Multipolianas: uma mulher e suas iniciativas canábicas de alto impacto social

policapa Multipolianas: uma mulher e suas iniciativas canábicas de alto impacto social

Com negócios de vanguarda, narrativa engajada e trajetória ascendente, Poliana Rodrigues é exemplo de como o empreendedorismo no setor pode – e deve – ser transformador

O sorriso que acompanha a fala sobre os três fusos horários em que ela está operando nas últimas semanas denota o entusiasmo com que Poliana Rodrigues desbrava novos caminhos profissionais.

Idealizadora e sócia da Blazing Beauty, que em pouco mais de dois anos de atuação conquistou os corações das “bonitas de pele chapadas” com uma curadoria de produtos e uma linguagem nativa da internet que acolhe e acomoda usuárias, de skin care e de maconha, Poliana se prepara para o lançamento de uma nova empreitada, que aborda cânhamo, saúde, moda, sustentabilidade e questões sociais.

 

poli4 263x400 Multipolianas: uma mulher e suas iniciativas canábicas de alto impacto social

Poliana Rodrigues. Foto: Camila Rotta

 

“Eu achava que a Blazing fechava muitos discursos que eram coerentes para mim, mas na Blum, em um produto, eu consegui traduzir discussões sobre cânhamo industrial, sobre acesso a itens básicos de higiene, sustentabilidade, saúde feminina”, explica, ao falar das calcinhas absorventes com tecido de cânhamo, com tecnologia de absorção para três tipos de fluxo menstrual e ação bactericida e hipoalergênica, que fazem parte da primeira linha de produtos em desenvolvimento da nova marca, com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2022.

“A partir daí, queremos ter vários produtos no gatilho. Sabemos que a menstruação vai da primeira até a menopausa, e a gente pode acompanhar várias fases da mulher”, projeta.

 

 

Quando a preparação encontra a oportunidade

Entre um gole e outro no espresso com chantilly de café, Poliana narra os fatos que culminaram na criação da Blum: um recálculo de rota, conexões formadas e a proposta de investimento não foram milimetricamente planejados, embora tampouco aleatórios.

“Eu vim para São Paulo em março deste ano e a única coisa que eu sabia é que a gente ia migrar para o cânhamo têxtil”, conta. “Vim com essa problemática e tinha uma vasta pesquisa em todas as aplicações, mas não tinha batido o martelo sobre o produto”.

Em processo de incubação da Blazing Beauty pela aceleradora The Green Hub, o retorno de Poliana e seu sócio (e companheiro, Bruno Nogueira) à capital paulista coincidiu com a aproximação a uma comunidade que se articula em torno do cânhamo industrial no país, através da Associação Nacional do Cânhamo (ANC).

“Isso foi uma chave de mudança enorme, porque a gente começou a fazer as consultas, abrir nosso plano de negócios e conhecer mais pessoas que estão envolvidas a um nível industrial, fomentando bastante a questão do cânhamo”, ela conta. Entre elas, Nildson Alves, da Hempstee, que embarcou na Blum levando expertise em cadeia de processos, logística e sourcing.

Em um timing perfeito, daqueles que fazem arrepiar quem acredita em destino, veio a oportunidade de apresentar o projeto ao grupo internacional Maeté, que fomenta iniciativas do setor canábico, nas áreas de celulose, biodegradáveis, alimentos, bem-estar, têxtil e medicinal. E assim, além de conseguir investimento para ambas as marcas, Poliana agora integra a diretoria têxtil do grupo.

Transformando a cena

“Não tenho nem roupa pra isso”, brinca Poliana que, combinando com estilo a camisa de poá com o scrunchie que usa nos cabelos, muda o tom ao falar, com propriedade, sobre a responsabilidade de empreender no setor.

“A indústria canábica é transformadora, mas não pode ser só para ti, tem que ser para todo mundo, sabe?”, pondera. “O grande problema das empresas canábicas vai ser lidar com o impacto social que a proibição causou. Enquanto a gente está falando de cannabis e promovendo essa planta, pessoas foram e estão sendo presas continuadamente injustamente. Como a gente vai lidar com isso? Vamos precisar de mais iniciativas de reparação”.

Com pautas que são caras aos universos onde orbita, a Blum pretende construir discursos – e planejar ações – alinhados com as problemáticas das comunidades em que dialoga, da concepção dos produtos às estratégias de marketing.

“A gente está fazendo uma tabela de medidas colaborativas. Enquanto construímos a marca, vamos pegar toda noção de corpo e medidas que as mulheres precisam”, conta. “Inclusive, com modelos boxer para homens trans, lapidando todas as pontas que a gente consegue”.

Outros planos no radar de ações da marca contemplam questões sociais, como encarceramento feminino e pobreza menstrual.

Pra não dizer que não falei das flores

“A Blum traz a frente do cânhamo, queremos acessar as pessoas por essa estética”, explica Poliana, que prepara o lançamento das calcinhas absorventes envolvendo não só influenciadoras digitais 420, mas de moda, sustentabilidade e saúde feminina, em torno do hemp.

Smoke Buddies indica: mulheres que falam sobre maconha no Instagram

Se a voz da Blazing Beauty, que encerrou por ora a operação da loja virtual e investe na criação de conteúdo sobre beleza, bem-estar e cannabis, ressoa diretamente entre as maconheiras, a proposta da Blum é furar a bolha e levar a conversa sobre os variados usos, incluindo o adulto, de maconha para outros espaços.

“O que a gente mais tem na internet sobre menstruação é relacionado ao chocolatinho, ao vinho. E isso é uso adulto de substâncias. Partindo desse pressuposto, acolhemos quem escolhe outras alternativas para lidar com o ciclo”, Poliana explica.

E, na expectativa para acompanhar o florescer, na próxima estação, de mais uma iniciativa com relevância e potencial semeada por Poliana, fica a inspiração por quem constrói a indústria 420 com sensibilidade, ousadia e impacto social no Brasil.

Leia também:

Mulher, sexo e maconha: uma questão de empoderamento

#PraTodosVerem: Fotografia de capa é retrato da empresária Poliana Rodrigues, que olha direto para a câmera, e veste camisa com estampa rosa e laranja, que combina com o fundo rosado. Foto: Camila Rotta.

 Multipolianas: uma mulher e suas iniciativas canábicas de alto impacto social

Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista especializada em cannabis e editora-chefe na Smoke Buddies, onde também escreve perfis, crônicas e outras brisas.
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!