Polícia confundiu uso de maconha com queimadas em Alter do Chão, aponta inquérito

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Segundo inquérito apurado pelo HuffPost, uma declaração que faz alusão ao uso de maconha é usada para justificar envolvimento dos líderes da brigada nas queimadas. Confira a reportagem completa

Inquérito policial que sustenta pedido de prisão de quatro brigadistas acusados de colocar fogo em Alter do Chão (PA) para ganhar dinheiro de ONG, obtido pelo HuffPost Brasil, mostra preocupação dos ativistas em cumprir os processos legais de contrato com a WWF, compromisso com capacitação contínua e até confusão da polícia em relação a maconha.

O documento a que o HuffPost teve acesso lista uma série de conversas entre os brigadistas e pessoas próximas. Os áudios e as mensagens foram interceptadas dos celulares dos acusados.

No inquérito, a Polícia Civil do Pará argumenta que os quatro rapazes orquestravam incêndios para fazer fotos e depois vendê-las. Em um trecho do documento, assinalado a seguir, uma declaração que faz alusão ao uso de maconha é usada para justificar envolvimento dos líderes da brigada nas queimadas. Falas sobre uso da droga são destacadas do inquérito, que tem 111 páginas.

“Uma vez que os diálogos estão sendo explicitados cronologicamente, foi captada conversa incidental entre João [um dos brigadistas] e interlocutor não identificado, átimo em que este, jocosamente, rotula João como o fotógrafo ‘que mais queima e apaga fogo do Amazonas’.

Essa conversa patenteia os rumores que ouvimos desde o início das investigações, que consiste no envolvimento direto dos líderes da brigada na queimada que assolou a APA (Área de Proteção Ambiental) de Alter do Chão, com o fito de ganharem notoriedade para angariar recursos.”

Entre os usuários de maconha, é comum a expressão “queimar”, no sentido de fumar. Em outros momentos, a polícia transcreve áudio em que um dos brigadistas pergunta ao outro se vai com “o ‘tabeck bolado’ ou cê bola daí”. Um dos brigadistas, então, diz: “acho que eu vou com ele ‘bolado’, já fumando, aí eu te encontro aí”. Beck é uma forma de se referir à erva.

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#PraCegoVer: trecho de conversa que despertou a desconfiança de policiais sobre responsabilidade dos brigadistas pelas queimadas.

Geralmente, este tipo de informação sobre a vida pessoal dos investigados que não está ligada ao cerne da investigação, no caso as queimadas, não costuma ser registrada nesse tipo de documento oficial. O inquérito explicita conversas dos brigadistas com mãe, namorada e amigos.

Depois de a investigação ter sido questionada, o governador do Pará, Helder Barbalho, trocou o chefe das investigações e os quatro rapazes foram soltos.

Conjecturas da polícia

O texto do inquérito policial é repleto de ilações, com termos como “certamente”, “é cógnito” (no sentido de que algo é notório), “perceptível”. Aponta também como indício de que eles arquitetavam os crimes o fato de os brigadistas chegarem primeiro nos incêndios — sendo que a função deles é apagar o fogo.

“É cógnito ainda, segundo militares que chegaram primeiro no local, que é comum as brigadas de incêndio, sobretudo as não oficiais, atearem fogo em pequenas áreas para depois debelarem as chamas e, dessa forma divulgarem suas ações com finalidade de obter patrocínio, sendo esta a linha de investigação, havendo indícios sobejos de que os membros da brigada de Alter do Chão tenham lançado mão deste artifício, pois todos os presentes durante a ação de combate ao fogo, inclusive as equipes policias e de bombeiros militares que ali se encontraram, notaram que tanto o incêndio como a atuação da brigada era tratada como um verdadeiro ‘reality show’, com a ação sendo registrada por intermédio de drones, câmeras filmadoras, e outros meios de captura de imagem, ocasião em que os brigadistas chegaram ao cúmulo de entrevistar as autoridades policiais que ali estavam para investigar as circunstâncias dos incêndios.”

