Sober October: um papo com os malucos mais sóbrios do umdois – parte 1

CAPA Sober October: um papo com os malucos mais sóbrios do umdois   parte 1

Léo Rocha e Thito Russo, integrantes do canal umdois, assumiram, pelo segundo ano consecutivo, o desafio de passar o mês de outubro sem álcool e sem maconha – e contaram os detalhes desta experiência em uma entrevista dividida em duas partes

Basta passar os olhos pelo feed desta dupla para perceber que, para eles, pirar é coisa séria. Integrantes desde o início do canal “maconhista”, em linguagem própria, mais influente do Brasil, Léo Rocha e Thito Russo são, embora custem a assumir, autênticos influenciadores digitais. E digo autênticos não apenas no sentido daquilo que é legítimo, mas também peculiar, espontâneo.

Com uma audiência específica e predominante masculina de jovens, na faixa etária entre 18 e 24 anos, o canal umdois, do qual os amigos fazem parte, apresenta conteúdo exclusivamente voltado à cultura da maconha, com esquetes, quadros e formatos que conversam diretamente com tais maconhistas – e, com uma linguagem franca e cheia de humor, seus integrantes passaram a ser símbolos e espelho de uma geração canábica que cresceu ligada no Wi-Fi.

Neste contexto, logo fiquei curiosa ao saber que a dupla faria, pela segunda vez consecutiva, o desafio Sober October: uma história que começou com o evento Ocsober, realizado na Austrália, há dez anos, para arrecadar fundos para a caridade, se espalhou por organizações de outros países, como a Inglaterra, e, há alguns anos, ganhou a atenção de gente como o comediante Joe Rogan, que alastrou pelo mundo a ideia de passar os 31 dias de outubro sem álcool e/ou outras substâncias de consumo preferencial, como a maconha e o tabaco, como forma de conscientização sobre o uso (e eventual abuso) delas.

Pois bem.

O desafio que, ano passado, havia sido cumprido com sucesso (não sem esforço) por Léo e Thito e, nas palavras deles, trouxe as sensações de “capacidade”, “conquista”, “orgulho” e “realização”, além de uma brisa fenomenal pós abstinência, ressurgiu infalível, como todo outubro, e despertou neles a responsabilidade, a missão e o desejo de repetir a façanha – desta vez, com uma cobertura semanal bem explorada pelo canal, mais a participação de uma galera que decidiu acompanhar, por conta própria, os dois nesta jornada sóbria, e a esperança de documentar o retorno triunfal em novembro que, por sinal, teve seu primeiro dia em uma sexta-“fire”, no jargão canábico.

Os motivos que, por si só, são suficientes para fazer valer um mês de sobriedade, se mostram pequenos perto das reflexões que ficar sem beber, sobretudo cerveja, e sem fumar maconha trouxeram a eles – e do impacto que geraram em outras pessoas. Em uma enquete no Instagram do canal, vista por mais de 17,3 mil usuários, 728 pessoas disseram ter conseguido, junto com a dupla, concluir a missão do Sober October em 2019 – 13% de quem votou.

Para entender melhor sobre como a sobriedade temporária e voluntária influenciou a vida dos dois, que fumam e bebem socialmente desde meados da juventude – o álcool com consumo mais precoce, em ocasiões sociais, e a maconha depois (para o Thito, só aos 23 anos!) -, quis trocar uma ideia com eles em dois momentos bem diferentes: no último dia de Sober October e depois da volta à rotina de chapação. A primeira parte você confere a seguir.

Parte 1 – Sóbrios

A primeira parte da entrevista, feita por Skype na manhã de 31 de outubro, foi um papo em que passamos por questões como a rotina sem as tais substâncias que estão presentes em diversas situações do cotidiano da dupla, do trabalho ao sexo, sobre a percepção dos dois em um estado de permanente sobriedade – como pequenas coisas que irritam, pequenos prazeres descobertos, lições de autoconhecimento – e, claro, sobre a expectativa para o fim da abstinência. Confira.

Smoke Buddies – Além da influência da experiência do Joe Rogan e seus amigos, o que incentivou vocês a participarem do Sober October no ano passado?

Thito – Foi um desafio pessoal, pelo menos para mim. Eu vinha há mais de 10 anos fumando e bebendo e não me lembrava a última vez que passei, sei lá, uma semana sem usar, seja álcool, seja maconha. Aí eu fiquei curioso mesmo, porque se o meu normal era estar chapado o tempo todo, eu queria ver como era o Thito sóbrio.

