Neurocientista desvenda cinco mitos comuns sobre cannabis e saúde

flor bud comprimidos Neurocientista desvenda cinco mitos comuns sobre cannabis e saúde

Pesquisador do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), o doutor em neurologia Renato Filev explica cinco afirmações incorretas frequentemente associadas à maconha e saúde

Você já deve ter ouvido que maconha mata neurônios. Ou ainda, que causa esquizofrenia. Possivelmente, já acreditou que o uso de cannabis leva ao consumo de outras drogas, ou que o THC só “dá onda” e não possui propriedades terapêuticas.

Leia também: Ciência, direito e ativismo no debate sobre o acesso à cannabis medicinal

lazy placeholder Neurocientista desvenda cinco mitos comuns sobre cannabis e saúde

Mitos comuns relacionados à cannabis e saúde, sem respaldo em comprovações científicas, são fruto do contexto proibicionista brasileiro, que restringe o desenvolvimento de pesquisas e atrapalha a construção coletiva do saber empírico sobre a planta.

Por sorte, profissionais como o neurocientista Renato Filev, pós-doutorando no Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Unifesp, se dedicam a encarar o desafio de pesquisar maconha no Brasil, derrubar mitos baseados na ignorância e estabelecer novos parâmetros para a relação entre cannabis e saúde. Professor em um módulo do curso on-line da Open Green, Dr. Filev desvenda cinco grandes mitos sobre cannabis e saúde. Confira a seguir.

1. A cannabis mata neurônios.

“O que se tem de evidência mais conclusiva nesse caso é justamente o contrário, que a cânabis e seus derivados, componentes, apresentam uma função de neuroproteção — eles protegem as células nervosas de dano, evitando uma excitabilidade tóxica nessas células, e que elas acabem morrendo. Os canabinoides atenuam a atividade do sistema nervoso central, isso permite o fator protetor. Além disso, os canabinoides são capazes de modular a resposta imunológica, têm efeito antioxidante e protegem de uma morte celular programada, apoptose. Todas essas características reunidas demonstram o efeito neuroprotetor dos canabinoides, não o contrário”.

2. O uso terapêutico da cannabis é indicado apenas para doenças raras.

“Os canabinoides têm sido usados para o tratamento de algumas doenças graves, mas não raras. Dor neuropática, dor crônica, câncer, epilepsia são doenças relativamente comuns. Embora existam algumas síndromes genéticas, ou esclerose múltipla, que não são doenças de grande prevalência na população, sobre as quais a cânabis também é capaz de apresentar efeitos terapêuticos desejáveis. Além disso, proporciona melhora no quadro geral da reabilitação: melhora no apetite, no sono, no humor, no bem-estar e, consequentemente, na qualidade de vida em geral. São parâmetros importantes para a reabilitação de diversas enfermidades”.

3. CBD é bom, THC é ruim.

“O CBD e o THC têm uma relação por vezes antagônica. Os efeitos de um aparentemente são contrários ao do outro, embora o THC apresente um efeito paradoxal: em baixas doses apresenta efeito mais semelhante ao CBD, em altas doses apresenta um efeito oposto ao CBD. Inclusive, quando são usados associados, o CBD tem por característica prevenir alguns dos efeitos adversos proporcionados pelo THC, como aumento da ansiedade, paranoia, taquicardia e psicose.

O CBD apresenta efeitos colaterais em menor intensidade e menor gravidade que o THC. No entanto, pelas características do sistema endocanabinoide serem personalizadas, singulares em cada indivíduo, alguns apresentam melhora, redução de sintomas, com o uso do CBD, enquanto outros demandam pelo THC. Além disso, o THC também apresenta propriedades terapêuticas, como relaxante, para aumento do apetite, é redutor de náusea, analgésico.

Então, há uma série de propriedades terapêuticas tanto vinculadas ao CBD quanto ao THC, com essa questão dos eventos adversos que são mais frequentes com o uso do THC, sobretudo em doses elevadas”.

4. A maconha causa esquizofrenia.

“A esquizofrenia é uma doença multifatorial, está associada a uma herança genética bastante relevante. No entanto, quimiovariedades da cânabis que apresentam altos teores de THC ou se o indivíduo consome um preparado com altos teores de THC, isso pode ser um gatilho para um evento, um surto psicótico. E este surto psicótico, em um indivíduo predisposto ao aparecimento de uma enfermidade crônica, pode ser o fator desencadeador da enfermidade. O THC pode ser um fator disparador, mas não é um fator causador. Existem outros fatores que podem ser disparadores: um trauma, um acidente, um luto, o uso de bebidas destiladas, o uso de psicoestimulantes também podem deflagrar um surto psicótico”.

5. A maconha induz ao uso de outras substâncias ilícitas.

“Essa questão está relacionada sobretudo com a venda da substância em locais onde se vende outras substâncias ilícitas. A porta de entrada está mais ligada à proibição da cânabis do que por conta dos seus efeitos farmacológicos. Embora a cânabis atue na via de recompensa, na via mesolímbica, que proporciona motivação ao consumo, outras substâncias também acessam essa via, como o tabaco, como alguns medicamentos, como o álcool. Então, em tese, essas substâncias também seriam portas de entrada para outras substâncias. No entanto, a ligação da cânabis com substâncias em tese potencialmente mais danosas está muito mais ligada à regulação social que a cânabis é colocada do que com seus efeitos farmacológicos”.

Aulas abertas

Entre os dias 24 e 27 de novembro, como parte das ações da Green Week, Renato Filev e outros professores do curso “Cannabis: Habeas Corpus e outras medidas judiciais” realizarão aulas abertas, e ao vivo, com transmissão pelo Instagram da Smoke Buddies. A live com o neurocientista fecha a programação, às 20h de sexta, 27 de novembro.

Leia também:

Emílio Figueiredo: dez livros para aprofundar seu conhecimento sobre a maconha

#PraCegoVer: em destaque, fotografia que mostra uma porção de comprimidos redondos brancos em frente a uma flor de cannabis seca, em uma superfície amarela que se mistura com o fundo. Imagem: THCamera Cannabis Art.

Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!