Sidarta Ribeiro: Maconha, o remédio do século 21

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Em entrevista ao Inconsciente Coletivo, o neurocientista Sidarta Ribeiro falou sobre saúde mental e três insights vieram à tona: a hipermedicalização de remédios psiquiátricos é preocupante; sem psicoterapia não funciona; e está mais do que na hora de encararmos a maconha sem preconceitos. Confira, a seguir

“A psiquiatria convencional é uma psiquiatria que foi ‘para a cama’ com a indústria farmacêutica; a psiquiatria do futuro, que é uma psiquiatria que funciona melhor para as pessoas e talvez não tão bem para as farmacêuticas, é uma psiquiatria de menos remédio e mais conversa, menos remédio e mais psicoterapia. Há estudos recentes mostrando que o efeito terapêutico de antidepressivos é bastante pequeno e os efeitos adversos podem ser bastante grandes; impotência, obesidade, falta de motivação. Não existe essa pílula da felicidade”

A cannabis medicinal apresenta algumas propriedades bioquímicas, fisiológicas e específicas dos canabinoides — estou falando de efeitos anti-inflamatórios, antitumorais, dessincronização de neurônios — e de interações entre eles que são sinérgicas, são cooperativas. Portanto tem aplicação medicinal para muitas doenças diferentes. Epilepsias, autismo, Alzheimer, mal de Parkinson, câncer, doença de Crohn… O número de aplicações é tão grande que fica difícil pensar em uma medicina do futuro que não vai levar isso em consideração. Não como última escolha médica, mas como primeira, porque tem efeitos colaterais adversos muito pequenos e por que os efeitos benéficos são muito variados”.

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“A produção de novas sinapses vai decaindo ao longo da vida, e é por isso que a partir de um determinado momento, na fase adulta e depois na fase idosa, existem muitos benefícios em recobrar novas sinapses. E a maconha medicinal pode ajudar nisso.

Os jovens devem ser protegidos não com a mentira de que ‘maconha mata neurônio’, pois isso é mentira — maconha produz novos neurônios, novas sinapses. Mas é que o jovem já tem muitos neurônios e sinapses e, portanto, nele o excesso pode ser prejudicial. É preciso que se evite esse consumo precoce.

É muito interessante pensar que os jovens são muito curiosos e têm muito interesse em novos estímulos por que têm muitas sinapses para codificar o novo, enquanto as pessoas idosas frequentemente não estão interessadas no ambiente, no que está acontecendo, só estão pensando no passado, na infância, na juventude e desconectadas do que está acontecendo agora porque lhes faltam sinapses.”

O neurocientista Sidarta Ribeiro, autor do venerável “O Oráculo da Noite”, concedeu uma entrevista ao blog Inconsciente Coletivo. Saúde mental foi o tema da conversa. Vieram três insights: a hipermedicalização de remédios psiquiátricos é preocupante; sem psicoterapia não funciona; e está mais do que na hora de encararmos a maconha sem preconceitos (mas com os cuidados necessários).

Para ele, a maconha, droga ancestral que já era utilizada no Egito antigo, está para o século 21 assim como a descoberta do antibiótico esteve para o século 20. O mundo desenvolvido, e os vizinhos latinos, já se deram conta. Falta o Brasil.

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“Nos últimos 50 ou 40 anos, as pessoas de classe média no Ocidente e depois no Oriente foram convencidas de que elas não poderiam ser felizes se não tomassem um remédio antidepressivo todo dia. A explicação lógica disso seria de um menor nível do neurotransmissor serotonina nessas pessoas. Então houve uma explicação do sofrimento psíquico por uma molécula específica envolvendo a pesquisa da neurociência no cotidiano das pessoas.

Isso causou uma modificação profunda em todo o planeta, na maneira como as pessoas lidam com o seu próprio humor. O humor passa a ser visto como uma coisa quimicamente modulada e não dependente dos vínculos e contexto social. E esse grande ‘experimento’ deu errado.”

