Padecer no Paraíso: perspectivas maternas da conversa sobre a maconha

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Se de longe a questão parece não ter uma fórmula mágica, de perto a gente enxerga a singularidade de cada história – e que o que muda de mãe para mãe é muito mais do que somente o endereço.

Por Thaís Ritli¹

Não sou mãe e, embora carregue um desejo instável, que diminui e aumenta como a maré, não posso falar com toda certeza que serei um dia. Ainda assim, legítima ansiosa que sou, às vezes me pego em brisas complexas, me questionando sobre como criar uma pessoa com valores universais, consciente de si e do mundo, e acompanhá-la, à exata distância, em sua própria jornada. Tudo isso sem surtar. Que alimentação, que rotina, que educação, que exemplos e que memórias transformadoras vão moldar a experiência desta criança? Como falar sobre tabus? Como se preparar para conversas difíceis? E como fazer tudo isso de forma natural?

“Eu vejo que a maternidade traz medos que para todo mundo parecem exagerados, mas que para a mulher são medos reais. São ameaças reais e totalmente possíveis”, afirma a professora Laura Nunes, de 30 anos, que está grávida de seu primeiro filho.

Na busca por uma luz, conversei com algumas mães sobre como elas lidam com o tema maconha com suas crias. São mulheres que, de uma forma ou de outra, carregam suas próprias vivências e crenças sobre a planta, que refletem e se transformam pela troca entre gerações. E, se de longe a questão parece não ter uma fórmula mágica, de perto a gente enxerga a singularidade de cada história – e que o que muda de mãe para mãe é muito mais do que somente o endereço.

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#PraCegoVer: Fotografia de Capa mostra parte do rosto de Clárian coberto por uma máscara verde com margaridas brancas e folhas de maconha com purpurina. A sua frente vemos também um buquê de margaridas rosas e brancas, além de pessoas ao seu redor. Foto: Lucas Tavares | Arquivo Smoke Buddies – Marcha da Maconha – SP 2017

O fato é que existe a chance que a maconha apareça no círculo familiar – de acordo com o último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo, de 2014, 4.3% dos adolescentes brasileiros já fizeram uso de cannabis, sendo que a taxa de consumo adulto era de 6.8%. E mais da metade dos usuários, 62%, experimentaram a maconha antes de completar 18 anos. “Há estudos que comprovam que o uso da maconha na adolescência reduz o QI, comprometendo a idade adulta. Há falhas na elaboração da linguagem e memorização de informações”, ressalta a Drª Priscila Gasparini, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em neuropsicologia e neuro psicanálise, que trabalha há 29 anos com crianças, adolescentes e famílias. “Minha mãe não percebia ou fingia que não percebia o álcool, mas com a maconha foi diferente, porque ela tinha a preocupação de não ser legal”, lembra Laura.

Para além dos riscos à saúde ligados ao consumo de maconha por crianças e jovens, o caráter ilegal da planta, com os preconceitos que carrega, é outro motivo de angústia para as mães – 80% das entrevistadas afirmaram, por exemplo, ter medo que seus filhos tenham envolvimento com más influências através da cannabis, enquanto 60% têm medo de que sejam vistos como traficantes. “Meu maior medo é o preconceito da sociedade e o que esse preconceito gera na vida da pessoa, e a polícia ser extremamente despreparada e agressiva. O maior medo da minha mãe é eu ser presa e continuar sendo usuária para sempre, ela não acredita que a cannabis seja benéfica em algo”, conta a cozinheira Maria*, de 23 anos, mãe de uma criança pequena, consumidora e ativista em prol da cannabis.

Maria* diz que ela é quem introduz o assunto na roda da família, já que sua mãe, fiel da igreja adventista, é totalmente contra o uso da maconha, seja adulto, seja medicinal. “Toda vez que posso inserir o assunto em família eu tento, apesar de sempre o assunto ser jogado de lado, continuo tentando. Acho que minha família poderia aceitar eu pelo menos colocar os prós na mesa para a gente debater”, fala.

“O diálogo entre pais e filhos sobre todos os assuntos é de extrema importância. Os pais devem mostrar que estão abertos para responder a dúvidas, apoiar, motivar e valorizar os filhos sempre que precisarem e, com isso haver liberdade em abordar qualquer assunto por ambas as partes”, explica a Drª Priscila Gasparini. Debate, diálogo e abertura parecem ser as palavras-chave de uma relação construtiva entre mães e filhos sobre a maconha. Mas, e para quem nunca teve este exemplo em casa?

Lucia* é diarista, tem 42 anos e três filhos e, até desconfiar do envolvimento de seu primogênito com a erva, não sabia nem o que era maconha. “Eu nunca tive contato com a maconha ou outros tipos de drogas, então para mim é tudo muito estranho. Minha mãe nunca falou nada a respeito, acho que nem conhecia drogas, meus pais foram criados na roça”, explica. Depois de notar algumas mudanças no comportamento do filho, com então 18 anos, Lucia flagrou o jovem fumando em casa, e seu mundo desabou. “Foi uma decepção, sensação de fracasso da minha parte. Eu ficava me perguntando onde foi que eu errei. Vim de uma família religiosa e meus avós não aceitavam que filhos e netos causassem nem um tipo de vergonha à família”, conta. Para ela, os medos eram muitos. “O salário do mês sumia, ele passou a mentir com muita frequência e faltava muito ao trabalho, cheguei a pensar que talvez até me roubasse”.

