ONG do RN é proibida de cultivar maconha para fins medicinais

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No Rio Grande do Norte, uma ONG realiza a produção e distribuição a baixo custo de óleo de maconha, contudo os pacientes atendidos pela entidade correm o risco de ficarem sem o medicamento, por falta de uma autorização judicial. As informações são da Tribuna do Norte.

As dores crônicas que Rosalba Soares, 61 anos, sente diariamente nos membros do corpo são amenizadas com duas gotas do óleo de Cannabis, uma de manhã, em jejum, e outra à noite. Diagnosticada com câncer de mama, artrite e neuropatia diabética, a mulher é uma das 88 pessoas beneficiadas pelo uso do óleo fornecido pela ONG Reconstruir, que busca regulamentação na justiça federal. Uma liminar negativa ao pedido de tutela antecipada impetrado pela instituição, em 5 de dezembro de 2018, traz incertezas e aflições aos pacientes que usam o óleo medicinalmente.

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Com a negativa da justiça federal no Rio Grande do Norte, as plantas que eram cultivadas pela Reconstruir foram destruídas. Se houver uma autorização no futuro, a expectativa é que em quatro meses se consiga extrair o óleo novamente.  “Matamos as plantas para seguir as leis. Entramos com um pedido de reconsideração para que os pacientes não ficassem sem remédio, mas sem essa autorização ficamos de mãos atadas”, esclareceu Yogi Pacheco, diretor executivo da ONG.

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#PraCegoVer: fotografia em plano americano de Yogi Pacheco (usando óculos e uma camiseta de cor clara com detalhe para estampa em preto com a escrita “Strain Hunters”), Adriana Lamartine e Felipe Farias, lado a lado, com um lindo fundo de um ambiente de vegetação. Créditos: Aura Mazda.

Um paciente que necessita dos componentes da Cannabis desembolsa R$ 1.000 a R$ 1.500 para importar um frasco. Nas farmácias brasileiras, o “Mevatyl” (primeiro medicamento registrado pela Anvisa a base de Cannabis) custa cerca de R$ 2.800. Antes da negativa da justiça, a ONG Reconstruir doava parte do óleo produzido, e o restante era vendido por R$ 200 o frasco.

Os advogados subscritores da ação, Gabriel Bulhões e Carla Coutinho, destacam que a autorização judicial visa dar maior segurança aos enfermos e seus familiares, já que a planta ainda é proscrita na interpretação de alguns juristas, além de possibilitar que famílias de baixa renda possam ter acesso ao remédio, já que o custo da importação é alto e o cultivo coletivo o diminui consideravelmente, permitindo o acesso à saúde de todos que necessitam.

A luta das pessoas que fazem parte da Reconstruir é pela regulamentação do plantio para fins medicinais, com suporte do cientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O diretor  de comunicação da ONG Felipe Farias relatou o sentimento de frustração. “Ficamos sem perspectiva de como ajudar as pessoas, vemos pacientes na UTI precisando disso, quem nega isso às pessoas não tem ideia da dificuldade que é ter uma criança com microcefalia convulsionando, por exemplo”, disse.

A ONG Reconstruir aguarda um novo posicionamento da justiça até o final de janeiro. Até lá, a orientação dada aos pacientes que usam o óleo, principalmente aos que são de baixa renda, é que recorram a uma lista de espera da ONG Abrace, na Paraíba, estado onde o plantio para uso medical pela entidade é autorizado  pela justiça. A Associação do estado vizinho ajuda 890 pacientes com epilepsia, 290 com alzheimer, 370 com parkinson e mais de 65 pessoas com câncer.

Uma das coordenadoras do coletivo potiguar Delta 9 e voluntária da ONG Reconstruir, Adriana Lamartine, esclareceu que a ONG não pretende a permissão indiscriminada para o cultivo da Cannabis, mas sim a autorização para realizar o cultivo e preparar o remédio com componentes químicos específicos exclusivamente para quem precisa, mediante prescrição médica. “O nosso objetivo é ajudar pessoas, porque Cannabis sempre foi remédio e continuará sendo”, disse Adriana Lamartine.

