O sucesso da legalização da cannabis: evidências de transações bancárias

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Usando dados sobre transações bancárias, Bohdan Horak e Christoph Frei, do Departamento de Ciências Matemáticas e Estatísticas da Universidade de Alberta, analisaram como as pessoas mudaram seus comportamentos de gastos quando a cannabis para uso adulto se tornou legal no Canadá. O paper resultado da análise foi publicado no SSRN e a tradução, pela Smoke Buddies, você confere a seguir

As vantagens e desvantagens da legalização da cannabis para uso adulto estão sendo discutidas em muitos países ao redor do mundo. Um dos maiores argumentos a seu favor é que reduz ou até mesmo elimina o mercado ilícito de cannabis. No entanto, com base na natureza inerente de um mercado clandestino, há poucos dados confirmados disponíveis sobre a mudança do mercado não lícito para o mercado legal em jurisdições onde a cannabis adulta se tornou legal. Este paper preenche este lacuna na literatura.

Como o segundo país depois do Uruguai, o Canadá tornou legal a posse e o uso adulto de cannabis em 17 de outubro de 2018. Ter esta data precisa de legalização da maconha no Canadá serve de base para este estudo observacional. As províncias e territórios do Canadá são responsáveis pelos regulamentos específicos, particularmente em relação à venda e distribuição de cannabis. Em Alberta, que é a província no foco deste estudo, cada loja de maconha precisa obter uma licença da Comissão de Licores e Jogos de Alberta (AGLC). As lojas físicas permitidas estão listadas no site da AGLC. As vendas on-line de cannabis são legalmente permitidas apenas através de uma loja on-line operada pela AGLC.

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Para estudar como a legalização da cannabis afeta o comportamento de gastos das pessoas, os pesquisadores analisaram um único conjunto de dados de transações bancárias, a que tiveram acesso graças a uma colaboração com uma instituição financeira. O conjunto de dados contém informações sobre todas as transações bancárias de mais de 10% da população de Alberta. Cada pessoa foi identificada com um número arbitrário. É sabido seu gênero, data de nascimento e parte de seu código postal. Os dados não continham nenhum nome de indivíduos ou qualquer outra informação de identificação pessoal. Para cada transação bancária, as informações disponíveis contêm a data da transação, o valor e a varejista. Especificamente, as transações de cannabis puderam ser sinalizadas por que as vendas de cannabis para uso adulto no mercado legal são feitas através do site da AGLC ou em uma varejista de cannabis cujo nome está listado no site da AGLC. Isso permitiu que os pesquisadores analisassem o grupo de pessoas que compraram maconha adulta on-line no site da AGLC ou em uma varejista de cannabis permitida e pagaram com débito ou cartão de crédito. Neste estudo, esse grupo é chamado de os consumidores de cannabis.

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Os gastos dos consumidores de cannabis foram identificados de duas maneiras. Primeiro, os pesquisadores compararam seus gastos ao longo do tempo, antes e depois da legalização da cannabis. Esta análise é baseada em uma abordagem diferença-em-diferença, para a qual foi definido um grupo de controle adequado. Vários intervalos de tempo foram usados para a comparação, ou seja, um mês antes e depois da legalização, dois meses antes e depois da legalização, e um mês antes e um ano após a legalização. Os resultados apresentados a seguir são qualitativamente iguais para os diferentes períodos. A segunda análise é uma comparação dos padrões de gastos dos consumidores de cannabis em comparação com aqueles do grupo de controle no mesmo período.