As investigações indicam que uma das possíveis fontes de renda da brigada era a venda de imagens das queimadas. As conversas grampeadas pela polícia, no entanto, mostram preocupação dos brigadistas com os critérios dos contratos e em não cometer ilegalidades nem beneficiar a WWF, ONG parceira da brigada.

Eles temem que a WWF apareça como se fosse “a salvadora da Amazônia através da brigada, como se a brigada fosse mantida pela WWF”. “Acho desproporcional que eles queiram usar nossa logo para sempre…”, diz um dos trechos dos diálogos interceptados.

Os ativistas demonstram ainda preocupação em aprimorar capacitação para melhor combater o fogo que todos os anos é registrado na região. “Os interlocutores apontam falhas no combate às queimadas”, como revela o inquérito, e demonstram intenção em formar uma brigada qualificada, “brigada de elite”.

A polícia paraense também estranha, de acordo com a investigação, o fato de os brigadistas falarem a uma interlocutora que estava a caminho de Alter do Chão que “haverá bastante fogo, inclusive nas rotas por onde passarem”. Para os investigadores, “é perceptível referir-se a queimadas orquestradas, uma vez que não admissível prever, mesmo nessa época do ano, data e local onde ocorrerão incêndios”.

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#PraCegoVer: trecho do inquérito que acusa brigadistas de crime ambiental.

Na época em que a conversa ocorreu, outubro deste ano, equipes de reportagens de veículos brasileiros e internacionais ainda peregrinavam pelo Norte do País para contar histórias sobre as queimadas. O HuffPost esteve no Pará em agosto e também registrou diversas imagens de focos de incêndio espalhados por Altamira (PA).

Investigações em xeque

Nesta quinta-feira (28), o Ministério Público Federal no Pará pediu acesso a este inquérito. O MPF também questionou a competência da polícia paraense de investigar o caso e detalhou que já há uma apuração em curso, que aponta grileiros como mentores de queimadas no estado.

“Ao contrário, a linha das investigações federais, que vem sendo seguida desde 2015, aponta para o assédio de grileiros, ocupação desordenada e para a especulação imobiliária como causas da degradação ambiental em Alter. (…) Por se tratar de um dos balneários mais famosos do país, a região é objeto de cobiça das indústrias turística e imobiliária e sofre pressão de invasores de terras públicas”, informa o MPF em nota.

Disputas policiais

Como o HuffPost mostrou em novembro, há indícios de que os incêndios que tomaram conta da Floresta Amazônica tenham origem criminosa. As investigações são marcadas por disputas entre a Polícia Civil e a Polícia Federal no Pará. O caso que ficou conhecido como Dia do Fogo, quando queimadas em sequência ocorreram às margens da BR-163 nos dias 10 e 11 de agosto, ainda não está desvendado.

Logo que a notícia se tornou um fato nacional, a polícia correu e prendeu três sem-terra. Silvanira Teixeira de Paula, Francisco das Neves Ferreira e Antônio dos Santos ficaram encarcerados por 50 dias até a Justiça Federal atender a um pedido do Ministério Público Federal, para quem não havia indícios suficientes para mantê-los atrás das grades, e mandar soltá-los.

Em outubro, uma operação da PF apontou para líderes e produtores rurais. Um dos investigados, o fazendeiro Agamenon Menezes, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, afirmou ao HuffPost que o Dia do Fogo foi uma invenção do jornal Folha do Progresso, o primeiro a noticiar o fato.

Segundo a investigação, os organizadores do Dia do Fogo compraram combustível e contrataram motoqueiros para incendiar a floresta. A ação demandava investimentos que não condizem com o perfil dos sem-terra detidos. Os responsáveis racharam os custos do ataque e se organizaram por meio de grupos de WhatsApp.

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#PraCegoVer: a imagem de capa mostra registro aéreo de parte da vegetação da região de Alter do Chão, no Pará, corroída pela queimada. Foto: Bruno Kelly | Reuters.

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