O fracasso da mentirosa ‘guerra às drogas’: Velho Estado justifica genocídio do povo no Rio

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“Mudam-se os termos, embora se mantenha a política de genocídio da população explorada, periférica e, em sua maioria, negra. Somente no primeiro trimestre de 2019, foram contabilizadas 434 mortes justificadas pelo ‘auto de resistência’, isto é, uma média de sete assassinatos (legalmente amparados) por dia”, segundo Maria Cruz em seu artigo para o jornal A Nova Democracia. Confira, a seguir

No dia 14 de janeiro, o monopólio de imprensa declarou que no ano de 2019 a Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro atingiu um novo recorde em apreensões de fuzis. Foram 503 peças, enquanto que o último recorde (datado de 2017) registrou 382 fuzis apreendidos. Tais dados, que aparentemente coroam a política de “guerra às drogas” (leia-se genocídio) do terrorista Wilson Witzel, na realidade comprovam a falência do mesmo.

O aumento das apreensões de fuzis registrado em 2019 comparado a 2017 foi de 121 fuzis. Um número muito expressivo, de fato. Porém, o que está sendo ocultada é a origem deste aumento tão significativo.

Março de 2019. Durante uma busca e apreensão da Operação “Lume” (que visa identificar os assassinos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes) foram apreendidos, no Méier, 117 fuzis (quase todos M-16, de fabricação norte-americana) desmontados, na casa de Alexandre Mota de Souza, amigo pessoal de Ronnie Lessa.

Essa operação, longe de registrar intensos tiroteios ou coisa que o valha, realizou a maior apreensão de fuzis da história da cidade. Nenhuma outra intervenção policial, em qualquer favela que seja, pôde apreender tamanho volume de armamento de guerra.

A investigação sobre a origem do armamento aponta ainda que o dono verdadeiro do material é, precisamente, Ronnie Lessa, que também é ex-policial militar acusado de chefiar grupos paramilitares na região e, provavelmente, tem, segundo investigações abafadas, relação com o presidente fascista Jair Bolsonaro.

Lessa, a propósito, não mora em nenhum bairro pobre. Ele reside em um luxuoso e caríssimo condomínio na Barra da Tijuca, um dos metros quadrados mais caros do Rio de Janeiro, vizinho de ninguém menos que o presidente da república.

O caso de Lessa não é um exemplo inédito de quão efetivas são as apreensões longe das favelas. Em junho de 2017 foram apreendidos 60 fuzis de guerra no Aeroporto Internacional do Galeão; essa foi a segunda maior apreensão de fuzis da história do Rio de Janeiro. As armas, de uso exclusivo da Marinha ianque (vemos agora quem ganha com essa “guerra às drogas”!), vieram de Miami em contêineres, escondidos em aquecedores para piscinas, e teriam sido enviadas pelo traficante de armas Frederick Barbieri, que está preso no USA e é considerado o maior traficante de fuzis destinados ao Brasil.

A santa aliança: PM e delinquência

Caso que escancara o estreitamento entre o velho Estado e os grupos delinquentes é, por exemplo, o do militar do Batalhão de Operações Especiais (Bope) que realizou um leilão de armas e drogas em março de 2015 para paramilitares (mal-chamados “milicianos”) e traficantes varejistas nas regiões da Serrinha, Pedreira e Campo Grande.

As armas e as drogas leiloadas teriam sido apreendidas em uma operação no Complexo do Chapadão, cujo grupo dominante é alvo preferido da PM, dos bandidos paramilitares e de outros grupos rivais. Além do leilão de armas e drogas, policiais do 9º Batalhão da PM teriam um esquema com traficantes da Serrinha, emprestando também “caveirões” (veículos blindados) para os mesmos.

A inconsistência ‘teórica’ da guerra civil reacionária

Se subtraídos os 117 fuzis apreendidos com o suposto parceiro de Ronnie Lessa, o número de fuzis apreendidos praticamente não difere daquele resultado obtido em 2017. No entanto, muitos outros números se elevaram, como o de mortos por operações policiais.

