“Não vou dizer que Deus é maconheiro. Mas ele é cannabista”, diz padre

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Padre cria curso sobre cannabis medicinal na periferia de São Paulo e enche a paróquia com interessados e entusiastas da causa. Saiba mais com as informações da Carta Capital.

“Não vou dizer que Deus é maconheiro, eu realmente não sei. Mas com certeza ele é cannabista”, fala sorrindo o padre Ticão, fazendo ecoar as gargalhadas no salão. Na noite de 12 de março, uma terça-feira útil, o salão da paróquia São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, ficou abarrotado. Não era dia de missa. As pessoas ali reunidas foram discutir e aprender mais sobre o uso medicinal da cannabis, substância derivada da maconha e fonte de variadas propriedades terapêuticas.

O grande incentivador do encontro é o próprio padre Ticão, pároco da comunidade, que buscou a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para montar o curso. “A cannabis é fantástica. Serve para tratar várias doenças, e isso está provado no mundo todo. No Brasil só é crime porque os grandes grupos querem ter o monopólio disso. Quando legalizar a maconha, eles já terão todo o know-how”, diz.

Ticão é um adepto da medicina natural, fitoterápica, e promove discussões diversas sobre o tema na periferia de São Paulo. É um defensor incansável do direito à saúde da comunidade. Foi um dos responsáveis pela construção do Hospital Municipal Ermelino Matarazzo, pelo funcionamento de postos de saúde e de outras associações.

“O pedido para o curso veio da própria comunidade. Temos uma associação que cuida de crianças especiais, e eles queriam se informar mais. Aqui na periferia eu falo o tempo todo para as pessoas pesquisarem de tudo, e a internet ajuda muito. Pesquisar é básico”, explica.

O canabidiol, também conhecido como CBD, é uma substância extraída da cannabis sativa (maconha), e tem efeitos, entre outros, como analgésico, sedativo e anticonvulsivo. O tatrahidrocanabinol, o THC, é o princípio ativo da maconha que “dá barato”. Ele é antidepressivo, estimula o apetite e também funciona como anticonvulsivo.

Antes de apresentar os palestrantes e após uma chuva de palmas entusiasmadas, o padre passa alguns informes, pré-fixados no grandioso quadro negro do salão paroquial: os horários das reuniões sobre saúde preventiva, das próximas sobre cannabis medicinal e a concentração para a Marcha da Maconha, no dia 1 de junho. “Vamos nos reunir às 14h. É isso mesmo? Isso, às 14h, para sairmos do Masp… que horas mesmo?”, pergunta a um aglomerado de pessoas a sua frente, que em coro responde: “Às 4h20”. “Eles ensaiaram isso o dia todo”, brinca o padre. E avisa que está sendo servido caldo verde na entrada.

Articulado em pouco mais de um mês, o curso começou com 520 inscritos. No primeiro dia de aula, feita pelo neurocientista e pesquisador do Centro Brasileiros de Informações sobre Drogas e Psicotrópicos (Cebrid) Renato Filev, eram centenas. Os ventiladores não davam conta do suadouro provocado pelo caldo verde.

Homens, senhoras, negros, brancos, mulheres de cabelos brancos, outras com dreads nos cabelos. Uma boa parte era da própria zona leste, outra do centro, zona sul, norte, vários de outras cidades, e duas pessoas vindas do Rio de Janeiro especialmente para o seminário.

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#PraCegoVer: fotografia tirada em um dos cantos do salão da paróquia, da frente para o fundo, que mostra o espaço repleto de carteiras lotadas de pessoas atentas à palestra, com detalhe para um rapaz na primeira fileira (parte esquerda da foto) que está fazendo anotações e vestindo uma camiseta preta com o logo da liga canábica (desenho de uma folha da maconha verde com um coração vermelho ao centro).

Margarete*, 39 anos, é coordenadora pedagógica na Prefeitura de São Paulo, fuma maconha e deseja, com as aulas, entender mais sobre as propriedades medicinais da planta. “Estou aqui de curiosa. Sei que muitas famílias lutam para tratar crianças com autismo, epilepsia, e quero entender melhor como isso está rolando no Brasil”, afirma.

Ticão é do tipo que perambula nos piores pesadelos dos conservadores. Muito influente na quebrada, tem em seu altar – ao menos no salão paroquial – uma foto do Papa Francisco, de Paulo Freire, com quem trabalhou diretamente, e um grande pôster de Dom Evaristo Arns, sua principal referência. “Sigo seu legado, que é o do bem comum, público. Em toda minha vida, uma única pessoa me criticou por falar da cannabis, mas eu disse a ela que caso precise para tratar alguma doença, que nos procure. O povo da periferia é fantástico.”

