Romantizar maconha prensada é tão perigoso quanto sua venda, porte e consumo

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O prensado paraguaio ganha a mídia e gera debates acalorados entre consumidores, defensores ou críticos. Debater sempre será necessário, desnecessária é a romantização de um produto de ínfima qualidade e prejudicial à vida de quem o cultiva, comercializa e consome. Entenda mais, a seguir

De tempos em tempos, a falta de qualidade, procedência e o conteúdo duvidoso da maconha mais consumida no Brasil, a erva prensada oriunda do Paraguai, ganha a mídia e gera debates acalorados entre consumidores, defensores ou críticos. Debater sempre será necessário, desnecessária é a romantização de um produto de ínfima qualidade, pelo simples motivo de que isso é o que o brasileiro pode pagar.

Antes de seguir sua leitura, vale trazer a conhecimento de todos que o autor deste texto opinativo é um ávido consumidor de maconha há cerca de 20 anos, dos quais aproximadamente mais de 15 foram consumindo (e consumo até hoje) o mesmo prensado, sujo e fedorento, que ora ou outra tem e deve ser criticado.

Desromantizar é necessário

Sustentar o falho argumento de que devemos defender o prensado paraguaio ofertado aos consumidores de maconha no Brasil a todo custo, pois é o que a grande parte tem condições de pagar, é o mesmo ato falho de romantizar o macarrão instantâneo como alimentação funcional e nutritiva, que disso nada tem.

Não estou aqui para condenar quem só tem condições para consumir macarrão instantâneo com um sachê cheio de conservantes, colorantes, saborizantes e todos as químicas que causam mais danos do que comer uma massa regada a um saboroso molho de tomate caseiro, cheio de ervas.

Analogias à parte, o importante na missão de informar é mostrar, ressaltar e, se precisar, seguir afirmando que o prensado é, sim, prejudicial. Não é por que muitos só podem pagar por ele que devemos (me incluo nessa também, pois não sou o burguês das flores que pregam por aí… quem me dera) continuar consumindo e romantizando tal produto, ao invés disso, deve-se apontar como reduzir os danos através de informações claras e precisas de um produto que literalmente assemelha-se a bosta.

As romantizações que têm ocorrido, repletas de ideologias, achismos e desinformações, podem causar tantos danos quanto o consumo do produto de baixa qualidade. Sugiro que o R de romantismo seja alterado para o R de reduzir danos, ensinando como lavar (veja o vídeo no final), a utilizar artifícios como piteiras e outros meios, e também mostrar os riscos de consumir um produto sem os mínimos cuidados possíveis.

Como disse na analogia com o macarrão instantâneo, a culpa nunca será do consumidor, de cultivadores ou de vendedores, que estão presos ou mortos, mas de fatores que já bem conhecemos, como o proibicionismo sustentado de governo em governo. Este mesmo governo e a atual política de drogas são os responsáveis pelas mortes, preços e, sim, pela qualidade do produto.

Caso regulamentada a maconha, o tráfico de drogas e o prensado de má qualidade deixariam de existir?

Ao meu ver, essa é uma argumentação ultrapassada e vou além ao afirmar empiricamente que é utópica, mas regulamentar certamente criará vias e meios de acessos legais a produtos que, desde antes da semeadura, colheita e manufaturara, terão todos os processos controlados e com qualidade certificada (completamente diferente do que é comercializado) e a um preço que deve ser compatível à realidade econômica dos brasileiros.

Um exemplo disso pode ser o tabaco que, mesmo regulamentado, mas com altos impostos como políticas de redução de consumo e saúde pública, ainda mantém ativo o mercado de contrabando de cigarros do Paraguai, que também é crime passível de prisão, mas com penas mais leves que as da Lei de Drogas (lei 11.343/2006).

Além de tudo, é mais racional e saudável mudar hábitos de consumo, diminuir a frequência e investir em produtos de melhor qualidade, para manter a sua saúde e qualidade de vida. Garanto que até o fim deste artigo você estará ciente que lamentavelmente o prensado tem baixa qualidade e isso é um risco à sua saúde.

