Os principais desafios do mercado brasileiro de cannabis

maconha pode ser alternativa eficaz no tratamento da sindrome de tourette Os principais desafios do mercado brasileiro de cannabis

“A rapadura é doce, mas não é mole não” — a expressão idiomática que expressa a ideia de que algumas coisas podem ser muito doces, mas não tão fáceis de obter, parece representar bem a estrada acidentada, com seus altos e baixos, rumo a um acesso mais amplo à cannabis para os cidadãos brasileiros a partir de 2021, com as empresas farmacêuticas brasileiras desenvolvendo novos produtos enquanto associações de pacientes sofrem com a pressão do poder governamental. Saiba mais na reportagem da Prohibition Partners

Houve um avanço considerável no maior país da América Latina na avaliação do mercado desde 2014, quando foram concedidas as primeiras autorizações judiciais para a cannabis medicinal. Em 2015, a liberação da prescrição de 0,2% de THC pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) marcou um passo importante e, dois anos depois, foi concedida a primeira autorização para uma associação de pacientes, a Abrace.

Em 2019, a nova regulamentação da Anvisa, a RDC 327, permitiu a comercialização de produtos de cannabis nas farmácias brasileiras e a importação a granel.

site sb Os principais desafios do mercado brasileiro de cannabis

Leia mais: Entenda o marco regulatório da Anvisa para os produtos de cannabis

O PL 399 representa a mais recente lei a ser discutida pelo país, visto que o mercado aguarda novas discussões e votações nos órgãos legislativos brasileiros, em meio a um cenário político altamente dividido e a uma situação cada vez pior e preocupante da Covid-19.

É importante lembrar que essas são atualizações contemporâneas, já que a cannabis é amplamente cultivada e usada no país há décadas, tendo as políticas racistas no centro de sua proibição no Rio de Janeiro em 1830, sendo a primeira lei de proibição da cannabis conhecida no mundo.

Em 2021, o Brasil, com mais de 212 milhões de habitantes, avançou bastante, principalmente ao se analisar a evolução da prescrição observada ao longo de 2020, atingindo uma estimativa de mais de 15.300 prescrições, um aumento de 138% em relação a 2019.

Cannabis medicinal: recorde de pacientes no último ano

Olhando de perto os dados, os primeiros dois meses do ano também servem como um indicador para o próximo ano, e testemunhamos um aumento constante no total de pacientes de 2018 com um total de 318 pacientes para 2021 com 2.526 pacientes, o que significa que, apesar da pandemia, os pacientes continuaram crescendo, à medida que mais médicos se informavam e confiavam em prescrever, e mais pessoas ficavam informadas sobre os benefícios do tratamento à base de cannabis e estavam mais abertas à busca de alternativas, em um país onde o preconceito contra a cannabis ainda é alto, agravado por um governo conservador e mal informado liderado pelo presidente Bolsonaro, que se opõe veementemente ao uso da cannabis além das abordagens farmacêuticas estritas.

Também é encorajador testemunhar o aumento de clínicas com foco na cannabis em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, em um país onde mais de 87% de sua população vive em cidades.

Leia mais: Aumento de casos de ansiedade leva clínica carioca de cannabis a expandir unidades

O país também está se tornando um mercado interessante para investidores estrangeiros e nacionais e empresas, conforme explicado no relatório Latin America and Caribbean Report, e no ano passado testemunhou um aumento de empresas estrangeiras, principalmente da Colômbia e Uruguai, iniciando relações de trabalho com parceiros no Brasil, enquanto a cobertura da mídia nacional aumentou à medida que os meios de comunicação especializados ganharam presença nas redes sociais.