A primeira análise mostra como os consumidores de cannabis mudaram seus gastos como resultado da legalização da maconha. Para esta parte, os pesquisadores se concentraram em analisar especificamente os gastos em dinheiro e transferências eletrônicas. Isso ocorre por que os pagamentos de uma grande parte do mercado ilegal de cannabis no Canadá foram feitos em dinheiro ou através de um serviço de transferência de fundos entre contas bancárias canadenses chamado Interac e-Transfer, que oferece uma forma de pagamento conveniente e privacidade, com pagador e beneficiário identificados por meio de endereços de e-mail sem o número da conta bancária; participantes preocupados com a privacidade poderiam ​​escolher um endereço de e-mail genérico e mudá-lo com frequência. Os pesquisadores descobriram que os consumidores de cannabis reduziram significativa e persistentemente seus gastos em dinheiro e transferências eletrônicas. Por exemplo, um mês após a legalização em comparação com o mês anterior à legalização, seus gastos em dinheiro e transferências eletrônicas caíram 10% e 9,1%, respectivamente, enquanto os gastos no grupo de controle aumentaram 10,2% para dinheiro e caíram 0,4% para transferências eletrônicas no mesmo período. Por que a análise mostra que esses padrões diferentes são estatisticamente significativos e persistentes ao longo do tempo, os pesquisadores os veem como indicativos de consumidores de cannabis passando do mercado clandestino para o mercado legal. Observe que isso não diz em quanto o mercado ilícito caiu. Especificamente, o crescimento do mercado legal de maconha foi lento no início, como resultado de problemas de abastecimento. No entanto, a análise mostra que pessoas que compraram cannabis legal para uso adulto reduziram significativamente seus gastos em dinheiro e transferências eletrônicas. Isso dá uma forte indicação de que muitas dessas pessoas compravam maconha regularmente no mercado não lícito antes da legalização.

A segunda análise trata dos padrões de gastos dos consumidores de cannabis. Os pesquisadores descobriram que eles gastaram significativamente mais em fast-food e álcool em comparação com o grupo de controle, tanto antes quanto após a legalização. Este padrão aparece independentemente da idade e sexo: para todos os grupos de idade e gênero considerados, os consumidores de cannabis gastaram cerca do dobro em fast-food e álcool do que seus pares que não consomem cannabis. As maiores diferenças em gastos com fast-food e álcool entre consumidores de cannabis e pessoas do grupo de controle aparecem na faixa etária de 18 a 25 anos.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra um jovem de boné preto e cinza com estampas da folha de maconha que usa um bong de vidro enquanto outra pessoa, usando máscara de lutador mexicano, coloca um concentrado no bowl. Registro feito durante a celebração do Cannabis Day, em Vancouver. Foto: GoToVan / Flickr.

Revisão da literatura

Existe um corpo de literatura em rápido crescimento sobre o impacto da legalização da cannabis. Uma grande parte dele se concentra na relação com o crime e a saúde pública. Vários estudos destacam a redução do crime como um benefício da legalização da maconha. Entre esses estudos, Adda et al. (2014) atribuem uma queda no crime em um bairro de Londres à descriminalização da cannabis. Carrieri et al. (2019) encontraram que a liberalização não intencional da cannabis light (cannabis com um baixo nível de tetraidrocanabinol), que ocorreu na Itália em dezembro de 2016 como resultado de uma lacuna legislativa, levou a uma redução das atividades criminosas. Uma conclusão semelhante foi tirada da legalização da maconha em certos estados dos EUA, onde Brinkman e Mok-Lamme (2019) observam uma redução do crime em bairros de Denver com dispensários de cannabis adicionais e Dragone et al. (2019) encontraram uma redução significativa em estupros e crimes contra a propriedade após a legalização da maconha. Auriol et al. (2020) desenvolveram um modelo para o trade-off entre a redução do mercado ilícito e o aumento do consumo de cannabis como resultado de sua legalização.

