O uso de maconha é eficaz na redução de danos, segundo estudos

flor cultivo dave O uso de maconha é eficaz na redução de danos, segundo estudos

Enquanto vários países estão evoluindo com êxito suas políticas de drogas, através da descriminalização e legalização, e tratando o uso problemático de substâncias pelo viés da redução de danos, o Brasil insiste em seguir na contramão, investindo na falida guerra às drogas e em uma política que prioriza a internação

A dependência química, também conhecida como adicção, é causada pela ativação do sistema de recompensa do cérebro pelo uso de drogas, lícitas ou ilícitas, que provocam um aumento rápido na liberação de dopamina, neurotransmissor envolvido nas sensações de prazer.

Segundo o Dr. Drauzio Varella, com a repetição da experiência, os neurônios que liberam dopamina já começam a entrar em atividade ao reconhecer os estímulos ambientais e psicológicos vividos nos momentos que antecedem o uso da substância, fenômeno conhecido popularmente como fissura.

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a pesquisa em neurociências levou ao desenvolvimento de várias intervenções farmacológicas e comportamentais para tratamento da dependência química. A combinação de terapias em ambas esferas parece ser a abordagem mais eficaz no tratamento da dependência. Há dúvidas, no entanto, quanto ao critério de avaliação do êxito: um tratamento só será considerado bem sucedido se obtiver a abstinência completa? Ou será suficiente, como medida de êxito, uma redução da quantidade, frequência ou consumo prejudicial de uma substância?

Enquanto no Brasil, o governo e seus czares antidrogas seguem na vanguarda do retrocesso, investindo na falida guerra às drogas que, claramente, causa muito mais danos à sociedade do que o uso de substâncias, e em uma política de drogas que autoriza a internação involuntária de dependentes químicos, fortalecendo as clínicas e comunidades terapêuticas. Em países desenvolvidos, como Portugal, Países Baixos, Suíça, Alemanha, Espanha, Austrália, Canadá, França, Dinamarca e Noruega, por exemplo, a evolução das políticas de drogas pode ser vista com a descriminalização e legalização do uso de drogas, e o uso problemático de substâncias sendo tratado através de medidas de redução de danos.

O que é redução de danos (RD)?

Conforme a Associação Internacional de Redução de Danos (IHRA), é um conjunto de políticas e práticas cujo objetivo é reduzir os danos associados ao uso de drogas psicoativas em pessoas que não podem ou não querem parar de usar drogas. Por definição, a redução de danos foca na prevenção aos danos, ao invés da prevenção ao uso; bem como foca em pessoas que seguem usando drogas. O conceito ganhou maior dimensão depois do reconhecimento da ameaça da disseminação do HIV entre e a partir de pessoas que usam drogas. Entretanto, medidas similares já vinham sendo usadas por mais tempo e em outros contextos para uma série de outras substâncias.

A RD complementa outras medidas que visam diminuir o consumo de drogas como um todo. É baseada na compreensão de que muitas pessoas, no mundo todo, seguem usando drogas apesar dos esforços empreendidos para prevenir o início ou o consumo contínuo. Existe uma necessidade de prover as pessoas que usam drogas com opções que minimizem os riscos de continuarem usando e acabarem causado danos a elas próprias ou a outros. Portanto, é essencial a existência de informações, serviços e outras intervenções de RD que ajudem as pessoas a se manterem seguras e saudáveis.

O norte da RD é dignidade e qualidade de vida, não consideradas necessariamente incompatíveis com a condição de usuário de drogas. Para a maioria das pessoas que consomem drogas, os fatores causadores de má qualidade de vida são mais relacionados à sua condição de usuários de drogas do que aos efeitos dos psicoativos em si, e isso deve ser considerado mesmo para pessoas com uso problemático ou dependência daquelas substâncias (1).

Terapias de substituição

As terapias de substituição devem ser fator de equilíbrio biopsicossocial na relação tríplice entre sujeito, droga(s) e contexto(s) de sua vida. Portanto, elas incluem a troca (quantitativa, qualitativa ou em modo de usar) de drogas legais ou ilegais por outras, legais ou não, que melhorem o grau de compatibilidade do uso em cada contexto. Tal compatibilidade inclui a busca de satisfação do desejo do sujeito, a conservação de sua saúde e a harmonia com a coletividade (1).

