Pra ser uma mulher mãe sã

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pra ser uma mulher mãe sã, é preciso saber quem se é e do que se gosta — e assumir pra quem quiser ouvir. nadar nas profundezas de si, sem se afogar na opinião alheia. Por Laura Maria*

desde que engravidei do Ravi, tem um pensamento que fica me rondando: como continuar fazendo as coisas que eu gosto sendo mãe e estando presente na vida dele? percebam que eu poderia ser mãe ausente, se quisesse ou precisasse. mas escolhendo estar presente nessa fase da vida dele e minha em especial, como ainda me dar o presente da minha própria companhia? eu sempre gostei tanto de ficar só. e de fazer as coisas que eu geralmente faço só ou bem acompanhada, entre elas fumar um.

eu sempre fumei um. ou pelo menos sempre desde que me tornei mais responsável por mim. já tinha experimentado com uns 15, mas não peguei gosto pela coisa até uns 18. com 20 eu era fã de carteirinha, e assim eu sigo, feliz e confortável com esse gosto adquirido e querido. sabe aquelas coisas que a gente gosta de gostar? eu gosto de gostar do gostinho gostoso de gostar da ganja. é muito gostoso! me faz bem, me faz rir, chorar, sentir. me dá vontade de desenhar, de escrever e de ler. nem sempre consigo fazer tudo que minha cabeça ativa sugere, mas tento satisfazer essas vontades que surgem depois de (complete aqui com algum verbo relacionado a consumir) um.

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hoje eu fumo menos, por conta de não gostar de esfumaçar as crianças, mas ainda fumo quando sinto vontade de um barato que bata mais rápido. faz uns dias ganhei um pouco de óleo medicinal de cbd e thc da minha irmã (alô Juju s2), e claro, tô curtindo cada gotinha. bom, é nesse pedaço da história que eu queria chegar, porque é bem aí que estamos socialmente, politicamente, legislativamente.

a cannabis ainda é proibidona. eu sei que você fuma vários, que seu parça só fuma crema, que a vizinha até planta. eu também, o meu também, eu quero ser a vizinha. mas não é todo mundo que pode, que se sente confortável ou seguro. assumir que fuma é um ato de quem tem muitos privilégios, e não tô falando só de quem tem o privilégio do dinheiro, mas também.

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#PraCegoVer: imagem de uma mulher grávida tirando uma foto de si mesma, de perfil, em frente ao espelho, visivelmente antigo, com manchas. ela está nua, e seus cabelos cobrem suas mamas. no fundo, é possível ver os azulejos e um suporte para toalha de banho atrás dela. a fonte de luz vem de baixo, possivelmente de uma vela, o que dá uma coloração amarelada para a imagem propositalmente escura. Foto: Laura Maria.

existem os privilégios que construímos em sociedade. aquele de ser homem. de ser hétero. de ser branco. de ser rico, ou quase. de ser dono de uma empresa, de uma indústria. de ser tudo isso. de se sentir representado por tudo isso e representante disso tudo. e quando você engravida, quando você tem um filho, ou coloca um filho no mundo, ou à caminho do mundo, existe o privilégio de quem não está nessa condição. essa pessoa pode tudo que ela podia antes. a mulher mãe não. essa mulher, de repente e pra um monte de gente (quando não todo mundo e até você mesma), não pode mais nada. não pode tomar nem chá de camomila. e as pessoas que estão presentes na vida dela se sentem bem à vontade pra dizer o que ela pode ou não dali pra frente, e essas mesmas pessoas vão te visitar depois que o bebê nascer pra profetizar mais uma porrada de acontecimentos que ela deve temer pro resto da vidinha de mãe dela. é, na falta de uma palavra melhor, tenso. até porque é essa palavra mesmo.

fazer o que se gosta é regra 1 do (meu) livro da mãe (eu) sã. não posso me perder de vista por muito tempo que começo a me afogar no oceano que é a opinião alheia. e eu gosto, minhas amigas e amigos leitores, de ganja. quero poder plantar ganja, fumar ganja, usar óleo de ganja, cozinhar com óleo de ganja, fazer chá das folhas, suco verde, salada, misturar na argila e passar na cara, fazer uma manteiga e em seguida um brigadonha, e não quero ter vergonha (pra rimar, sim). quero ter tranquilidade em dizer que gosto disso. quero que todo mundo tenha essa tranquilidade. a mesma que um monte de gente tem de dizer o quanto não vive sem a sua brejinha, sua carninha, seu cigarrinho. o açúcar no café. o pão quentinho da padaria. um chocolate depois do almoço. mulheres mães, de todos os lugares e situações de vida, também temos gostos, hábitos. temos vícios também, que nem todo mundo. merecemos nos sentir sãs, donas de nós e de nossas escolhas.

*Laura Maria. escrevo como quem pensa. escrevo como quem viaja nas voltas da mente, no jeito que as palavras são escritas e no peso de cada uma delas. a ganja é uma velha amiga, daquelas que me abraçam forte enquanto me dizem verdades duras na cara.

Leia também:

Eu e eu, eu e ela: A ganja nisso tudo que eu chamo de vida

#PraCegoVer: a foto em destaque mostra uma borboleta de asas nas cores laranja e preto pousada em um galho de acerola, do qual as folhas fazem parte de uma composição de ao menos três tons de verde (dois da acerola, por conta do jogo de luz e sombra, e um de cannabis no segundo plano); as sombras da acerola e da cannabis se misturam no fundo, que é um muro num tom de bege. Foto: Laura Maria.

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