Léo – Eu não tenho 10 anos fumando, mas ano passado eu estava há cinco sem parar. Quando o Thito comentou eu falei, “nem fodendo”, mas quando ele lançou o desafio, eu aceitei – mas, eu mesmo não estava acreditando que ia conseguir. E este ano foi a mesma coisa, até o final de setembro eu falando que não ia fazer, mas acabei fazendo. Mas, com certeza, ano passado foi bem mais difícil que este, não só pela primeira vez, mas por ter sido um ano de eleições e tal.

Smoke Buddies – Neste ano, além do desafio pessoal, houve também pressão dos seguidores para que vocês ficassem sóbrios?

Léo – Antes de começar outubro, a galera já estava falando sobre fazer, e quando começou o mês, um monte de gente falando que ia fazer com a gente.

Thito – Como ano passado a gente decidiu na hora, não teve essa ativação, e como a gente nem sabia se ia conseguir, não fez muita divulgação no canal, só ia fazendo e falando. Só que a galera que acompanha a gente ano passado já estava ciente, então desta vez teve a cobrança da audiência, sim.

Smoke Buddies – Socialmente falando, o que é mais complicado de levar no Sober October, o álcool ou a maconha?

Thito – Assim como a maconha, o álcool é social, mas acho que tende mais para a muleta, porque no álcool você pode entorpecer aquele sentimento que você não quer, e, às vezes, quando você fuma maconha, pode exaltar. Mas também não vou demonizar o álcool, eu gosto e é uma droga boa para socializar. Por isso que eu senti tanta falta esse mês, de estar com os amigos, todo mundo bebendo, e você não fica no mesmo nível, né?

Léo – Quando a galera começa a ficar mais altinha, você já fala: “é hora de ir para a casa”.

Thito – Sim, melhor ir embora antes que a galera comece a falar alto, umas coisas nada a ver…

Léo – E quando você vai comentar alguma coisa, a galera: “sai fora, você está sóbrio”, aquela coisa.

Thito – E tem aquela parada de que bêbado quer ver você bêbado também, né? Com a maconha ninguém fica “fuma aí, fuma aí”, todo mundo respeita muito, agora com o álcool…

Smoke Buddies – Como vocês perceberam a relação da maconha no cotidiano e como isso afetou seus hábitos neste mês?  

Léo – A maconha é muito benéfica, mas no Sober October você consegue perceber alguns momentos em que estava usando de maneira que não é benéfica. Eu deixava o vídeo renderizando aqui, não tinha nada para fazer, ia fumar maconha. Um comodismo de você fazer uma parada e nem saber porque estava fazendo.

Thito – Todo hábito que você tem precisa ser preenchido com alguma coisa…

(Léo interrompe) – Se não, você vai ficar deitado na cama pensando: quero fumar, quero fumar, quero fumar…

Thito – E… o que eu estava falando mesmo? (Risos no ar). Ah, sobre os hábitos! O negócio é achar outra coisa para preencher aquele momento que você só fumava. E é aí que você começa a analisar que só fuma mesmo quando não tem nada para fazer.

Léo – Eu estou muito acostumado a chegar do trampo, comer, tomar banho, fumar um e ir jogar videogame, assistir a uma série, sei lá. Aí no primeiro dia eu falei, “caralho, o que eu vou fazer?”. Já arrumei minha bicicleta, lavei ela, enchi o pneu. Sabe o que eu fiz? Fui pedalar por 14 quilômetros! Porque eu também fumo para dormir, e pensei que seria difícil dormir sem fumar, aí já cheguei em casa super cansado.

Smoke Buddies – Vocês se privaram de algo por causa do Sober October?

Thito – O que eu mais me privei, por conta do álcool, foi de sair. Da maconha, não teve tanto.

Léo – Até teve, tem um comediante de stand-up que a gente curte e decidiu não ver este mês para assistir chapado…

Thito – Mas em comparação, o álcool me podou de coisas mais importantes, como ir à festa de um amigo, sabe?

Léo – Ano passado me privei bem mais, mas uma coisa é fato: você não dura no rolê. Na hora que o rolê começa a ir para um outro nível, você fala: “tá bom, acho que aqui deu pra mim”.

Smoke Buddies – Como isso reflete na relação com as pessoas à volta?

Thito – Eu acho que a parada é aprender a lidar com as pessoas estando sóbrio. Ir para o bar e ver seus amigos locões. Eu fazendo rolê com uma mina. Fui fazer sexo e pensei “caralho, qual a última vez que fiz isso sóbrio? E agora?”.

Léo – Eu também, mano. Estou acostumado a acender, falar umas coisas e começar.

Thito – E é essa a experiência que a gente tira. A gente parece que está redescobrindo as coisas, e é bom isso.