A gota d´água foi uma briga entre o menino e seu padrasto, que o criara desde pequeno. “Aí tive que ser dura, pedi a ele (o filho) que fosse embora de casa, porque ali não tinha mais como vivermos”, continua. “E assim ele fez. Tinha uma menina que ele saia, ela tinha 28 anos, 3 filhas e estava desempregada, e ele teve que sustentar a casa, pensa no problema. Mas, foi a melhor coisa que aconteceu”. Hoje, Lucia conta que o jovem de 22 anos, casado e com uma filha, diz se arrepender das coisas que fez, e que a conversa entre eles é mais aberta.

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#PraCegoVer: Fotografia mostra as mãos e parte do rosto de uma pessoa fechando um baseado. Crédito da Foto: Dave Coutinho / Marcha da Maconha Rio de Janeiro – 2018

Porém, há como evitar, ou prevenir, o tal flagra? Quando o assunto deve ser introduzido aos pequenos? Para algumas mães, é “no tempo da criança”, para outras, “desde sempre” ou “quando as perguntas aparecerem”. “Acho que o momento de começar a comentar é quando a criança tem certa maturidade para entender. Comecei a falar quando o meu filho tinha 11 ou 12 anos”, explica a dona de casa Debora, de 35 anos, que defende que o papo deve ser leve e natural. “Eu comento como quem não quer nada. Quando vemos uma reportagem, quando ele comenta algo de algum colega… ou seja, conforme vai aparecendo no nosso dia a dia”, explica.

Contrária à legalização da maconha por acreditar que é porta de entrada para outras substâncias, Debora, que sempre teve medo da erva e nunca conversou com sua mãe a respeito, avalia que sua criação foi sempre voltada contra o uso e direcionada aos malefícios. Para a conversa em casa, com os filhos de 14 e 5 anos, ela traz referências de histórias que conhece, dos meios de comunicação e de sua formação acadêmica na área da saúde.

“Toda a informação que passamos deve ser baseada em vivências e em pesquisas. Muitas pessoas ainda têm dificuldade em abordar assuntos polêmicos com os seus filhos, como orientação sexual e drogas. Esses tabus devem ser superados em prol de uma boa educação e orientação para os filhos. Acredito que por volta dos 8 anos já é possível adotar o tema com uma linguagem simples e clara, onde a criança irá conseguir compreender e tirar dúvidas se necessário”, afirma a Drª Priscila Gasparini.

Consumidora habitual de cannabis desde os 18 anos, Laura conta que a conversa com a mãe foi conflituosa, mas que hoje consegue olhar para situação sob outra ótica. “O medo dela era um abuso de substâncias. Aquela velha história de que a maconha abre portas para as outras drogas. E, querendo ou não, ela teve um pouco de razão, porque o momento que eu estava quando comecei a fumar todos os dias não era muito estável emocionalmente”, conta Laura, que disse ter passado por uma época de experimentação de drogas, e que hoje, em uma fase mais de busca espiritual, consome apenas a cannabis. “Já fumei com a minha mãe, nossa relação hoje sobre isso é muito aberta. Ela já sentou para fumar com a gente [Laura tem uma irmã] em casa, numa tentativa de abrir a cabeça, que eu admiro muito. Para ela, não é a substância ideal, ela gosta mais mesmo da cervejinha dela, do vinho, do cigarrinho, mas hoje ela já não fica mais no nosso pé por causa disso. Só agora, que eu engravidei, que ela expressou algumas vezes que eu não deveria fumar. Eu não fui contra, porque eu já sei melhor do que isso, mas cada um sabe o que faz e ela sabe a filha que tem”.

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#PraCegoVer: Fotografia registra mãe e filha durante a Marcha da Maconha no Rio em 2017. No lado esquerdo da foto com braços cruzados frente ao corpo a mãe exibe as palavras Maconha e Medicinal uma em cada braço e sua filha (dir) “Eu tratei com Cannabis” e no outro #DorNeuropatica. Crédito Dave Coutinho / Arquivo Smoke Buddies

A linha fina que separa uso de abuso, porém, vai muito além do poder materno, uma das peças do contexto biopsicossocial que envolve a trama – e cabe à mãe aprender e se transformar neste processo. “Eu conversava muito com meus filhos. Eles tinham um problema, eu falava ‘vamos conversar’. Aí conversava, exaurida aquela conversa, enfim, nem sempre a gente chegava à alguma conclusão”, relembra Dona Marlene Baumfeld. Aos 75 anos, a mãe e avó carioca traz uma história interessante, mas não menos complexa, que ilustra a realidade do tema.