Pela óptica da Associação Brasileira de Redutores de Danos, a RD inclui as terapias de substituição como uma das opções com nível de exigência mais compatível com as necessidades, capacidades e desejos das pessoas que usam drogas do que a abstinência, sendo propiciadora de construção de vínculo com estas pessoas (1).

Embora não persiga a abstinência, a RD também reconhece a utilidade das terapias de substituição como alternativa para pessoas em situação de uso problemático/danoso de drogas e com desejo de interrompê-lo: estas pessoas podem ter nas terapias de substituição um amparo eficiente no controle de sofrimento nas fases iniciais da abstinência ou como manutenção da mesma, como acontece, por exemplo, com a oferta de nicotina inalatória, oral ou transdérmica para tabagistas em abandono do hábito (1).

Leia: A questão das drogas na perspectiva da redução de danos

Maconha na redução de danos

Heroína

Um estudo realizado pela neurocientista Yasmin Hurd, da Faculdade de Medicina do Hospital Mount Sinai, nos EUA, e publicado na revista Trends in Neurosciences revelou que o canabidiol (CBD) é eficaz na redução direta do desejo por heroína e no alívio dos sintomas de abstinência em usuários da substância e outros opioides (2).

“A vantagem da maconha não é tanto porque elimina a dor dos sentidos, mas porque ‘desacopla’ a sensação do sofrimento, provavelmente por induzir uma ‘descorrelação’ de disparos neuronais”, segundo o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, coordenador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Crack

Pesquisas feitas pelo Centro de Uso de Substâncias em Vancouver, no Canadá, mostraram que o uso de maconha permite que as pessoas consumam menos crack. O grupo de pesquisadores, das universidades canadenses de British Columbia, Montreal e Simon Fraser, estudou entre 2012 e 2015 a rotina de 122 dependentes de crack que haviam relatado estar usando maconha e crack (3).

Os resultados apontaram que a maconha auxilia na redução do consumo de crack. O número de usuários que relataram uso diário de crack caiu de 35% para pouco menos de 20% após o consumo das duas substâncias.

O estudo canadense se alinhou com um pequeno estudo realizado no Brasil, o qual acompanhou 25 pessoas que buscavam tratamento contra o uso problemático de drogas e relataram usar maconha para reduzir a vontade por outras drogas mais pesadas como a cocaína e o crack. Em um período de nove meses de estudo, realizado por Dartiu Xavier e outros pesquisadores, 68% dos participantes tinham parado de consumir o crack (4).

Opioides e medicamentos prescritos

A pesquisa, feita por cientistas da Universidade do Novo México (UNM), nos EUA, durou 5 anos e envolveu 125 participantes, todos com dores crônicas. Dos participantes, 83 utilizaram a cannabis com os remédios e 42 escolheram não usar (5).

O estudo revelou que 34% dos que se medicavam também com a maconha deixaram de usar os seus remédios para dor. Já dos que não consumiram a cannabis, somente 2% abandonaram os remédios, em outras palavras: 98% continuaram a se medicar.

Em maio de 2018, outro estudo realizado com pacientes adultos inscritos no Medicaid — um programa de saúde social dos Estados Unidos para famílias de baixa renda —, nos estados que legalizaram a maconha, assim como em estados onde a erva ainda não era legal, descobriu que, entre 2011 e 2016, os estados onde a maconha medicinal legal estava disponível para uso no alívio da dor tiveram uma taxa de prescrição de opiáceos 6% menor (6).

Além disso, os estados que legalizaram a maconha para fins adultos tiveram uma taxa de prescrição de medicamentos cerca de 6% mais baixa do que aqueles com maconha medicinal, ou seja, a maconha para uso adulto dá às pessoas um acesso ainda melhor à erva como um analgésico.

Um terceiro estudo mostra como a maconha medicinal pode combater a crise de opioides em pacientes acima dos 65 anos. A pesquisa feita com pacientes do Medicare — o sistema de seguros de saúde gerido pelo governo dos EUA destinado aos idosos — analisou os dados entre 2011 e 2015 e detectou uma queda de 14% nas doses de medicamentos prescritos por dia nos 14 estados com dispensários de maconha medicinal (e mais 9 que foram legalizados ao longo do estudo) (7).

