O Japão está pronto para abraçar a cannabis?

fuji chureito O Japão está pronto para abraçar a cannabis?

O mercado de maconha medicinal tem um enorme potencial no país se houver uma mudança nas atitudes do público. Saiba mais na reportagem de Dan Buyanovsky para o The Japan Times

Kota Shimomura, proprietário da CBD Coffee, em Meguro Ward, Tóquio, percebeu uma coisa peculiar em sua clientela. “Quando conversam com os clientes, eles fazem coisas como chorar”, diz ele.

Shimomura, de 35 anos, está do lado de fora de sua recém-inaugurada loja de paredes brancas, olhando um grupo de clientes tomando goles curiosos de cafés e vitaminas infundidos com gotas da panaceia que domina Tóquio e o mercado global de estilo de vida como uma tempestade: o CBD.

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Também conhecido como canabidiol, o CBD é um ingrediente não psicotrópico encontrado na cannabis, especialmente no cânhamo. Pode ser consumido nas formas tópica e comestível, e seus proponentes afirmam que pode aliviar doenças que vão desde acne até inflamação e TEPT. Mas Shimomura diz que é mais do que apenas merchandising que atraiu multidões de clientes: são as consultas de sua loja, que permitem que os habitantes de Tóquio liberem seu estresse.

“Há realmente uma necessidade de (um lugar como este)”, diz ele, observando que o aumento do teletrabalho deixou muitos se sentindo isolados. “As pessoas não têm outras pessoas ao seu redor com quem possam conversar, e no Japão há muitos apartamentos de um quarto. Eu realmente entendo a necessidade que as pessoas carentes de apoio têm desse tipo de loja, onde podem fazer coisas como relaxar e desintoxicar”.

Benefícios para a saúde

Relaxar e desintoxicar, como se constatou, são palavras-chave da moda para a tendência em ascensão do CBD. Nos últimos anos, conforme a conversa global em torno da cannabis mudou e muitos países se moveram em direção à legalização, o extrato apareceu em produtos de uso diário, como hidratantes, sais de banho e cerveja.

“Estou tentando identificar quando o CBD se tornou popular nos Estados Unidos”, diz Lauren Yoshiko, uma escritora nipo-americana e apresentadora de podcast que mora em Portland e cobre a indústria da cannabis. “Foi realmente as pessoas descobrindo que o CBD é uma forma de ficar chapado, sem ficar chapado, um conceito supercomercializável”.

No final de 2019, a Scientific American citou uma pesquisa da Gallup que previa que o mercado de CBD valeria US$ 20 bilhões em 2024. E em setembro, a guru do bem-estar Martha Stewart posou para o The New York Times usando um colar de gomas de CBD, alegando que poderia comer 20 por uma vez, normalizando o produto para um público mainstream.

“Fui a uma conferência sobre cannabis e alguém disse que o CBD está sendo tratado como uma tendência”, diz Yoshiko, “mas o CBD é interessante porque realmente funciona. O açaí estava em alta, você via em todos esses produtos e comia em restaurantes, mas é só mais uma ‘berry’. O CBD funciona legitimamente; há pesquisa”.

Em termos do crescente apetite por CBD no Japão, Shimomura prevê que dentro de cinco anos o mercado “certamente será maior do que do tabaco”. A julgar pela demanda que viu em sua própria loja e seus planos de abrir uma segunda loja em Shinjuku até o final do ano, ele tem bons motivos para pensar assim.

Mas Shimomura não é o primeiro no Japão a ver o potencial de crescimento no negócio do canabidiol.

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A HealthyTokyo, fundada pelo ex-profissional de saúde que se tornou empresário Michael Bobrove, importa CBD para o Japão desde 2016 e agora tem locais em Harajuku e no Aeroporto de Haneda, onde vende óleos, comestíveis e um punhado de produtos para animais de estimação. A Camelback Coffee, em Tomigaya, agora mantém um frasco de extrato de CBD ao lado da caixa registradora. E em Kamakura, o café Magokoro, à beira-mar, tem uma seleção de bálsamos e sabonetes com infusão de CBD à venda, para complementar seu menu saudável e totalmente vegano.