O número de assassinatos cometidos pela PM, a grande parte em operações da falsa “guerra às drogas”, bateu o recorde de 1,8 mil pessoas, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Cresceu também o número de desaparecidos e daqueles executados, muitos trabalhadores rendidos, qualificados como “auto de resistência*”. Tal aumento do genocídio é apresentado como consequência de um “efetivo combate ao crime”. Mas os fatos desmentem.

Leia: Guerra às drogas é pretexto para atacar negros e pobres, diz criminalista

Um estudo do Centro de Pesquisas do Ministério Público indica, inclusive, que o aumento da letalidade pelas forças policiais durante as operações não é indicador de diminuição ou combate efetivo à criminalidade. “A letalidade policial no Rio de Janeiro não está relacionada à variação de crimes contra a vida e contra o patrimônio”, afirmou a pesquisadora Joana Monteiro ao divulgar os dados do levantamento.

O estudo aponta que houve maior redução do número de homicídios em bairros onde também diminuíram as mortes provocadas pela PM. Conclusão: a diminuição dos crimes não é consequência do aumento das mortes cometidas pela repressão. “Não é possível identificar causalidade entre a letalidade policial e o homicídio doloso no estado, considerando que os dados disponíveis sequer indicam correlação entre eles”, afirmam os envolvidos.

Estratégia preventiva contrainsurgente

Como parte da política de guerra contra o povo promovida pelo governo terrorista e assassino de Wilson Witzel, o recorde é uma tentativa de justificar o genocídio vivido pela população carioca, sobretudo a juventude preta e pobre das favelas. Só em 2019 foram inúmeras operações de guerra no Complexo do Alemão, Manguinhos, Maré, Cidade de Deus, Complexo do Chapadão, dentre outras, que levaram terror e desespero para os moradores.

Um estudo realizado pelo Observatório de Segurança afirma que o governo do RJ investe bilhões em segurança, mas não consegue obter resultados positivos, o que comprova o evidente fracasso das operações policiais.

A área de “segurança” obteve um investimento ostensivo de R$ 12 bilhões de reais, enquanto que a educação (6,8 bi), saúde (5,3 bi) e o saneamento básico (6,61 milhões) obtiveram investimento bastante inferior.

Esses números só apontam a emergência das classes dominantes em instaurar o combate ao inevitável levantamento das massas mais exploradas e oprimidas, como parte de uma estratégia contrainsurgente de militarizar os bairros pobres, utilizando-se de forças oficiais (polícias e Forças Armadas) e não oficiais (como paramilitares e mesmo grupos delinquentes através de acordos) para prevenir o enraizamento de um movimento verdadeiramente revolucionário composto por massas trabalhadoras.

 Nota:

*“Auto de resistência”, “resistência seguida de morte”, “homicídio decorrente de oposição à ação policial”; seja qual for o termo técnico, o que ocorre, de fato, é o seguinte: militar assassina uma pessoa e alega ter sido em legítima defesa, pois a vítima teria “resistido à prisão”. Todo o mecanismo, apesar de absurdo e de servir à guerra contra o povo, é amparado legalmente pelo artigo 292 do Código de Processo Penal. Mudam-se os termos, embora se mantenha a política de genocídio da população explorada, periférica e, em sua maioria, negra. Somente no primeiro trimestre de 2019, foram contabilizadas 434 mortes justificadas pelo auto de resistência, isto é, uma média de sete assassinatos (legalmente amparados) por dia, segundo o monopólio de imprensa G1.

Leia também:

“Guerra às drogas”: uma metáfora sobre o genocídio negro

#PraCegoVer: em destaque, fotomontagem que traz a foto de Witzel segurando um grande fuzil carregado e com um sorriso aberto e, ao fundo, parte de publicação do jornal O Globo que mostra as fotos de cinco jovens mortos pela ‘guerras às drogas’ no Rio. Imagem: PSOL.

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