Pode ser que você que nos lê agora talvez ainda não tenha obtido conhecimentos que já foram compartilhados numa série de artigos já lançados no passado e por isso, para dar uma mãozinha no entendimento, compilo de dois artigos, com alguns motivos que são mais do que suficientes para não romantizar o prensado de ínfima qualidade.

Há 5 anos, lá em 2017, o jornalista e fotógrafo radicado no Rio de Janeiro, Matias Maxx, passou 15 dias embrenhado entre os plantadores de maconha no Paraguai para construir uma série de reportagens para a Agência Pública que constata e traz aos olhos de quem quer enxergar a maneira inapropriada como os paraguaios secam, processam, estocam e prensam as flores que se transformarão na famosa, quadrada, marrom e fedorenta maconha prensada que a maioria dos brasileiros consome por décadas.

Insalubres condições de trabalho e as péssimas relações trabalhistas

É notável que as pessoas que defendem o prensado paraguaio, em nome das vidas de brasileiros que são perdidas e encarceradas na guerra às drogas, e são muitas, parecem se esquecer que, antes do tijolo ser um dos principais motivos de invasão das comunidades e favelas, existem vidas de paraguaios e indígenas guaranis em risco no meio da selva. Logo, todas as vidas importam!

No artigo “Destrinchando a maconha paraguaia”, Maxx mostra a realidade de algumas roças de maconha. “Durante os quatro meses de crescimento vegetativo e flora, cada uma das roças é cuidada por um roceiro e mais duas ou quatros pessoas de confiança, geralmente parentes. Quando chega a hora da colheita, eles recrutam mais uns dez peões, que ficam acampados durante um mês, ajudando nos diferentes processos: colheita, secagem, zaranda, despalitada, estoque e prensa”.

Segundo o artigo, pelo trabalho nesses serviços, as pessoas, a maioria paraguaios de origem indígena, recebem 70 mil guaranis ao dia (cerca de R$ 50), com exceção de quem realiza a prensa, serviço de maior responsabilidade, limitado a trabalhadores de confiança que recebem 10 mil guaranis por hora (R$ 7), vivendo em acampamentos precários.

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Alojamento dos peões em uma roça de maconha paraguaia. Foto: Matias Maxx / Pública.

Os acampamentos onde roceiros e peões dormem e realizam os processos posteriores à colheita da maconha estão no meio da fechada mata pantaneira.

“Troncos, tocos, lona, barbante e arame erguem as tendas. Cada acampamento tem seu alojamento e cozinha. Feijão, arroz, charque, óleo, sal, açúcar, leite e um pãozinho redondo chamado ‘coquito’ são os alimentos fornecidos pelos patrões.

A água vem de poços ou córregos, é quente, fosca ou amarronzada e geralmente bebida na forma de ‘tereré’, uma espécie de chimarrão no qual a erva-mate é servida com água fria e gelo. Pelo menos a erva-mate disfarça o gosto e, principalmente, a cor nojenta da água. O acampamento é muito sujo, e garrafas pet de vinho barato e Fortin, uma cachaça local, estão por todo lado. Em todos os dias em que frequentei essas roças, vi apenas duas mulheres: uma bem jovem trabalhando na zaranda, processo de secagem para separar as flores das folhas através de peneiras, e outra, também jovem, cuidando de uma criança de uns 10 anos debaixo de uma tenda onde meia tonelada de maconha estava por ensacar. Nessa roça, a jornada de trabalho vai da manhã até o cair do sol, com exceção da prensa, que funciona sem parar, com iluminação provida por gerador à gasolina.”

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Arroz, feijão, ensopado de ossos, charque e um pãozinho redondo chamado “coquito” são os principais alimentos. Foto: Matias Maxx / Pública.

“O dinheiro da maconha alimenta famílias e mantém microcidades funcionando no interior do Paraguai, mas não o suficiente para tirar essas pessoas da miséria”, conta Matias Maxx no artigo.

Desmatamento, expulsões e mortes

Dezenas de hectares de mata natural são desmatadas todo ano para a produção de maconha, muitas vezes dentro de áreas de proteção ambiental, como o Parque San Rafael, no sul do país, com 78 mil hectares.