“Tem um monte de gente tomando antidepressivo de vários tipos, de 1ª geração, de última geração, junto a estabilizadores de humor, inclusive várias substâncias que a gente nem sabe direito o que fazem. Eu não estou dizendo que essas substâncias não sejam interessantes e eficazes para certas pessoas, mas essa generalização, essa hipermedicalização de todo mundo levou a uma série de problemas. As pessoas tomam remédio diariamente, cronicamente. Medicamentos que foram investigados cientificamente por oito semanas são utilizados por oito anos, remédios que nunca foram investigados de maneira combinada são receitados em combinações bastante particulares e idiossincráticas ao longo de muito tempo”

“A serotonina é um neurotransmissor superimportante para o humor, mas as águas vivas, os invertebrados, têm serotonina ou coisa muito semelhante, então é claro que é uma redução gigantesca da subjetividade humana tentar dizer que a tristeza ou a melancolia são um problema dos níveis de serotonina.”

“Há estudos mostrando que mesmo em casos de psicose, muito remédio e pouca conversa não produzem resultados satisfatórios; mas o contrário sim, muita psicoterapia e algum fármaco”.

Sidarta Ribeiro: sonho, memória e maconha

A psiquiatria convencional é uma psiquiatria que foi ‘para a cama’ com a indústria farmacêutica, então tem um conflito de interesses ali que é inescapável, tanto é que por muito tempo se falou ‘álcool e drogas’, quando na verdade o álcool é uma das drogas mais perigosas para a sociedade, para o indivíduo, quando consumido de maneira abusiva”

“À medida que as pessoas vão envelhecendo, elas vão tomando cada vez mais remédios, os remédios vão passando pelas vidas delas e no final elas ficam dependentes de um monte de coisas, cheias de efeitos adversos e muitas vezes o efeito desejado não se produz. O uso cronificado de depressivos pode levar a um quadro que se chama disforia tardia, um quadro em que a pessoa pode ter alterações de humor súbitas, depressões profundas, coléricas, quadros psicóticos e mesmo suicídio. (…) No fundo é o conflito de interesses entre medicina e capitalismo.”

Israel, Alemanha, Estados Unidos e Canadá estão em outra. A gente [Brasil] vai ficar conversando sozinho se a gente se negar a ver a cannabis medicinal. A Argentina, o Chile e a Colômbia também estão em outra. O planeta foi para essa direção, a cannabis é uma realidade para a medicina do século XXI. Os efeitos anti-inflamatórios da cannabis eram conhecidos no Egito antigo, na Idade do Bronze. Então esse debate realmente está atrasado”.

“Nós temos uma capacidade de construção de um futuro melhor que nunca foi tão grande e nossa capacidade de destruição de qualquer futuro humano nunca foi tão grande. Então é um momento muito crítico por várias questões, a questão ambiental, pela crise social, pela explosão da desigualdade social — os ricos nunca foram tão ricos e os pobres tão numerosos —, a desigualdade educacional, uma crise ambiental sem precedentes — não só pelo aquecimento global, mas pela maneira como nos relacionamos com animais e plantas, com a destruição gigantesca de biomas marinhos, a destruição avassaladora de biomas terrestres. A gente está inviabilizando a respiração do planeta muito rapidamente”

“O Brasil nunca esteve em um risco tão grande de se perder, de se estragar. Foram muitas décadas para construir o Estado brasileiro e é a primeira vez que temos agentes públicos pagos pelo Estado para destruir o Estado. Eu vejo como algo extremamente grave e por outro lado percebo que essa excrecência que foi Bolsonaro ter sido eleito e estar governando, com a chance de se reeleger ou de não se eleger e tentar dar um golpe, isso tudo é um grande desafio para a alma brasileira.”

Agora temos a chance [eleições de 2022] de realmente fazer do país uma nação, um local de cidadania plena, onde exista igualdade de oportunidades para todos através de uma educação de qualidade, através de saúde pública de qualidade, muito investimento em ciência e tecnologia e cultura para agregar valor às produções feitas no Brasil para os brasileiros e também para fora”.

“A gente está vivendo uma distopia bem forte que parece um pesadelo porque ela é muito absurda, por que ela é muito bizarra, a gente não cansa de se confrontar com a monstruosidade desse fascismo, desse movimento de ultradireita anticristão. Precisamos sonhar com o fim do governo Bolsonaro”

“O Brasil é muito grande para dar errado.”

“Eu acho que o Bolsonaro precisa de um tratamento psiquiátrico psicodélico sério para ver se ele se torna uma pessoa mais humana, mais cristã”.

Assista à entrevista:

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#PraTodosVerem: fotografia, em primeiro plano, de Sidarta Ribeiro usando uma camisa verde bem claro, onde alguns livros empilhados sobre uma mesa aparecem ao fundo, no canto inferior esquerdo. Foto: Elisa Elsie / O Globo.

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