A empresa farmacêutica do sul do Brasil, Prati-Donaduzzi, tem liderado a abordagem farmacêutica com um produto registrado com alto teor de CBD e livre de THC, de 30 ml — o único até agora além do Mevatyl (Sativex) de fabricação estrangeira. A empresa está trabalhando atualmente em novos produtos com diferentes teores de canabinoides, e tem havido alguma discussão em torno da inclusão de seus produtos no sistema de saúde gratuita brasileiro SUS, o maior do tipo no mundo, atendendo a mais de 130 milhões de pessoas. Ainda assim, o desafio em torno do preço permanece, com o preço médio do CBD da Prati próximo a R$ 2.000 ou US$ 350 o frasco, mais do que o salário mínimo nacional.

Articulação Nacional de Marchas da Maconha se posiciona contra a incorporação do CBD isolado ao SUS

Embora esta estrada montanhosa tenha seus altos, como o aumento dos pacientes, conhecimento mais amplo e empresas locais produzindo, ela também teve seus baixos. As associações de pacientes brasileiras são referência no continente em termos de acesso para pacientes que não podem arcar com os preços proibitivos dos produtos disponíveis, tanto nacionais quanto importados, e sua presença vem crescendo continuamente com mais de 35 associações existentes hoje.

A mais conhecida, a Abrace, localizada no Nordeste do Brasil, atende sozinha mais de 14.400 pacientes — número que mostra o grande impacto dessas associações em todo o país. A organização esteve recentemente em destaque devido ao pedido da Anvisa para que a organização parasse a sua “produção industrial de cannabis” sem ter as autorizações necessárias, o que é visto por alguns como uma tentativa de reduzir o espaço de alcance da associação para os medicamentos produzidos farmaceuticamente, com muito mais poder financeiro.

A Anvisa informou que não pediu à associação que pare, mas sim que cumpra os regulamentos publicados em 2019. A situação gerou uma campanha massiva de apoio à associação, que afirma estar a fazer o possível para cumprir e trabalhar nas melhores condições. Um tribunal federal (TFR5) concedeu à associação uma permissão para continuar, mas a dicotomia entre regulamentação e associações provavelmente terá mais desenvolvimentos durante 2021.

Leia mais – #NãoDeixeaAbraceParar: associação lança campanha de financiamento coletivo

“No Brasil, as associações e o cultivo doméstico realizado pelos próprios pacientes continuam garantindo o acesso à cannabis medicinal e incomodando as empresas que buscam, com patentes e perseguições, se estabelecer no mercado” — Emílio Figueiredo, Rede Reforma (Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas).

Enquanto a referida lei, PL 399, aguarda discussão e votação, os peritos dividem-se quanto à probabilidade de aprovação. A lei exclui o cultivo pessoal, o que atenta contra os direitos individuais para uns e para outros é garantia de qualidade. Certamente é um passo à frente em um país com milhões de quilômetros quadrados adequados para o cultivo, uma base de clientes cada vez mais informada com poder de compra relativamente alto nos centros urbanos e uma indústria de manufatura e química capaz de atender à demanda nacional e além.

Por mais complexa que a regulamentação da Anvisa, membro do PIC/S (Esquema de Cooperação em Inspeção Farmacêutica), possa parecer para novos participantes, é na verdade uma regulamentação muito específica e clara que ilumina a trajetória farmacêutica para países subtropicais e tropicais e pode gerar uma vantagem de mercado para os pioneiros, tanto associações quanto empresas.

Leia também:

“Nada para nós sem nós”: federação une associações de cannabis no Brasil

#PraCegoVer: fotografia que mostra uma pequena lupa, bem próxima da câmera, por onde pode-se ver os cálices repletos de tricomas e alguns pistilos brancos da infrutescência de uma planta de maconha, que preenche o restante da imagem, ao fundo. Foto: Rafael Rocha | Smoke Buddies.

smokebuddies logo2 Os principais desafios do mercado brasileiro de cannabis

Sobre Smoke Buddies

A Smoke Buddies é a sua referência sobre maconha no Brasil e no mundo. Aperte e fique por dentro do que acontece no Mundo da Maconha. https://www.smokebuddies.com.br
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!