O clube do haxixe

haxixe O clube do haxixe

Com a ajuda do concentrado de canábis, intelectuais do século 19 alcançavam o paraíso artificial

Com muita atenção e fascínio, os convivas observavam o vaso de cristal ser aberto. De dentro do relicário, o médico vanguardista tirava uma colher cheia de uma pasta esverdeada, com cheiro e sabor misturado de cravo, canela, noz-moscada, açúcar, laranja e manteiga. “Isso será descontado de parte de vocês no Paraíso”, pregoou de forma solene o psiquiatra Jacques Joseph Moreau, que providenciara a exótica iguaria. Uma porção foi dada a cada um dos presentes, que se reuniam uma vez por mês naquele quarto do Hotel Pimodan, em Paris, por volta de 1850. O anfitrião era o escritor e poeta Charles Baudelaire, que morava no hotel, e descreveu um desses prazerosos encontros como “paroxismo da alegria”, ou seja, o mais alto grau de júbilo possível. “Eis aí a felicidade! Uma colherzinha bem cheia!”, escreveu ele certa feita. As reuniões secretas eram aguardadas com muita expectativa por todos. Eles não viam a hora de ingerir aquela mistura chamada de dawamesc, nome de origem árabe. O tom puxado para o verde decorria da resina usada no preparo, conhecida como haxixe (hashish), extraída da planta canábis.

“Hoje vamos morrer de rir!”, exclamou um dos presentes pouco antes de irromper numa crise de risos e soluços, enquanto dois rios de lágrimas desciam por seu rosto, cada qual nascendo de um dos exultantes olhos. Outro participante, o escritor Théophile Gautier, viu uma neblina azulada que antecedeu a aparição de uma miríade de alegres querubins no teto do cômodo. Todos os presentes se deleitavam e se esbaldavam em suas próprias consciências alteradas, cada um à sua maneira. Apenas o regozijo e o contentamento eram mútuos. As estrondosas gargalhadas e as zombarias atrevidas ecoavam por todo o hotel, usado como sede periódica para o já então conhecido e infame Club des Haschichins, composto por intelectuais e artistas influentes.

site sb O clube do haxixe

As reuniões dos haschichins eram ótimas oportunidades para o psiquiatra Jacques Joseph Moreau estudar os efeitos do haxixe de acordo com cada dosagem. Ele notou e anotou que doses pequenas proporcionavam aos membros do seleto clube sensação de alegria seguida por excitação. Doses intermediárias produziam ideias que se dissociavam à medida que suas mentes começavam a divagar. O senso de tempo também era alterado, e minutos podiam parecer horas e vice-versa. Doses maiores tornavam os sentidos mais aguçados, mas pensamentos e sentimentos se misturavam. Com dosagens extremas, imagens fantásticas eram produzidas por seus cérebros.

Uma das características do haxixe que mais impressionaram Moreau foi o potencial de lançar o usuário num estágio alucinatório enquanto preserva sua capacidade de observação e anotação. O próprio psiquiatra não deixava de usar suas doses nas reuniões, em que todos transcendiam ao mesmo tempo em que mantinham compreensão do que acontecia ao consumir o estupefaciente.

giftrimbim1 O clube do haxixe

O próprio anfitrião, Baudelaire, tomava nota de todas as experiências com a desenvoltura literária que lhe era peculiar. Em 1860, sete anos antes de sua morte, lançou o polêmico livro Paraísos Artificiais, em que analisa os efeitos de três substâncias psicotrópicas muito populares à época: o haxixe, o ópio e o vinho.

Convidados célebres eventualmente se faziam presentes nas reuniões do Club des Haschichins. No dia 23 de dezembro de 1845, o escritor francês Honoré de Balzac, fundador do Realismo na literatura moderna, compartilhou do néctar canábico. Mais de trinta anos depois, descreveu a experiência no Pimodan após uma alta dose do concentrado. “Ouvi vozes celestiais e vi as pinturas divinas”, registrou.

Arrebatados, sim. Alienados, jamais. Todos os haschichins bem sabiam que aquelas experiências eram controladas e que, antes de tudo, o homem precisa de seu trabalho e de sua mente sã para viver. Com as dosagens extremas que ingeriam, bem pra lá de recreativas, atingiam a profundeza de suas consciências, mas seus corpos e juízos, necessários à sobrevivência real, sucumbiam. Fora daquele quarto secreto e protegido, seriam presas fáceis para qualquer sorte de malfeitor. “É possível imaginar um Estado onde todos os cidadãos se embriagassem de haxixe? Que cidadãos! Que guerreiros! Que legisladores!”, consignou Baudelaire.

Não é possível discordar do escritor no que tange aos efeitos de doses extremas de concentrado de canábis. Eles se reuniam justamente para ultrapassar limites, seguir até aonde o homem médio não vai nem deseja ir. O interesse dos haschichins em romper barreiras não expressa a realidade dos usuários de maconha. De acordo com o Programa de Atenção a Dependentes Químicos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), algo entre 6% e 10% dos usuários que experimentam a erva pela primeira vez acabam ficando viciados, e outros estudos mostram que entre 1% e 2% passam a fazer uso abusivo. Isso é menos que a metade do índice verificado no álcool e no tabaco.

Aos que invocam a vulnerabilidade física e psíquica provocada pelo abuso de certas substâncias para criminalizá-las, importante ressaltar que trata-se de um sintoma de cunho individual. Além disso, a busca proposital da intoxicação recreativa é um comportamento natural de grande parte dos animais. Pessoas furiosas com o uso de drogas negam a própria química. As sensações provocadas pelo consumo de entorpecentes decorrem da produção de diversos hormônios, como endorfina e dopamina, pelo próprio cérebro devidamente estimulado. Com efeito, os mesmos hormônios são produzidos também em condições naturais, sem qualquer aditivo entorpecente.

Até mesmo um orgasmo é químico, uma espécie de droga. É bom, desejado e gostoso. Não há diferença de onde a substância vem. É nosso cérebro, faz parte de nós. Baudelaire deve ter se dado conta disso e de algumas coisas mais durante uma reunião do Clud des Haschichins, quando depois de uma farta colherada concluiu: “Eu me tornei Deus!”.

Leia também:

Guia politicamente incorreto para a legalização da maconha

#PraCegoVer: fotografia em close de uma porção de haxixe de cor marrom que, com sua superfície irregular brilhante, lembra a uma versão resinosa de muffin de chocolate, em fundo amarelo liso. Foto: THCamera Cannabis Art.

 O clube do haxixe

Sobre Leonardo Padilha

Leonardo Padilha é advogado canabista, jornalista e especialista em educação. leonardopadilha.advogado@gmail.com
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!