A literatura relacionada sobre saúde pública analisou particularmente o impacto da legalização da cannabis na juventude. Isso é compreensível à luz das evidências de que o consumo de cannabis afeta negativamente adolescentes e jovens adultos: jovens consumidores de cannabis são mais propensos a beber mais álcool (Williams et al., 2004), consumir drogas (Saffer e Chaloupka, 1999), sofrer de sintomas psicóticos (Fergusson et al., 2003) e abandonar a escola (van Ours e Williams, 2009) em comparação com seus pares que não consomem cannabis. Enquanto Cerd´a et al. (2012) descobriram que os estados dos EUA com maconha medicinal legalizada tinham taxas mais altas de uso de cannabis, os resultados de Anderson et al. (2013) sugerem que a legalização da maconha medicinal não é acompanhada por um aumento do consumo de cannabis entre os alunos do ensino médio. Com base em alunos matriculados na Universidade de Maastricht, nos Países Baixos, Marie e Zölitz (2017) observaram um aumento substancial no desempenho acadêmico de alunos que não estavam mais legalmente autorizados a comprar cannabis.

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Outra literatura relacionada analisa o impacto da legalização da cannabis adulta no comportamento do consumidor e no mercado ilícito. Usando dados de scanner de varejo nos condados dos EUA, Baggio e Chong (2020) encontraram um aumento estatisticamente significativo nas compras de alimentos com alto teor calórico quando a maconha está legalizada. No Canadá, o mercado legal para cannabis adulta vem crescendo rapidamente para uma estimativa de CA$ 1,2 bilhão (R$ 5,2 bilhões) em 2019 e CA$ 2,6 bilhões (R$ 11,3 bilhões) em 2020, conforme relatado por Brightfield (2021). Comparando a quantidade de dólares canadenses em circulação na semana antes e depois da legalização em 17 de outubro de 2018, Goodhart e Ashworth (2019) observaram uma queda significativa na circulação de dinheiro, que eles associam aos usuários de cannabis que trocaram de pagamentos em dinheiro para produtos ilegais para pagamentos eletrônicos para compras legais. No entanto, Engert et al. (2019) explicam o padrão incomum de circulação de dinheiro em 2018 com razões operacionais relacionados a dois bancos em Toronto, ao invés da legalização da maconha. Na verdade, a queda significativa na circulação de dinheiro apareceu apenas em Toronto e não em todo o Canadá, e a queda seria correspondem a um múltiplo das vendas de cannabis legal no quarto trimestre de 2018. Além disso, uma grande parte do mercado ilegal de maconha no Canadá usou pagamentos eletrônicos, em vez de dinheiro, conforme mencionado na introdução. A Statistics Canada (2020) conclui que o preço da cannabis legal é muito maior do que no mercado ilegal, usando dados autodeclarados enviados por consumidores por meio de um aplicativo de crowdsourcing.

Há também uma literatura sobre a economia da tributação e regulamentação de mercados de cannabis legalizados. Jacobi e Sovinsky (2016) desenvolveram um modelo para estimar o aumento na uso de cannabis e políticas fiscais eficazes se a Austrália legalizar a cannabis para uso adulto. Para o estado de Washington, EUA, Hansen et al. (2018a), Hollenbeck e Uetake (2020) e Thomas (2017) analisam a elasticidade da demanda no mercado de cannabis, eficácia de diferentes regimes tributários e implicações de prosperidade das cotas de licença. Hansen et al. (2018b) e Hao e Cowan (2019) estudam os efeitos colaterais da legalização da cannabis entre diferentes estados dos EUA.

 O sucesso da legalização da cannabis: evidências de transações bancárias

#PraTodosVerem: fotografia mostra um vidro de base quadrada e boca redonda cheio de buds curados e três potes, um azul, um metálico e outro preto, que aparecem no segundo plano, fora do foco, em uma superfície branca e lisa. Imagem: 2H Media / Unsplash.

Visão geral dos dados

O conjunto de dados usado neste estudo vem da ATB Financial, que é propriedade de uma corporação da coroa pela província de Alberta. Opera principalmente em Alberta e atende residentes de Alberta e empresas. Os pesquisadores usaram dados de transações de clientes de varejo da ATB Financial enquanto excluíram contas comerciais e governamentais. Dentre as transações bancárias, foram analisadas apenas saídas enquanto a renda e os depósitos foram ignorados para esta análise. No total, o conjunto de dados contém 66.806.387 transações provenientes de aproximadamente 535.000 pessoas.