Gabriella Lima
mãe de Cauã, 3 anos

O pequeno Cauã, de 3 anos, começou a passar por convulsões nas primeiras horas de vida, após um “sofrimento” no parto. Diagnosticado com paralisia cerebral e epilepsia, a criança é uma das 88 beneficiadas com o óleo de Cannabis que era produzido pela ONG Reconstruir. A mãe dele, Gabriella Lima (foto), contou que está desesperada com a possibilidade do óleo acabar, em 10 dias. Quando ele nasceu, passou quatro meses internado tentado controlar as convulsões. Nas crises mais intensas, chegava a ter 100 convulsões por dia. “A médica tirou e botou vários remédios convencionais, e nenhum conseguiu controlar. Teve uma época que ele tomava 5 anticonvulsivos e mesmo assim ainda descompensava. Era uma criança paradinha, que não rendia nas terapias”, contou a mãe. Há cerca de um ano, segundo a mãe, o menino entrou em estado de mal convulsivo. Passou praticamente 72 horas consecutivas convulsionando, e mesmo ele estando dormindo ela disse que conseguia ver as pálpebras dele tremendo. “Já estava internado na UTI, com sedação, com todo acompanhamento médico, e nada fazia ele melhorar. Foi onde me vi entrar em desespero, sem saber o que fazer. Ver meu filho convulsionando o tempo inteiro e ouvir o médico dizer que a única alternativa era esperar passar, porque todos os medicamentos já estavam em dose máxima”, lembrou Gabriella. Após entrar em um grupo de whatsapp e conhecer a ONG Reconstruir, a mãe contou que viu “uma luz no fim do túnel” para o sofrimento que o filho estava passando.  “Para nossa surpresa, com poucas horas depois que iniciei, ele já estabilizou. 24 horas após o início, fez um eletroencefalograma, onde não tinha mais nenhum sinal de convulsão”, contou a mãe, relatando que as melhoras do filho com o uso da Cannabis só aumentam.

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#PraCegoVer: fotografia em meio primeiro plano de Gabriella Lima sorrindo em um balanço e com o filho Cauã no colo, e um fundo que mostra um solo com curvas de nível naturais coberto por grama. Créditos: Aura Mazda.

Rosalba Soares, 61 anos
Paciente com câncer de mama

Quando foi diagnosticada com câncer de mama, em 2017, a servidora pública Rosalba Soares, 61 anos, viu sua vida ser transformada. O abalo psicológico era tão forte quanto as dores físicas que sentia. Em uma das tentativas de aliviar a dor que estava sentindo, experimentou o óleo de Cannabis pela primeira vez, prescrita por um médico.

O alívio foi imediato, segundo contou a filha de Rosalba, a enfermeira Vanessa Soares, 31 anos. Ela passou por um processo de quimioterapia, radioterapia e está concluindo o tratamento com injeções, que fazem parte do processo. “Eu sempre fui adepta da Cannabis e pesquisei, porque sou da área da saúde, via estudos do óleo, que é muito antigo, é uma erva milenar”, disse Vanessa, relatando que o único questionamento da mãe, era se teria que fumar a erva. “Ela deixou de fumar há 8 anos”, disse.

O frasco que contém o óleo responsável por amenizar as dores que Rosalba sente, está no fim. Restam duas gotas, que estão sendo guardadas para quando ela for fazer a última aplicação da injeção, no dia 27. “Antes, quando ela acordava, as mãos eram duras, hoje isso não acontece mais. Outro problema que ela tinha era de insônia, demorava a dormir, e isso melhorou bastante”, contou a enfermeira.

O óleo de Cannabis utilizado por Rosalba era comprado na ONG Reconstruir, agora impossibilitada de fornecer o produto. “Vejo com muita tristeza um falso moralismo de proibir o uso medicinal e recreativo da maconha. Para a gente que sabe a importância que isso tem, é revoltante”, lamentou Vanessa Soares.

#PraCegoVer: fotografia (capa) em ângulo superior e close-up de uma pequena muda de maconha plantada em um vaso com terra marrom.

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Sobre Smoke Buddies

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