Cannabis (medicinal) para todos

Desde 2014, quando foi lançado o documentário “Ilegal”, sobre famílias brasileiras em busca de maconha medicinal, cinco projetos de lei sobre a regulamentação da planta, incluindo seu uso terapêutico, foram propostos – três na Câmara e dois no Senado. Os projetos nunca foram levados a votação.

Movido por uma agenda moral, o Congresso Nacional se omite em alterar as regras, fazendo com que ações judiciais sejam um dos caminhos para o acesso de pacientes aos medicamentos com THC e CBD.

Só em 2015, o Ministério da Saúde foi obrigado a importar canabidiol para cumprir 11 mandados de segurança que beneficiaram 13 pessoas – gastando R$ 462 mil. Além disso, nos últimos três anos foram autorizados pela Anvisa 2.053 pedidos de importação de produtos à base de canabidiol e THC.

O caminho da Justiça, no entanto, só serve para aqueles que podem arcar com os custos de um processo. A importação dos remédios não é mais proibida no país, mas pode custar às famílias cerca de R$ 7 mil, a depender do produto.

Essa é a verdadeira preocupação do padre Ticão: que as famílias de baixa renda também possam tratar seus enfermos, oferecendo a eles maior qualidade de vida. “Eu acredito que precisamos nos organizar em cooperativas, a produzir em comunhão. Os direitos têm de ser para todos, e não podemos esperar que alguém nos sirva. Temos que nos apropriar deles”, afirma.

Leia: Famílias criam redes de apoio para uso medicinal da cannabis

A ideia do religioso está contemplada no curso. No dia 18 de junho, o advogado Fernando Silva, conhecido como Profeta Verde, um dos organizadores da Marcha da Maconha, falará sobre associativismo canábico.

Para ativistas e pacientes destes medicamentos, a extração caseira de CBD e THC é, de fato, um caminho a se seguir no tratamento de doenças como epilepsia e esclerose múltipla. Já existem famílias e ONGS que obtiveram habeas corpus preventivos para plantar maconha sem que corram o risco de serem presas. O cultivo é ou para um paciente da família ou para fornecer a doentes de baixa renda.

A associação Abrace, que cultiva maconha e distribui entre associados, já entrou com uma ação pedindo que a Justiça obrigue a União a reconhecer a legalidade de sua atividade.

Criminalização inibe a pesquisa científica

Estudos sobre o uso medicinal de derivados da cannabis sativa, em especial do canabidiol, comprovam sua efetividade no tratamento de quadros de epilepsia. Elisaldo Carlini, do Cebrid e professor da Unifesp, foi um dos primeiros pesquisadores do mundo a estudar os efeitos da maconha e seus componentes. Ele é um dos parceiros do padre Ticão no curso em Ermelino Matarazzo.

Aos 88 anos, Carlini também é do tipo que deixa os conservadores de cabelo em pé. Em 2018, o cientista organizou em parceria com outros pesquisadores o Simpósio de Maconha e Outros Saberes. Por isso, a promotora de Justiça Rosemary Azevedo Porcello da Silva intimou o cientista a depor, alegando que havia “fortes indícios de apologia ao crime” no evento. O caso teve repercussão, especialmente na comunidade cientifica internacional, onde Carlini goza de respeito.

A ação do canabidiol como anticonvulsivante em casos de epilepsia refratários a outros tratamentos tem sido comprovada por estudos recentes em todo o mundo. No entanto, ainda faltam pesquisas no Brasil que permitam avaliar, a longo prazo, sua eficácia e segurança. Esse déficit se dá não por outro motivo senão a criminalização do cultivo da maconha. O encerramento do curso, no dia 25 de junho, será com ele. Até lá, Ticão, especialistas em cannabis, curiosos e famílias de doentes se encontrarão religiosamente às terças-feiras no salão paroquial.

*O nome foi modificado para preservar a identidade da entrevistada

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#PraCegoVer: fotografia (de capa) de padre Ticão em pé, atrás de uma mesa, vestindo uma camiseta azul claro, com os óculos pendurados no pescoço e falando ao microfone que segura com uma mão, enquanto gesticula com a outra; ao fundo podemos ver uma grande placa de madeira com a escrita “São Bento – Comunidade São Francisco”, logo acima de uma lousa verde com anotações em giz branco sobre o curso.

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Sobre Smoke Buddies

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