Jardineiro da maconha: Raphael Meduza fala sobre cultivo medicinal e associativo

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Cultivador e professor na Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal, a Apepi, Raphael Meduza fala sobre as dores e as delícias de seu ofício, dá dicas para iniciantes e destaca o papel das growshops como polos de cultura e consciência

Ele não se vê na vanguarda de um ofício — até por que, segundo o próprio, “já existe gente fazendo o mesmo trabalho que eu, tão bem quanto, só que não na legalidade, né?“. Porém, é inegável que Raphael Meduza, de 38 anos, seja um dos primeiros growers a poder dizer que ganha a vida cultivando maconha legalmente no Brasil e, de quebra, ajuda centenas de famílias país afora com isso.

Cultivador de cannabis e professor para associados da Apepi desde 2017, Meduza conta que sua trajetória profissional até chegar ao cultivo associativo de maconha medicinal seguiu um caminho natural — mas, não necessariamente óbvio. Com uma bagagem de experiências que vão da direção de arte e design à mecânica aeronáutica, da moda ao marketing e da animação gráfica ao turismo, passando pela jardinagem, Meduza integra a equipe de uma das duas únicas associações com respaldo judicial para cultivar e produzir medicamentos à base de maconha no Brasil (a outra é a Abrace, na Paraíba).

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O cultivo associativo e orgânico é um dos temas da entrevista da Raiz com Meduza, em que ele também aborda os requisitos e desafios da profissão, a importância da linguagem no ensino sobre cannabis medicinal para pacientes e familiares, os itens essenciais para iniciar um cultivo e o papel das growshops neste cenário. Confira:

Raiz – Você é uma das poucas pessoas no Brasil que pode se considerar cultivador profissional de maconha legal. Como se sente na vanguarda deste ofício?

Raphael Meduza – A legalidade é a única coisa que pode ser chamada de vanguarda aí, porque os cultivadores antigos que me passaram todo o conhecimento. O Growroom, as pessoas que eu pude ter contato, as pessoas que me acolheram, os agrônomos que me ajudaram… e a gratidão é por esta galera. Eu não considero vanguarda porque eu acho que já existe gente fazendo o mesmo trabalho que eu, tão bem quanto, e que só não tem a legalidade, né? E muitos pais, muitas mães, que ainda não têm habeas corpus e que exercem um trabalho maravilhoso de jardineiros de suas próprias plantas, que também é muito mágico.

Quais os principais requisitos para um trabalho como o seu?

Um dos principais requisitos é nunca parar de estudar. Existem publicações saindo numa velocidade que nunca saíram antes, então hoje em dia eu digo que tenho muito material de estudo. Também estou em alguns grupos de cultivo, e tenho o suporte de alguns agrônomos, inclusive do nosso agrônomo da Apepi, o Diogo Biscoito, da Rural. Então, eu acho muito importante ter um suporte e estar antenado.

O cultivo de maconha com fins terapêuticos segue quais critérios de produção e qualidade na Apepi?

A gente tem que lembrar que o cultivo medicinal tem um guia de boas práticas, e esse guia é basicamente praticar o cultivo orgânico, não usar defensivos e ter o controle total da produção, desde o clone, ou semeadura, até a colheita, para a gente conseguir acompanhar a planta, com um diário de cultivo. Isso é o mais importante, porque a gente tem como garantir a procedência e depois levar para medir, com parcerias que a gente tem.

Quais os principais desafios do cultivo orgânico de maconha? Você comentou no último Encontro Raiz que passou pela maior praga da vida recentemente. Como foi e o que aprendeu?

Os principais riscos e problemas que enfrentamos com praga é que a gente não pode borrifar nada químico, só repelente e defensivo orgânico. Isso significa que não existem defensivos sistêmicos, ou seja, a gente tem que fazer mais borrifos, ter mais controle, do que repelente ou defensivo químico, que fica sistêmico na planta.

Há uma linha de produtos que podemos usar, e alinhado à tecnologia dos agrônomos que nos prestam consultoria e ajuda, a gente vai aplicando os defensivos. O problema é que são muitas plantas, os defensivos orgânicos têm que ser muito bem aplicados, e acho que a maior dificuldade é, com muitas plantas, aplicar em todas por igual. Mas, é um trabalho que dá para fazer, e a gente conseguiu no último mês vencer o mite, e é muito bom ver que a gente consegue dominar, mesmo com um sistema orgânico.

A Apepi tem um plano ambicioso de produção em escala, como estão os preparativos e como você enxerga este desafio profissional?

O agrônomo é quem está implementando isso na fazenda, eu participei do plano e fico no suporte também. É um grande desafio profissional, até porque os materiais sobre cannabis estão crescendo agora, mas ele tem uma formação de agrônomo e de biólogo, o que ajuda bastante no conhecimento do cultivo orgânico. É difícil um agrônomo sair da faculdade com uma noção de agricultura orgânica tão elevada quanto o Diogo tem, então eu confio muito no profissional que a gente elegeu para ser responsável.

Você ministra aulas de cultivo dentro da associação. Como é o preparo para este trabalho, do ponto de vista do conteúdo programático e da comunicação com os alunos?

A coisa mais diferente que você vai ver nos cursos de cultivo é o tipo de linguagem. A gente adaptou toda a linguagem exatamente para famílias. Eu tenho a ideia de que a cannabis é da família: papai, mamãe, vovó, vovô, titio, titia, todo mundo está contemplado. Então, busquei fazer um conteúdo mais leve, tão informativo quanto, mas que tivesse uma linguagem que contemplasse esse tipo de gente, que não estava contemplada entre os growers — que têm uma necessidade de conhecimento, mas bem mais específica, não tão abrangente do ponto de vista técnico.

