Opinião: Viva o combate às drogas

A VIOLÊNCIA NO BRASIL TEM CARA COR E ENDEREÇO Opinião: Viva o combate às drogas

“Falando sério: alguém acredita que a atual política de combate às drogas traz algum benefício que justifique tantas mortes e violência? Se sim, que tal reintroduzir a Lei Seca americana dos anos 1920?”. A questão é colocada por Vera Iaconelli*, em sua coluna na Folha de S.Paulo

A pessoa bebe e sai por aí brigando com todo mundo, discutindo com o vizinho, batendo na mulher/marido e nos filhos. Causa acidentes, atropela inocentes. Tem a vida completamente destruída pelo vício. Perde emprego, amigos e família, que não suportam tanto sofrimento.

As doenças do bebedor inveterado custam uma fortuna para o serviço público e o privado: eles morrem de cirrose, perdem as faculdades mentais, têm delírios, se suicidam. O álcool induz a gravidezes indesejadas e filhos desassistidos, uma população inteira de crianças traumatizadas, negligenciadas, que serão um ônus para os demais familiares e para o Estado.

Filhos de gestantes alcoólatras têm síndrome de abstinência ao nascer e têm menos chance de receber cuidados adequados das mães viciadas ao longo da vida. Correm grande risco de se tornarem alcoólatras também. O álcool é um inferno para o indivíduo e para a sociedade.

Que tal combatê-lo usando as atuais políticas contra as drogas? Vejamos como seria.
A primeira coisa a fazer seria proibir terminantemente a produção, a comercialização, o porte e o consumo do álcool.

Se a proibição for desrespeitada, prendemos os portadores, os comerciantes e os produtores. Vamos encher a cadeia com eles. Cadeia neles e, se for necessário, bala na cabecinha. Afinal, as cadeias já estão implodindo de sujeitos que foram presos por sua ligação com outras drogas —quase 30% no geral, 70% no caso das mulheres— e sustentá-los custa uma fortuna ao país.

A alternativa é que sejam eliminados na guerra ao tráfico antes mesmo de criarem ônus para o Estado. O cara se envolve com droga, sai fazendo merda e ainda vamos ter que pagar a vida fácil dele na cadeia? Se as cadeias estiverem apinhadas, com motins periódicos, tanto melhor. Bandido bom é bandido morto, não é mesmo?

Detalhe: o comércio ilegal de drogas movimenta fortunas incalculáveis. Sabemos o problemão que era para o Pablo Escobar esconder a bufunfa que jorrava do tráfico. Ele enterrou tanto dinheiro e em tantos lugares, que até hoje existe caça ao tesouro na Colômbia. Esse rio de dinheiro permite que os meliantes comprem empresas lícitas, comprem políticos, comprem governos.

A disputa por essa fortuna promove a guerra das facções com seus tiroteios a céu aberto. O cidadão fica desprotegido diante do poder paralelo que domina a cidade.

Quem vai nos proteger? Se você mora nos Jardins, no Leblon ou similar, poderá blindar seu carro e contratar uma guarda particular, fazendo do seu lar a filial do Mossad.

Se você mora na periferia, terá a proteção compulsória das milícias a sua disposição. Elas dão um chega para lá nesses traficantes de merda e, de quebra, organizam os serviços necessários para a comunidade, onde o poder público desapareceu: gás, luz, internet, TV a cabo, água, transporte e segurança, claro!

Mas como o traficante de merda ganha muito mais do que o miliciano “vendendo serviços”, o miliciano logo passa ele mesmo a distribuir droga. Por fim, ele compra políticos e fuzila as Marielles que cruzam seu caminho.

Se morrerem mais alguns milhares de cidadãos, policiais e Ágathas, são apenas cadáveres do ofício, pois o que importa mesmo é acabar com esses traficantes de merda.

Falando sério: alguém acredita que a atual política de combate às drogas traz algum benefício que justifique tantas mortes e violência? Se sim, que tal reintroduzir a Lei Seca americana dos anos 1920?

*Vera Iaconelli é mestre e doutora em psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerar e autora de “O Mal-estar na Maternidade”.

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#PraCegoVer: imagem de capa traz ilustração que mostra uma pessoa negra ao chão, de costas, com as mãos algemadas e vestindo uma camiseta verde com a bandeira do Brasil nas costas, e, no segundo plano, um policial fardado que deixa o local, segurando uma pistola de onde sai fumaça; com um fundo branco. Ilustração: Carlos Latuff / D’Incao.

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