Além de desmatar áreas de proteção ambiental, não é difícil de encontrar histórias em que muitos camponeses e indígenas foram expulsos e mortos para que suas terras fossem usadas para o cultivo ilegal de maconha e outras drogas, que tão logo são traficadas para toda a América do Sul.

Quadrada, marrom, fedorenta e cheia de fungos

O produto que a maioria dos brasileiros consome é assim, bem diferente da esverdeada forma de flor que ela é colhida. Essa transformação se deve à maneira inapropriada como os paraguaios secam, processam, estocam e prensam as flores de cannabis, como mostra o artigo.

Um dos problemas é a presença de fungos. “Quando você está exposto a esse fungo, fumando prensado mofado continuamente, você aumenta a possibilidade desse fungo te causar um problema”, comenta no artigo João Menezes, médico com doutorado em biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutorado em neurociências no Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School. “Outro aspecto negativo da maconha do tráfico é o desconhecimento do teor de THC, em geral alto, e de outros fitocanabinoides”, explica Menezes.

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Maconha da roça de “Gatito” secando diretamente sobre o solo. Foto: Matias Maxx / Pública.

No geral, os paraguaios são bons agricultores, mas do momento da colheita até a prensagem cometem vários erros imperdoáveis do ponto de vista de qualquer cultivador profissional. Pois, da mesma maneira que existe uma maneira certa de colher tomates, alface ou qualquer outro produto agrícola, existe uma forma correta de colher e estocar maconha.

Os problemas e fatores que influenciam a qualidade do produto que é consumido pela maioria dos brasileiros começam logo após a floração, “na maioria das roças a maconha é colhida e empilhada em contato direto com o solo”, conta Maxx, e completa: “Foi o que eu vi na plantação de um roceiro de apelido Gatito*. Ele decidiu colher a erva bem em um período de chuva, contrariando todas as indicações”.

Depois de derrubarem os pés, os peões empilham todas as plantas diretamente sobre o solo antes de cobri-las com uma lona de plástico. Essa situação por si só — o contato com a umidade do solo e o plástico abafando e impedindo a circulação de ar — já é um convite para a fermentação e a proliferação de fungos. A chuva só acelerou esse processo.

Na próxima etapa do processo, após alguns dias cozendo sob o sol, as plantas são levadas para um tipo de zaranda, onde são retiradas as folhas.

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Processo da zaranda feito por um dos raros roceiros que consomem a erva, a maioria prefere o álcool .Foto: Matias Maxx / Pública.

Após a desfoliação, a maconha vai para sacas de 30 kg, que são carregadas até o “mocó”, uma tenda de lona preta no meio do mato, onde ficam escondidas até serem prensadas.

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Maconha estragada na roça de Gatito, aguardando para ir à prensa. Foto: Matias Maxx / Pública.

A metamorfose. Segundo consta no artigo, depois da prensa montada as sacas de maconha são abertas sobre uma lona, ficando exposta a vespas e outros insetos. Mais um erro. Esses restos de animais acabam ficando dentro do “prensado paraguaio”, diz o médico João Menezes, explicando que muitos usuários no Brasil preferem lavar essa maconha. “A vantagem de se lavar o prensado é tirar resíduos que vêm dessa coisa do ar livre, secreções de animais, insetos, urina e fezes de insetos, bactéria e fungos”, diz.

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Inflorescências de maconha secando na roça. Foto: Matias Maxx / Pública.

Os peões vão enchendo de maconha uma caixa de metal, 5 kg de cada vez. Eles nivelam a maconha usando as botas sujas de lama, depois cobrem a erva com um plástico sujo, umas placas de madeira e, finalmente, a prensa hidráulica, que, operada com uma alavanca, funciona como um macaco de carro invertido.

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Blocos de maconha na “reprensa”. Foto: Matias Maxx.

“Na minha única noite na prensa, os trabalhadores, já bêbados, me deram um verdadeiro tour guiado por cada etapa do processo”.

Depois de prensarem a maconha, eles retiram as madeiras, mas não o plástico; colocam mais 5 kg e repetem o procedimento até preencher a caixa de metal até a boca. De lá retiram um cubo enorme: 50 kg de maconha.