Para cada transação, foram observados o tempo da transação, o valor gasto, a categoria e a descrição dessa transação. A descrição inclui o nome da varejista para as transações feitas em lojas de varejo. Cada transação está associada a um cliente da ATB Financial que é marcado com um ID anônimo. Para cada cliente, o estudo conta com dados demográficos sobre sexo e data de nascimento, mas não qualquer informação de identificação pessoal.

Para identificar as varejistas de cannabis, os pesquisadores usaram uma lista de licenças fornecida pela AGLC. As lojas de cannabis em Alberta precisam obter uma licença da AGLC e a lista de varejistas de cannabis licenciadas está disponível publicamente. No momento deste estudo, havia 182 varejistas de cannabis licenciadas em Alberta. Os pesquisadores analisaram a descrição de cada transação e identificaram as varejistas de cannabis nos dados da transação. Embora as vendas de cannabis na loja sejam legais em Alberta em varejistas licenciadas, as compras on-line podem ser feitas legalmente apenas por meio do site da AGLC.

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Essas compras também são identificadas por meio da descrição da transação. Se um cliente tem pelo menos uma transação em uma varejista de cannabis ou na AGLC, então esse cliente é considerado um consumidor de cannabis. Se não o fizer, esse cliente é considerado parte do grupo de controle. Com este procedimento, a análise pôde identificar pessoas que compraram cannabis no mercado legal em Alberta usando cartões de débito ou crédito. Compras em dinheiro em varejistas de cannabis não foram consideradas neste estudo. Ao longo de um período de um ano após a legalização, os pesquisadores identificaram 38.356 consumidores de cannabis no conjunto de dados. Observe que a identificação dos consumidores de cannabis depende do período considerado e, portanto, seu número varia quando diferentes períodos são considerados.

O estudo comparou os consumidores de cannabis com um grupo de controle adequado. Por definição, os consumidores de cannabis têm pelo menos uma transação no período considerado, o que significa que eles estão usando ativamente suas contas e provavelmente a maioria delas como sua conta bancária principal. Em contraste, os titulares de contas que não são identificados como consumidores de cannabis têm menos transações em média e uma porcentagem maior deles pode ter sua conta bancária principal com outro banco, que não é visto no conjunto de dados. Para criar um grupo de controle adequado, os pesquisadores consideraram os outros valores de transação dos consumidores de cannabis que não estão relacionados a dinheiro, transferência eletrônica, comida e álcool. Em seguida, selecionaram o grupo de controle de forma que a distribuição de seus outros valores de transação correspondem aos dos consumidores de cannabis. Outros valores de transação foram escolhidos como um critério de correspondência por que gastos em dinheiro, transferência eletrônica, comida e álcool estão ligados ao objetivo do estudo. Como o número de consumidores de cannabis, o número de pessoas no grupo de controle varia dependendo do período; no geral, há cerca de 10 vezes mais pessoas no grupo de controle do que no de consumidores de cannabis.

Como forma de lidar com outliers, a análise removeu o 1% superior e inferior do total de gastadores. Além disso, foram removidos outliers para gastos com cannabis, extraindo-se o um por cento superior e inferior dos consumidores de cannabis, medido pela proporção de gastos com cannabis em relação ao gasto total no período. Para filtrar contas inativas, foram excluídos clientes que não tinham dinheiro, transferência eletrônica, álcool, fast-food ou outra transação de comida nos dois meses anteriores ou dois meses após a legalização.

 O sucesso da legalização da cannabis: evidências de transações bancárias

#PraTodosVerem: foto mostra homem de casaco preto e chapéu marrom próximo à fachada de uma loja, onde se vê uma janela branca com o desenho da folha de maconha, no Canadá. Crédito: Chris Wattie / Reuters.

