tanto como permissão, porque beneficiava grupos que interessavam ao Estado fortalecer socialmente, como para enfraquecer, violentar e reprimir grupos entendidos como problemáticos e que tinham de ser abafados e coagidos”.

Os reflexos dessa política são vistos até hoje no Brasil. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por exemplo, é contra o projeto de lei que autoriza o plantio da Cannabis sativa para fins medicinais, afirmando que isso cria um “ambiente para cadeia de consumo da maconha” e “desagrega a estrutura familiar”.

Foi apenas em dezembro de 2020 que a Comissão de Drogas Narcóticas da ONU rebaixou a cannabis na escala de periculosidade, o que abriu possibilidades de investimento na pesquisa de efeitos terapêuticos.

O RACISMO E O PITO DO PANGO

Os “caubóis do CBD”

Preconceito não é o único problema. Existem também os “caubóis do CBD”, como especialistas britânicos têm chamado. São empresários oportunistas que aproveitam o boom da substância para vender produtos nem sempre confiáveis a partir da maconha e do cânhamo — planta da mesma espécie com índices mais baixos de THC. Um exemplo de como eles agem apareceu numa pesquisa do “Centre for Medical Cannabis”: quase metade dos produtos anunciados como ricos em CBD tinha níveis acima do permitido de THC (o que significa que um exame antidoping poderia acusar positivo para a substância). Nos EUA, CBD é vendido como suplemento e não como medicamento — evitando, assim, regras mais duras da FDA, a Anvisa deles.

Existe hoje uma oferta grande de CBD no mercado internacional, mas muitos produtos são artesanais ou não passam pelos processos corretos. “É difícil ter grau de pureza sem certificação. Isso nos deixa muito inseguros, não só para atletas. Se eu administro com crianças, quero a medicação isolada, sem THC. Eu, com meus pacientes e atletas, uso zero de THC. Mesmo tendo uma garantia de que só um pouquinho não terá alteração no doping, prefiro não arriscar”, diz o médico Pedro Pierro, que trabalha diretamente com atletas.

Para diminuir os riscos, há médicos que pedem aos fabricantes a cromatografia do produto, que é uma técnica de identificação de todos os componentes presentes. A análise é anexada ao prontuário do paciente. É o que dá para fazer enquanto as regulamentações não avançam — o que também afasta atletas inicialmente interessados.

Leia também: Armazenamento incorreto de extratos de CBD pode afetar os níveis de THC

Como é no Brasil

Existem redes de pessoas do esporte que discutem o assunto no Brasil, como a página “Atleta Cannabis”, ativa desde outubro de 2020. Segundo seu fundador, o triatleta amador Fernando Paternostro, o objetivo é ligar médicos e atletas que imaginam que o canabidiol possa ajudar. “Essa discussão ganhou muita atenção porque é produtiva e visa à saúde. Eu escolhi usar o esporte como ponta de lança para enfrentar o preconceito. Esse estigma do maconheiro preguiçoso acontece pela inércia cultural. Vai lá ser preconceituoso com as mães cuidando dos filhos com epilepsia”, desafia.

Há dois produtos à base de cannabis vendidos em farmácias comuns, um para esclerose múltipla e outro para epilepsia. Também existem associações que têm permissão jurídica para plantar e produzir o óleo, que é vendido somente para seus membros com fins medicinais. Um exemplo é a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace).

O acesso à terapia canabinoide pode aumentar em breve no Brasil por meio de um projeto de lei (PL 399/2015) que será votado na Câmara dos Deputados e pretende dar direito de plantio a empresas, associações de pacientes e ao Governo mediante justificativa e seguindo regras. Há preocupação por parte dos defensores da pauta que uma ala conservadora da Câmara pressione para dizer que a lei quer legalizar o mercado de drogas.

Leia mais – PL 399: ferramenta mede probabilidade de aprovação do projeto de lei

“No mês passado eu fiz uma participação no podcast do Felipe Solari ao vivo. Começamos a falar sobre o assunto, o algoritmo do Youtube entendeu que estávamos falando ‘cannabis’, daí cortou a monetização do programa e parou de entregar visualização ao vivo, começou a cair a audiência. A produção trocou o ‘a’ de ‘cannabis’ por um ‘4’ e a audiência começou a subir de novo. O diretor disse que foi uma loucura. Isso mostra um pouco do preconceito cultural em relação ao assunto”— Fernando Paternostro, triatleta amador, fundador do “Atleta Cannabis”.

É preciso deixar claro que existe uma separação entre os debates sobre a legalização do uso medicinal e do uso social da cannabis, embora ambos sejam impactados no Brasil por uma orientação política conservadora.

Por um lado, o conhecimento científico avança e identifica ganhos no tratamento de doenças e lesões. “Investigações rigorosas e controladas esclarecendo a utilidade do CBD no contexto esportivo são claramente justificadas”, aponta uma conclusão do artigo “Canabidiol e performance esportiva: um resumo de evidências relevantes e recomendações para pesquisa futura”, assinado por seis médicos esportivos em julho de 2020.

Por outro, ainda há resistência, mas ela esbarra cada vez mais em experiências consideradas positivas na comunidade científica internacional, tanto em países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos, como em instituições renomadas de pesquisa. Soma-se a isso a pressão crescente do mercado financeiro, que enxerga oportunidades no cultivo medicinal e, por sua vez, movimenta interesses políticos.

A caminho de sua primeira Olimpíada e de cada vez mais visibilidade, a discussão a respeito do chamado “remédio da última década” e “vedete científica da atualidade”, como dizem especialistas, promete fazer barulho.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia que mostra um top bud repleto de pistilos cor creme crescendo em um cultivo indoor, onde se vê outras plantas iluminadas por luzes amarelas e roxas, em um fundo embaçado. Imagem: Daniel Oberhaus | Flickr.

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