Usando uma espátula e um martelo de borracha, eles vão soltando os blocos de 5 kg separados pelos plásticos. Estes são postos numa pilha, separados por finas tábuas de madeira e prensados novamente, no que eles chamam de “reprensa”.

Depois de um tempo, outro peão as retira de lá e utiliza uma “régua” rudimentar para fazer quatro marcações no bloco, que é levado para uma terceira prensa montada sobre uma faca, que faz os cortes.

Com rapidez, mas pouco cuidado, a maconha é derrubada no chão, pisoteada; maconha visivelmente mofada é misturada com maconha boa. No entanto, as lendas são falsas: os paraguaios não mijam na maconha, isso seria impossível dada a quantidade de pessoas e de erva. Na verdade, o cheiro forte de amônia que caracteriza a maioria dos blocos prensados que chegam ao país é resultado da fermentação e decomposição devido aos maus cuidados com a produção.

Os blocos de 1 kg são embalados, primeiro em plástico-filme e depois com fitas adesivas. Os quilos são então reembalados em pacotes de 24 kg e levados a uma picape.

Esta última embalagem era feita exclusivamente pelos dois chefes. “Partiu Rio!”, disse, num português tosco, um dos peões paraguaios, dando um tapa num dos pacotões.

Segundo reporta Matias, durante as três horas que passou na prensa, viu os “chefes e mais quatro paraguaios embalarem uns 300 kg de maconha, já quadrada, marrom e fedida”. “Se eu não tivesse visto o processo todo, jamais imaginaria que um dia ela já foi verde”, acrescenta.

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A maconha é prensada dentro de uma caixa de metal, 5 kg de cada vez, separados por plásticos até formar um cubo de 50 kg. Foto: Matias Maxx / Pública.

A prensa ocorre por uma questão de logística: ela diminui muito o volume e permite aos traficantes transportar mais quilos de forma mais discreta. Mas o ato de prensar o bagulho não é em si a pior das situações: soma-se a isto a colheita feita na hora errada, a secagem malfeita, a resina desperdiçada e o total descaso em manipular o vegetal.

Para piorar, algumas operações mantêm estoques de maconha já prensada enterrados por até um ano, por questões de logística ou segurança. Em quase todos os casos, a maconha enterrada acaba pegando mais umidade e fermentando.

Para o doutor Pedro da Costa Mello Neto, médico acupunturista com pós-graduação em dor, pesquisador no campo da neurociência e prescritor de cannabis legalmente há vários anos, “quando se usa a maconha prensada se está usando um produto que não tem um controle de qualidade, e essa perda do controle da qualidade se dá justamente por conta do proibicionismo”.

O tráfico não escolhe a quem ele vai vender, a forma e o que ele vai vender. E com isso vai ter pessoas usando uma maconha adulterada, com mofo, amônia, pedaços de insetos e qualquer outra substância à qual ela foi exposta”, explica.

A série de artigos produzidos pelo fotógrafo e jornalista Matias Maxx, publicados em 2017, é resultado do Concurso de Microbolsas de Reportagem sobre Maconha, realizado pela Agência Pública e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes.Clique nos títulos abaixo para leitura na íntegra:

Como nasce o “prensado”

Destrinchando a maconha paraguaia

Reduzir danos é necessário 

Como já pontuado algumas vezes no texto acima, reduzir os danos é essencial para a manutenção da saúde e bem-estar de quem consome. Pensando nisso e independente do motivo do consumo da famigerada maconha prensada oriunda do Paraguai, repleta de sujeiras e outras coisas a mais, vale a dica: Lavar o prensado pode reduzir os contaminantes. Assista ao vídeo abaixo e pense nisso como um hábito para gerar menos danos possível.

*Todos os nomes foram trocados para garantir o sigilo das fontes da reportagem.

Leia também:

Prensado da flor roxa: se você não conhece, é maconheiro 2020

#PraTodosVerem: fotografia de capa mostra um bloco de maconha prensada, em close, onde se vê as diversas impurezas em tons de marrom, sobre uma superfície branca.

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.
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