Priyanka Yoshikawa, uma modelo e ex-Miss Mundo Japão, recentemente canalizou sua fama nacional para uma linha de produtos para a pele inspirada em CBD chamada Mukoomi, uma brincadeira com as palavras japonesas mukō (além) e miru (ver). Sua linha de produtos inicial inclui tonificador, sérum e creme facial infundidos com CBD.

“Eu queria ter minha própria linha de cuidados com a pele há muito tempo”, diz Yoshikawa, “e vi que ninguém estava realmente fazendo uma boa linha de cuidados para a pele à base de CBD”.

Yoshikawa foi inicialmente apresentada ao produto por um amigo durante uma sessão de modelagem nos EUA.

A rainha da beleza usou cremes com infusão de esteroides para sua pele sensível por muitos anos e recentemente teve problemas para dormir. Mas depois de experimentar o CBD, diz ela, sua pele melhorou e ela conseguiu ter uma noite de sono melhor. Hoje em dia, enquanto ela dorme apenas três a quatro horas por noite, o CBD continua melhorando a qualidade de seu sono.

“Somos workaholics no Japão”, diz ela. “As pessoas precisam relaxar mais. E ter o CBD em seu estilo de vida pode trazer mais relaxamento, um momento individual consigo mesmo”.

No mês passado, Yoshikawa apresentou um pop-up de três dias da Mukoomi em Ebisu. Entre compartilhar amostras de produtos com amigos e fãs, ela admite que tem como objetivo fazer da Mukoomi a “marca de beleza e bem-estar baseada em CBD da Ásia, não apenas do Japão”. Mas para atingir essa meta, ela terá que continuar a fornecer o CBD de alta qualidade usado nos produtos da Mukoomi, que é testado duas vezes — por fabricantes e por um laboratório independente.

“Ser capaz de ter o CBD limpo é muito importante para nós”, diz ela. “Tem havido problemas com isso em outros países, de pessoas usando todos os tipos de CBD e misturando-os com fabricantes diferentes e você nunca sabe realmente a qualidade”.

Conforme a Mukoomi cresce, a fabricação será seu maior obstáculo.

Assim como Shimomura vende produtos de empresas sediadas nos Países Baixos, Eslovênia e Inglaterra, Yoshikawa é obrigada a produzir todos os produtos da Mukoomi no exterior, em países onde o cultivo de cânhamo e a extração de CBD são legais. Assim que esses produtos chegam ao Japão, eles são embalados pela equipe da Mukoomi.

“Seria maravilhoso se pudéssemos usar o cânhamo cultivado no Japão”, diz Yoshikawa, “mas isso não depende de nós”.

Barreiras legais

Shimomura observa que as poucas marcas japonesas que ele comercializa na CBD Coffee usam cânhamo cultivado em Kentucky em seus produtos, como resultado do Ato de Controle da Cannabis do Japão, uma lei que impede a produção e a venda de cânhamo no país.

A legislação de várias camadas, originalmente aprovada em 1948 sob a Ocupação do Japão, liderada pelos EUA, proíbe em grande parte a importação ou exportação de cannabis, a prescrição de medicamentos fabricados com cannabis, receber tratamento com medicamentos fabricados a partir da cannabis e publicidade de cannabis no contexto de assuntos médicos ou farmacêuticos.

Mas com o novo enamoramento de Tóquio com o CBD, os defensores da pesquisa e legalização da cannabis veem uma oportunidade de renegociar a lei e sua interpretação social. Dois desses grupos, Green Zone Japan e a Associação Clínica Japonesa de Canabinoides (JCAC, na sigla em inglês), estão liderando o ataque, citando a longa história do Japão com a planta como uma razão para repensá-la como uma droga ilícita.

“O Japão tem uma história de cultivo de cannabis de mais de 10.000 anos”, disse o Dr. Minoru Arakaki, diretor-chefe da JCAC.

