NarcoEvangélicos: um conto não tão distópico sobre o Brasil

 NarcoEvangélicos: um conto não tão distópico sobre o Brasil

A partir da notícia divulgada na imprensa que traficantes de drogas do Rio de Janeiro estão unindo cinco favelas que dominam para expandir o seu poder, criando o “Complexo de Israel”, impondo a sua religião e ameaçando os praticantes de outras religiões, o historiador e ativista antiproibicionista Henrique Oliveira escreveu um conto não tão distópico sobre um Brasil dominado pelos NarcoEvangélicos

Num futuro não tão distante assim, o Narcotráfico no Brasil está sendo comandado por traficantes evangélicos, as facções foram renomeadas, ficaram no passado nomes como “Comando Vermelho”, “Primeiro Comando da Capital”, “Família do Norte” etc., os grupos se chamam “Bonde de Jesus” ou por nomes de sujeitos bíblicos, como “Tropa do Arão”, “Tropa de Moisés”, “Tropa de Josué”, os rivais não são mais chamados de “alemão”, mas sim de Filisteus.

Os pacotes de drogas são vendidos com frases bíblicas, na embalagem de maconha vem impresso Gênesis 1:29, “eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem sementes, as quais se acham sobre a face de toda a terra, bem como todas árvores em que há fruto que dê semente, ser-vos-ão para mantimento”, no pacote de cocaína Gênesis 3: 19, “do pó viemos, ao pó voltaremos”, e no pacote de crack João 8:1-11, “quem dentre  vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

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As favelas dominadas pelos NarcoEvangélicos também tiveram seu nome alterado, ao invés de Complexo do Alemão e da Maré, Complexo de Israel, Complexo de Jerusalém e de Jericó, em que bandeiras do Estado de Israel podem ser vistas nos topos das casas e desenhos da estrela de Davi estão pintados nos muros. Nos territórios controlados pelos NarcoEvangélicos nenhuma outra religião é permitida, os terreiros de Candomblé e casas de Umbanda são invadidas e destruídas, numa Guerra Santa contra os infiéis. As Igrejas Católicas têm suas imagens quebradas numa espécie de reedição da Iconoclastia ocorrida no século VIII, no Império Bizantino, no reinado do imperador Leão III, que proibiu a veneração de ícones.

Para reprimir a atuação dos NarcoEvangélicos, a política de segurança pública utiliza policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que fazem parte da Congregação Evangélica do Bope, que se organizam em grupos como Tropa do Louvor e os Caveiras de Cristo, apesar de um dos mandamentos da Bíblia ser “não matarás”, os policiais evangélicos utilizam versículos da mesma para justificar suas ações letais: “Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo” e “se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”. Ou então, agentes que fazem parte do programa Universal nas Forças Policiais (UFP), da Igreja Universal do Reino de Deus.

O governo brasileiro comandado por um presidente que se dizia católico, mas que se batizou no Rio Jordão em Israel e chegou à presidência em aliança com os pastores evangélicos mais ricos e influentes do país, sancionou uma legislação que permite a internação compulsória de usuários de drogas em centros de reabilitações, que são administrados em todo o Brasil pelo deputado federal e pastor da Assembleia de Deus, Sargento Isidório, que se diz ex-gay e ex-usuário de drogas. A Fundação Doutor Jesus é financiada por dinheiro público e o interno é submetido a uma rígida disciplina militar e religiosa, dizem até as más línguas que há tortura física e psicológica.

E para demonstrar que o programa de desintoxicação por meio da terapêutica religiosa realmente funciona, os pastores levam os supostos ex-usuários de drogas para o púlpito das Igrejas, em que drogas são oferecidas num ritual de cura do vício, que é transmitido ao vivo no único canal televisivo permitido a operar pelo governo.

Os fiéis evangélicos e cristãos de todas as vertentes continuam defendendo a política de proibição das drogas, para eles, drogas são substâncias demoníacas, que destroem a família e devem ser banidas do convívio social em nome de Deus. Enquanto isso, as Igrejas que gozam de imunidade tributária continuam sendo utilizadas para lavar dinheiro do tráfico de drogas. Amém!

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia aérea que mostra a comunidade da Cidade Alta, no Rio, onde vê-se um luminoso de estrela de Davi no alto de uma torre de caixa d’água. Imagem: reprodução / G1.

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