Smoke Buddies – O não consumo de maconha afetou o trabalho de vocês neste mês?

Léo – A maconha serve para eu focar no trabalho. Sem ela, eu ouço um barulho e já começo a dispersar.

Thito – Eu não senti queda no meu desempenho. Acho que produzi tanto quanto, mas senti falta nos momentos de bloqueio criativo. Sou diretor de animação e é foda quando você tem que desenvolver quatro projetos em uma semana. Quando eu estou com bloqueio criativo, dou uns pegas para dar uma espairecida, e isso eu não tinha, o que me dava uma frustração. Frustração que gera ansiedade, é um ciclo. Mas conforme o mês vai passando, você vai aprendendo a lidar com isso.

Smoke Buddies – E o humor? Como a sobriedade afeta este lado de vocês?

Thito – Eu tenho muitas variações de humor durante o dia. Sem o álcool e sem a maconha me parece muito mais linear, constante…

Léo – Mau humor o dia inteiro! (Risos). Eu fico muito estressado com alguns assuntos que antes eu simplesmente ia, fumava e relevava. E agora, como não tem isso, eu tenho que falar, eu tenho que resolver, senão a parada vai ficar na minha cabeça.

Smoke Buddies – A percepção de vocês sóbrios sobre os outros, chapados, mudou de alguma maneira?

Thito – Nas gravações do umdois mesmo, eu, como estava mais alerta, via a galera meio chapada, meio viajando, e falava “pô, velho, mais coerência aí” (risos). E no álcool, quando a galera estava muito louca, eu pensava “nossa, é assim que eu fico?”, ficava julgando (risos). Mas deixa eu julgar, é um mês só.

Smoke Buddies – Qual o sentimento sobre as pessoas que, inspiradas na iniciativa de vocês, estão acompanhando o Sober October?

Thito – Dá um orgulho. Não gostamos da palavra “influenciador”, mas não deixamos de ser. E somos conhecidos como os mais loucos lá do canal, né? Então é bom usar um pouco dessa influência para fazer algo bom.

Smoke Buddies – E a principal lição que vocês tiram desta experiência?

Thito – Equilíbrio, talvez. A lição que vou tirar disso é não voltar no 100%, talvez no 50%. Saber dosar.

Léo – O que eu aprendi é que preciso melhorar minha concentração, que claramente é uma parada que a maconha me ajuda muito, e sóbrio é uma coisa que eu tenho que me esforçar para concentrar, e talvez a paciência com algumas coisas.

Thito – Para a gente acaba sendo um desafio, mas é uma brincadeira, é um desafio pessoal. Só que a gente recebeu muita mensagem de pessoas que tinha realmente problemas, pessoas que estavam há 2 anos bebendo todo dia, pessoas tendo problema com a família. A gente vê que, por mais bobo que seja isso para a gente, tem uma repercussão séria em outras pessoas. Isso acaba estimulando a gente e dando um senso de responsabilidade.

Smoke Buddies – E, por fim, qual a expectativa para amanhã e qual o plano para voltar à rotina?

Léo – O plano de amanhã é sair do trampo no Desimpedidos, vamos para o QG do umdois gravar o primeiro baseado, e a expectativa é muito alta, porque ano passado, quando fumamos o primeiro beck aqui, fizemos um pequeno para cada um, e demoramos 40 minutos para fumar.

 Thito – Acho que todo mundo que fuma quer buscar a sensação daquele primeiro baseado, aquela crise de riso, e depois de 31 dias sem fumar… aquilo fez tudo valer a pena. Mas eu gostei muito de fazer de novo, muito mais do que ano passado, talvez porque não tinham as variáveis de eleição e coisas que me estressassem tanto, mas estou gostando desse Thito sóbrio e conseguiria facilmente estender por mais um mês.

Léo – É, mas novembro é mais calor…

Smoke Buddies – Então, qual é o primeiro gole dos sonhos para vocês pós Sober October?

Léo – A minha favorita, antes de outubro, era a Red Stripe, que eu curto mais. Então, se eu pudesse escolher, seria ou a Red Stripe ou o London Pride, do O’Malley’s (pub em São Paulo).

Thito – Eu vou escolher a Blue Moon… saudade.

(*continua na Parte 2)…

#PraCegoVer: fotografia (de capa) de Léo Rocha (com um ‘cigarro enrolado’ na boca) e Thito Russo (usando óculos escuros) abaixados, encarando a câmera, em uma visão de baixo para cima, que capta ainda, em fundo claro, a fachada de um prédio, fios de rua e parte de um caminhão. Foto: Beatriz Limeres.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.
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