Este estudo também comparou estados com dispensários àqueles que só permitem o cultivo caseiro. Os estados sem dispensários tiveram uma queda de 7% nas doses diárias de opiáceos em comparação com os estados sem legislação sobre a maconha medicinal.

Álcool

A New Frontier Data realizou uma pesquisa com 3.000 adultos consumidores de maconha, nos EUA, que foram questionados sobre o porquê de utilizarem, como conseguem, como consomem e suas perspectivas sobre a sociedade e a vida (8).

Entre os consumidores de álcool e maconha, dois terços (65%) dizem que dada uma escolha, preferem a erva em vez da bebida, enquanto 28% seguem consumindo ambas as substâncias.

Dos entrevistados, 74% creem que a maconha é mais segura que o álcool e 73% dos pacientes medicinais a utilizam como um substituto aos fármacos, sendo que 94% reporta melhoras em suas condições.

Cocaína

Um estudo realizado por pesquisadores do Scripps Research Institute, em São Diego, na Califórnia, ministrou doses diárias de álcool ou cocaína a roedores, levando-os a exibir comportamentos semelhantes a de pessoas viciadas, incluindo impulsividade e ansiedade. Para amenizar os efeitos do vício e auxiliar no processo de desintoxicação, os pesquisadores aplicaram um gel de CBD na pele dos animais (9).

Com o tempo, os ratos que receberam a aplicação de CBD mostraram redução nos sinais de recaída no vício, mesmo quando expostos a ambientes estressantes. Outro dado interessante é que com o tempo, cerca de cinco meses, os ratos expostos ao CBD continuaram mostrando uma menor probabilidade de recaírem, embora todos os sinais do CBD tivessem desaparecido de seus organismos após três dias.

A conclusão, portanto, sugere que o uso do canabidiol pode auxiliar não só no processo de desintoxicação como também na manutenção do processo, após o usuário deixar de consumir drogas.

Referências bibliográficas

  1. Campos, M. A.; Siqueira, D. R. (2003). Redução de danos e terapias de substituição em debate: contribuição da Associação Brasileira de Redutores de Danos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 52, 387-93. [Link]

  2. Hurd, Y. L. (2017). Cannabidiol: Swinging the Marijuana Pendulum From ‘Weed’ to Medication to Treat the Opioid Epidemic. Trends in Neurosciences. [Link]

  3. Socías, M. E., et al. (2017). Intentional cannabis use to reduce crack cocaine use in a Canadian setting: A longitudinal analysis. Addictive Behaviors. [Link]

  4. Labigalini E.; Rodrigues L. R.; Da Silveira D. X. (2012). Therapeutic Use of Cannabis by Crack Addicts in Brazil. Journal of Psychoactive Drugs. [Link]

  5. Vigil J. M., et al. (2017). Associations between medical cannabis and prescription opioid use in chronic pain patients: A preliminary cohort study. PLoS ONE. [Link]

  6. Wen H.; Hockenberry J. M. (2018). Association of Medical and Adult-Use Marijuana Laws With Opioid Prescribing for Medicaid Enrollees. Journal of the American Medical Association. [Link]

  7. Hill K. P.; Saxon A. J. (2018). The Role of Cannabis Legalization in the Opioid Crisis. Journal of the American Medical Association. [Link]

  8. Kagia J.; McCoy J. J. (2018). 2018-2019 Cannabis Consumer Report: Archetypes, Preferences & Trends. New Frontier Data. [Link]

  9. Gonzalez-Cuevas G., et al. (2018). Unique treatment potential of cannabidiol for the prevention of relapse to drug use: preclinical proof of principle. Neuropsychopharmacology. [Link]

Leia também:

Especial Vice: Redução de danos, a política pública que nunca se concretizou inteiramente no Brasil

#PraCegoVer: fotografia (em destaque) de um cultivo de maconha com flores de pistilos alaranjados e brancos, com foco em uma delas, no primeiro plano. Foto: Dave Coutinho | Smoke Buddies.

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