“Para te dizer a verdade, eu sempre fui muito ingênua. Na minha época foi quando isso estava no boom, né? As drogas e tudo mais. E eu passei batido, uma coisa incrível. Eu tomei contato mais tarde, mas sempre de longe. E, com os meus filhos, ou melhor, com as minhas filhas”, ela conta. “Minha filha mais velha tinha um quarto que cheirava a maconha e eu não sabia nem o cheiro da maconha. E um dia, eu estava arrumando o quarto dela, que ela pedia para não arrumar, mas sabe como é mãe, né? Estava arrumando e achei aquele pozinho, e não entendi o que era aquilo, mas imaginei o que fosse. Eu levei um susto, porque foi uma coisa estranha para mim. Se eu tivesse conhecimento talvez não tivesse me assustado tanto. Eu estava fazendo terapia e perguntei ao terapeuta o que era, e ele: ‘não, maconha não é nada, tem que tomar cuidado para não ir para coisas mais pesadas’”.

O episódio, somado a outros, gerou discussões e longas conversas em casa. “Eu nunca fumei, e não entendia porque as pessoas usavam. Por que você precisa disso?”, relembra Dona Marlene. Porém, mesmo o diálogo familiar sobre o uso da maconha não evitaria que a caçula da família tivesse, anos depois, uma relação problemática com outras substâncias. “Eu sei que nós tivemos momentos muitos difíceis”, ela conta. “Até que no auge, eu falei ‘agora você vai pegar suas coisas e sair, não vai dar para a gente viver junto’. Ela estava em terapia. O terapeuta dela me disse que eu era maluca, que veria minha filha na rua, aí eu falei assim, ‘Se for essa a escolha dela, eu nada posso fazer. Mas, eu confio que ela vai, em algum momento, cair na real’. E diz a minha filha que foi a melhor coisa que eu fiz por ela na vida”. Verena Isaack, hoje com 42 anos e sócia na primeira head shop do Brasil, a Ultra 420, conta que sua mãe foi fundamental para seu processo de cura, onde “a minha relação com ela mudou drasticamente, radicalmente. Posso te dizer que a minha mãe é a minha melhor amiga”.

Mãe e filha iniciaram então, lado a lado, um longo caminho, que já dura 14 anos. “A mãe tem por obrigação buscar entender o filho, e se ela não consegue, ela busca ajuda. Ela não precisa fazer isso sozinha. Mas, eu acho que quando os filhos procuram a gente, mesmo quando crescidos, a gente precisa estar do lado. Isso é uma tarefa que a gente assume no início, para a vida toda, né?”, ela ensina.

E, enquanto vejo no relato de Dona Marlene a importância do apoio da mãe quando o uso de determinada substância passa a ser problemático, também enxergo um outro lado da história, de uma mulher que, apesar de tudo (e já na terceira idade), se despiu de preconceitos e passou a enxergar, com a ajuda da filha, a maconha de uma outra forma.

Há cinco anos à frente de uma loja especializada em artigos e acessórios para fumantes, especialmente de cannabis, Verena conta que na época teve certo receio de como sua mãe receberia a notícia. Afinal, como fica o coração de uma mãe em uma situação como esta? “Como ela é uma mulher muito inteligente e muito capaz, eu apoio tudo que ela faz, mas sempre pergunto se ela está consciente. Eu confio”, conta Marlene.

A confiança que é tão cara, que estreitou laços e que superou desafios é também a que permitiu transformar ideias. A partir do contato com a profissão da filha, Dona Marlene pôde não apenas conhecer mais sobre o universo da maconha, mas repensar seu olhar sobre a erva. “Não é uma coisa mais assustadora para mim. O vício é. Então, se a pessoa também se viciar em maconha, eu acho preocupante, né? Mas a palavra maconha, como a gente escutava, não é mais uma coisa que assusta”, ela afirma. “Eu, inclusive, uso uma pomada feita de cannabis, porque eu tenho uma artrose na mão, eu uso isso, acho bom. Já recomendei para a minha professora de ginástica para outro problema”, comenta Dona Marlene. “Me emociona ver o quanto a gente trabalhou junto para mudar toda essa situação, de confiança, de entrega, de conversa, de amor”, resume a filha Verena.

Confiança, entrega, conversa, amor. Talvez esteja aí a fórmula de encarar essa conversa, que é longa, complexa, única – e em constante transformação. “Com o meu filho, a gente não sabe como é o futuro, mas na minha idealização, na imagem que eu tenho deste futuro, eu gostaria de ter a conversa mais franca possível. No sentido de poder contar mesmo das minhas experiências, de ver que eu tive boas experiências com a maconha e tive más experiências. E deixar claro todo esse panorama – a gente torce por uma legalização, mas não se sabe em quanto tempo. E, depois que passar essa fase mais delicada da formação do ser humano, que é a infância e adolescência, eu gostaria muito de sentar com o meu filho e fumar um beck, e dar risada, se isso ainda for algo que eu goste de fazer no futuro”, projeta a futura – e já tão – mãe Laura.

Os nomes com * foram modificados para preservar a identidade das entrevistadas.

¹ Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.

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#PraCegoVer: Imagem de capa traz, no lado esquerdo, uma folha de maconha sobre uma superfície de madeira e no direito a inscrição “Padecer no Paraíso: Perspectivas maternas da conversa sobre a maconha.

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