Naoko Miki, uma das fundadoras da Green Zone, escreveu recentemente para a Medical Cannabis Network Quarterly que o cânhamo é “reverenciado como uma planta sagrada” e como um “símbolo de pureza e fertilidade” no xintoísmo, uma das religiões indígenas do Japão. Historicamente, as fibras de cânhamo foram usadas para fazer cordas e cortinas tanto em santuários xintoístas quanto em templos budistas (confira no final desse post uma matéria sobre os usos da cannabis nas religiões).

Cannabis, cânhamo, CBD: a paisagem japonesa da maconha

Ainda assim, o Ato de Controle da Cannabis incutiu tal desprezo pela cannabis na cultura japonesa que quando celebridades são apanhadas em posse da substância — do ator Yusuke Iseya ao cantor Junnosuke Taguchi e o membro do elenco de “Terrace House” Sean Okamoto — seus crimes são televisionados em rede nacional.

O Dr. Yuji Masataka, diretor executivo da Green Zone Japan, denuncia o que considera uma postura propagandística.

“O estigma em torno da cannabis é como o estigma para os criminosos”, diz Masataka, que trabalha em um hospital como neurologista quando não está trabalhando como voluntário na Green Zone. “Aqui no Japão, ninguém nunca viu cannabis e não sabem o que é. Portanto, todas as informações que obtêm sobre isso são das transmissões de notícias sobre prisões”.

“Na semana passada, um jornal local confundiu cannabis com anfetaminas”, diz ele. “Eles escreveram em um artigo que a polícia prendeu um homem por ter cannabis em um pequeno pacote de pó branco. A cannabis não é um pó branco. Nunca. Mas um jornal disse isso. Essa é a educação sobre drogas aqui no Japão”.

Essa lacuna de conscientização também pode ter efeitos práticos nas empresas.

Yoshikawa enfatiza a importância da página de perguntas frequentes on-line de sua empresa, onde os clientes podem encontrar uma resposta para a pergunta “O CBD é legal?”, em inglês e japonês.

Shimomura, da CBD Coffee, lembra-se de um grupo de moradores de Meguro distribuindo panfletos para escolas perto de seu café, afirmando que ele estava distribuindo drogas ilegais.

“Claro, esse não é o caso”, diz ele, “então procuramos um advogado e pedimos que ele providenciasse um certificado dizendo que o CBD era legal no Japão e que não havia THC nele, sendo então seguro”.

É nessa distinção que a conversa em torno da cannabis no Japão está em jogo.

O THC, ou tetraidrocanabinol, é o principal ingrediente psicoativo encontrado na maconha medicinal, que foi classificada pela Clínica Mayo como um tratamento potencial para doenças como Alzheimer, câncer, doença de Crohn e glaucoma, entre outras. Atualmente, é legal em 33 estados americanos e dezenas de países.

Mas desde a aprovação do Ato de Controle da Cannabis no Japão, a luta para tornar a maconha medicinal disponível como um tratamento potencial para pacientes enfermos tem sido tensa.

Em 2016, o chef Masamitsu Yamamoto, morador da Prefeitura de Kanagawa, morreu de insuficiência hepática enquanto era julgado por porte de maconha. O ex-chef sofria de câncer de fígado avançado e alegou que havia usado maconha em um último esforço de alívio, mas continuou sendo processado, apenas para falecer antes que o julgamento pudesse ser concluído.

“Isso tem acontecido em todo o mundo”, diz Miki da Green Zone. “Nos Estados Unidos já ocorreram inúmeros casos como este e esse acúmulo acabou levando à legalização. No Japão, este foi o primeiro com um paciente que teve coragem suficiente para (submeter-se a um julgamento)”.

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Um futuro verde?

Para que a maconha medicinal eventualmente se torne legal no Japão, a Green Zone e a JCAC reconhecem que abraçar o recente hype em torno do CBD e pressionar por sua normalização é o primeiro passo.

Para isso, a Green Zone está adicionando legendas em japonês ao novo documentário “CBD Nation” e o exibirá virtualmente para os membros ao longo do ano. E em meados de novembro, a JCAC sediará um webinário de um dia inteiro com vários palestrantes que explanarão os benefícios e os desenvolvimentos de pesquisa circunjacentes ao CBD.