Afastando-se do mercado ilícito

Para estimar o efeito da legalização da cannabis, mudanças nos gastos em dinheiro e transferências eletrônicas dos consumidores de cannabis foram consideras como proxy para mudanças na atividade do mercado ilícito — uma queda significativa em qualquer uma das duas categorias em comparação com o grupo de controle foi interpretada como sendo uma forte evidência de que a legalização teve um impacto no mercado clandestino. Os pesquisadores executaram esta análise comparando os gastos dos consumidores de cannabis e do grupo de controle e compararam seus gastos nos seguintes períodos:

  • um mês (30 dias) antes e depois da data de legalização,
  • dois meses (60 dias) antes e depois da data de legalização,
  • setembro de 2019 vs setembro de 2018.

Os consumidores de cannabis diminuíram seus gastos em dinheiro e através de transferência eletrônica em $ 27,9 (−10%) e $ 47,1 (−8,7%), respectivamente, na comparação entre o mês após a legalização e o mês anterior à legalização. Em contraste, o grupo de controle aumentou seus gastos em $ 59,7 (+ 18,6%) e $ 29,7 (+ 6,9%), respectivamente, no mesmo período.

Assim, os consumidores de cannabis diminuíram seus gastos em dinheiro e via transferência eletrônica, em média, enquanto o grupo de controle aumentou. Para os outros períodos de comparação, foram observados resultados semelhantes. Vale lembrar que dependendo dos períodos de comparação, diferentes pessoas são identificadas como consumidores de cannabis. No geral, veem-se evidências claras de que os consumidores de cannabis gastaram em dinheiro e por meio de transferências eletrônicas no mercado ilegal de cannabis antes da legalização.

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Para confirmar suas observações estatisticamente, os pesquisadores realizaram uma análise via diferença-em-diferença através do tempo para os dois grupos: consumidores de cannabis vs grupo de controle. As principais variáveis de resultado de interesse são os gastos em dinheiro e transferências eletrônicas.

A análise mostrou que as pessoas que tiveram gastos em uma loja de cannabis após a legalização reduziram significativamente seus gastos em dinheiro e transferências eletrônicas em relação ao grupo de controle, ao comparar os períodos correspondentes antes e depois da legalização. Usando dinheiro e transferências eletrônicas como um proxy para a atividade do mercado ilícito, os pesquisadores concluíram, portanto, que uma grande parte dos gastos com cannabis legal foi anteriormente gasta no mercado clandestino. A este respeito, a análise mostra o sucesso inicial da legalização da cannabis no Canadá, apesar dos desafios e ventos contrários enfrentados pela indústria da cannabis.

Os pesquisadores também observaram que os consumidores de cannabis gastam menos em dinheiro e mais em transferências eletrônicas do que o grupo de controle, embora a diferença em dinheiro geralmente não seja estatisticamente significativa.

 O sucesso da legalização da cannabis: evidências de transações bancárias

#PraTodosVerem: fotografia mostra um hambúrguer junto a uma porção de batatas fritas e, no segundo plano, um copo de cerveja. Foto: Edward Franklin | Unsplash.

Padrões de consumo de cannabis

Nesta seção, o estudo se preocupa com as diferenças no comportamento de consumo entre consumidores de cannabis e pessoas de grupos demográficos semelhantes no grupo de controle. Os pesquisadores focaram na comparação em transações relacionadas ao álcool e fast-food, visto que essas duas categorias têm implicações importantes para a saúde. Ao contrário da seção anterior, foi considerado o gasto total para os dois meses após a legalização, uma vez que o interesse está voltado a​os níveis de gastos totais, ao invés das mudanças nos gastos.

Os pesquisadores observaram que o gasto médio com fast-food é consideravelmente maior para os consumidores de cannabis em comparação com o grupo de controle. Coloquialmente, o aumento do apetite após o consumo da cannabis, denominado “larica”, é conhecido há séculos. Patel e Cone (2015) deram uma explicação neurocientífica para esse fenômeno. Enquanto Baggio e Chong (2020) encontraram um aumento significativo no consumo de batatas fritas, biscoitos e sorvete nos condados dos EUA após a legalização da cannabis para uso adulto, Sabia et al. (2017) encontraram uma diminuição na probabilidade de obesidade quando as leis para a cannabis medicinal são aplicadas.