Eu não abordo o cultivo químico, por exemplo, até porque a ideia de que remédio é feito com cultivo orgânico deve ser passada adiante. A gente não sabe o nível de contaminantes que outros adubos ou pesticidas têm, então sempre pedimos o cultivo orgânico para medicamentos, e isso envolve uma série de técnicas que são explicadas, e eu até incentivo as pessoas a usarem em seus próprios jardins as técnicas que aprendem com cannabis, porque é um público bem diferente do que estamos acostumados, dos growers.

O que você diria para quem está entrando agora no universo do cultivo de maconha?

Primeiro, que é uma planta comum, que como tantas outras plantas tem algumas necessidades específicas, que não é nenhum bicho de sete cabeças, nem o diabo na Terra. Tirar essa coisa de que maconha é do mal. Depois, eu te digo, para a gente gastar dinheiro, é interessante já ter o conhecimento do ciclo da planta, então o que eu indico é: faça um cultivo inicial, o mais simples que você puder, com os complementos mais baratos possíveis, só para aprender o ciclo de cannabis, você vai entender tudo só de ver o esquema rodando.

E para mim é muito importante, nos cursos de cultivo que ministro, que as pessoas consigam entender os ciclos. Maximização a gente consegue posteriormente, porque para mim é mais importante uma mãe conseguir florir do começo ao final, sem grandes problemas, e não ter maximização, e depois correr atrás disso com tempo, com investimento. Digo que 90% dos cultivos sem investimento não são maximizados. A gente tem que pensar se os custos são proporcionais ao que você vai conseguir colher.

Qual é o investimento mínimo inicial para um grow caseiro, e como escolher os itens essenciais em uma growshop para dar o pontapé inicial?

Eu geralmente digo que o item mais importante para uma pessoa que precisa de cannabis medicinal é a genética. Cada patologia tem uma necessidade específica de um perfil de planta, com CBD, THC, ou as formas ácidas. Enquanto o THC é antiespasmódico, o CBD é anticonvulsivante. Para uma pessoa com cólica menstrual vai ser legal o THC, para uma pessoa com epilepsia vai ser bom o CBD, e assim por diante. Agora, eu não recomendo a semente de primeira — recomendo fazer um ciclo antes com a famosa prenseed e ver como ela funciona. Aí, depois, “pimp my grow”: vai botando lâmpada, exaustão, investindo em nutriente, e vai caminhando.

Sobre os itens fundamentais de um growshop, que você tem que ter confiança, e é bom achar perto de você, são: substrato, fertilizante e complementação de luz, já que é muito difícil a gente achar essa complementação tão específica em outros lugares.

Eu recomendo que você visite o growshop mais perto da sua casa para conhecer. É um dos ambientes mais interessantes que a gente pode ir, para quem é entusiasta. As pessoas geralmente são bem treinadas e têm conhecimento de cultivo, podem ajudar tirando dúvidas. Além de tudo, os growshops são uma ilha de consciência canábica no meio da cidade. Então, vamos fortalecer os growshops porque eles seguram um peso social, de validação, muito grande. Só é possível ter o growshop hoje na rua por uma série de avanços dos últimos anos. São fundamentais, são polos de cultura.

O que você mais aprecia no seu trabalho?

Primeiro, eu amo o que eu faço e sou um entusiasta. Em todo grupo, rodas de amigos, estamos sempre falando de cannabis. Depois, a gratidão que eu sinto brotar do próximo, das pessoas que a gente pode ajudar. Isso é muito legal, saber que muda a vida de alguém, que a gente pode trazer qualidade de vida para uma mãe, um pai, um paciente. É muito rejuvenescedor para mim perceber que as pessoas são atingidas pelo meu trabalho de uma forma positiva, sabe? É muito bom ver que as pessoas têm melhoras significativas, e cada vez mais conseguimos provar isso, né, com publicações, relatos de médicos, pacientes, vamos desmistificando.

Queria dizer também que o problema não é a cannabis, é a hipocrisia. A cannabis pode ajudar tanto médica quanto financeiramente o país, e regulamentação é diferente de legalização. As pessoas têm usado palavras que não cabem dentro dos projetos para desclassificá-los. Temos que tomar cuidado com as pessoas que tentam desclassificar o uso da cannabis medicinal, por talvez interesses impuros, enfim. A gente vai continuar fazendo do jeito que sempre fez, um pouco maior hoje, e sem dúvida maior ainda daqui a pouco. Trocando ideia, aprendendo e ensinando.

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Como disse o mestre, nós apenas reforçamos o convite para uma visita às unidades físicas da Raiz no Rio de Janeiro (confira os endereços e horários), pois, além de contar com o atendimento especializado, com profissionais experientes e todos os itens essenciais para seu projeto “pimp my grow, a Raiz oferece aos membros de associações de cannabis medicinal de todo o Brasil desconto de 10%.

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#PraCegoVer: a imagem de capa mostra, no lado direito, o cultivador e professor Raphael Meduza, sentado, apoiando-se com os braços em uma mesa branca, que recorta a foto na horizontal, e olhando para o lado. O fundo é claro e neutro. Imagem: acervo pessoal | Gabriela Garcez Fotografia.

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Sobre Raiz Cultivo

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