Para Masataka, é importante que o CBD e a maconha medicinal continuem na mesma conversa.

“Muitas empresas que estão tentando vender CBD tentam separar o CBD da cannabis e nós estamos tentando conectá-lo”, diz ele. “Esse é o nosso trabalho. Nós reconhecemos o CBD como uma parte da cannabis medicinal — o primeiro passo para a legalização da cannabis”.

E embora a Green Zone considere a eventual legalização da maconha medicinal uma questão de direitos humanos, o benefício de reacender o cultivo do cânhamo no curto prazo poderia gerar uma receita maciça e benefícios fiscais para o Japão.

“Em 1954, havia 37.313 produtores de cânhamo no Japão”, escreveu Miki para o Medical Cannabis Network Quarterly, “mas as estatísticas mais recentes indicam que havia apenas 37 em 2016”.

Em um país atormentado por preocupações com o envelhecimento da população e uma força de trabalho cada vez menor, uma forma de estimular seus braços agrícolas e manufatureiros seria retomar o cultivo em grande escala.

Em julho passado, o Dr. Harumi Kikuchi e a Associação de Cânhamo Industrial de Hokkaido lançaram uma campanha para pedir o renascimento do cultivo de cânhamo no norte do Japão, com uma meta de plantar 20.000 hectares da safra; o objetivo final é que o cânhamo produzido no Japão seja usado em alimentos, produtos para a saúde e cosméticos.

O comunicado à imprensa da campanha citou “normas internacionais desatualizadas que confundem o cânhamo com a maconha”, que sufocaram o cultivo do cânhamo desde 1948.

Arakaki, da JCAC, chega a dizer que permitir o cultivo de cânhamo é “necessário para o renascimento agrícola” do Japão.

A especialista em cannabis Yoshiko, que observou o boom da indústria na costa oeste dos Estados Unidos, também vê vantagens para uma sociedade historicamente botânica como o Japão.

“A cannabis é lucrativa; ela quer crescer”, diz ela. “E há um efeito cascata. Para as pessoas que não podem trabalhar em restaurantes agora, que não podem trabalhar como baristas agora, que estão frequentando a faculdade remotamente, tudo o que vejo são empregos sendo oferecidos em empresas de cannabis no nível inicial, empregos com remuneração acima do salário-mínimo. E isso simplesmente sobe na cadeia a partir daí. Houve avanços na tecnologia LED e tecnologia AVAC; tudo isso está mudando a forma como a agricultura pode ser mais sustentável, e é por causa da cannabis em massa (produção)”.

Masataka só precisa consultar a prefeitura da cidade onde mora para ver o que a produção de cannabis faria pelas áreas menos populosas do Japão.

“Eu moro em Kumamoto”, diz ele. “Estou no centro da cidade, mas, se eu dirigir 20 minutos, há muitos lugares abandonados. No campo, a população continua diminuindo, até por que não há bons empregos. Plantar arroz não dá muito dinheiro, então ninguém quer fazer isso. A única solução para fazer os jovens voltarem para o campo é a criação de novos empregos por meio do cultivo da cannabis”.

De volta a Meguro, outro grupo de clientes entra na CBD Coffee e examina uma vitrine de produtos bem projetados enviados para o país de todo o mundo. Por fim, pede-se um café com 10 miligramas de CBD. O barista serve a bebida em um copo de papel, depois pega um conta-gotas da H Think, marca japonesa que se comercializa como “CBD de cânhamo orgânico” e “sem THC”.

“Nos Estados Unidos”, diz Miki, “o CBD abriu as portas para a cannabis medicinal para muitas pessoas que nunca se interessaram por ela. Acho que a mesma coisa está acontecendo no Japão, em uma escala menor”.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia que mostra o Monte Fuji e parte da cidade de Fujiyoshida, ao fundo, na parte esquerda da imagem, e, no primeiro plano, o templo Pagode Chureito cercado de cerejeiras com folhas de cor castanho-acobreado; um céu azul com poucas nuvens completa o quadro. Foto: Walkerssk | Pixabay.

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