Para o consumo de álcool, as observações são semelhantes às do fast-food: os consumidores de cannabis têm gastos médios muito maiores com álcool. A maior diferença entre os consumidores de cannabis e o grupo de controle aparece na faixa etária de 18 a 24 anos. Em razão do impacto na saúde provocado pela cannabis e o álcool ser o mais forte nos jovens, esta é uma observação importante. Além disso, o estudo não viu uma redução nos gastos com álcool entre os consumidores de cannabis após a legalização. Isso leva a acreditar que a cannabis adulta muitas vezes não é um substituto para o álcool. Em vez disso, os consumidores de cannabis podem ter um estilo de vida bastante diferente, resultando em maior consumo de fast-food e álcool. Na literatura, há evidências mistas sobre as ligações entre cannabis e álcool. Revisando 65 estudos científicos, Risso et al. (2020) relatam que 30 estudos encontraram evidências de que cannabis e álcool são substitutos, 17 estudos os encontraram como complementos, enquanto 14 não encontraram evidências para nenhum e quatro encontraram evidências para as três situações. Levando em consideração que este estudo é o único baseado em transações bancárias reais (ao invés de pesquisas ou experimentos), ele lança uma nova luz sobre esta questão na medida em que mostra um claro aumento de gastos com álcool para consumidores de cannabis.

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Para confirmar essas observações estatisticamente, os pesquisadores realizaram uma ANOVA (análise de variância) com três fatores, uma vez que o interesse se dá ​​nos diferentes efeitos das três variáveis ​​independentes: consumidor de cannabis (sim ou não), faixa etária (18-24, 25-44, 45-64 ou ≥65) e gênero (feminino, masculino ou outro). A análise observou impactos significativos do consumo de cannabis, idade e gênero sobre os gastos com fast-food e álcool. A ANOVA também mostra que, para fast-food, o efeito misto de cannabis e gênero não é significativo, o que significa que o consumo de cannabis afeta os gastos com fast-food de forma semelhante para todos os gêneros.

Uma limitação do estudo é que os consumidores de cannabis são determinados por terem pago por cannabis com cartões de débito ou crédito. Pode-se argumentar que essas pessoas também costumam usar cartões de débito ou crédito para gastar em fast-food e álcool em comparação com pessoas no grupo de controle, que podem preferir usar dinheiro. Assim, os gastos relatados dos consumidores de cannabis com fast-food e álcool podem ser exagerados em comparação com o grupo de controle. Em algum grau, isso pode ser verdade. No entanto, o estudo mostra que os consumidores de cannabis gastam cerca de 24% menos em dinheiro, mas mais do que o dobro em fast-food e álcool em comparação com o grupo de controle. Assim, mesmo quando se ajusta proporcionalmente para o menor gasto em dinheiro, os consumidores de cannabis ainda gastariam significativamente mais em fast-food e álcool do que as pessoas no grupo de controle.

Conclusão

Com base em dados de transações bancárias, os pesquisadores descobriram que os gastos dos consumidores de cannabis em dinheiro e transferência eletrônica caíram significativamente após a legalização da cannabis. Assim, fornecem evidências claras de que a legalização da cannabis resultou em uma mudança do mercado ilícito para o mercado de cannabis legal.

Esta evidência tem implicações políticas importantes, uma vez que apoia um dos principais argumentos em favor da legalização da cannabis.

No entanto, usando o mesmo conjunto de dados de transações bancárias, o estudo relacionou o consumo de cannabis a gastos significativamente maiores em fast-food e álcool em todas as idades e grupos de gênero. Como a análise foi baseada em transações bancárias de pessoas, e não em um experimento de laboratório, os maiores gastos com fast-food e álcool podem ser reflexo de um estilo de vida diferente dos consumidores de cannabis. No geral, os resultados destacam como a legalização da cannabis para uso adulto afeta os gastos das pessoas e os mercados legal e ilícito de cannabis.

Referências

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