Namastreta: como é uma sessão de yoga com cannabis?

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Algumas semanas atrás, recebi um convite, digamos, inusitado: participar de uma sessão de yogannabis, prática que mistura, bem, yoga e cannabis

Logo de cara fiquei interessada, porque, para mim, há uma ligação natural, ainda que bem contraditória, entre elas. A meu ver, o uso de cannabis está relacionado à contemplação, à expressão e a um processo de autoconhecimento, de relaxamento e de terapia, exatamente como eu vejo a yoga e a meditação.

Não que eu já não tivesse tentado unir as duas coisas – como praticante iniciante de Hatha Yoga e apreciadora da erva, não apenas me atrevi a dar um pega antes de uma das aulas matinais que faço semanalmente com um grupo de senhoras, como já estendi o tapetinho em casa depois de uma session, para ver o que rolava. Mas não rolou, em ambos os casos. Faltou equilíbrio e controle, dos pensamentos e da respiração, tudo que envolve a yoga. Taí a contradição.

Em estados americanos onde a maconha para uso adulto é legalizada, não faltam opções de vivências nesse sentido – a Ganja Yoga, como é conhecida na gringa, parece atrair pessoas em sessões e retiros que buscam na cannabis uma ferramenta para ampliar a experiência de yoga, do autoconhecimento e da meditação. Na teoria, realmente acho lindo.

Por isso, quando surgiu esta oportunidade experimental de imersão, me propus a mergulhar na vivência e, com intenção, tirar dela algumas percepções, desta vez em espaço, ambiente e ocasião próprios para isso – talvez, eu pensei, o contexto é o que falta para fazer a yoga fluir com a cannabis. Convidei uma grande companheira de experiências inusitadas para garantir que eu tivesse uma segunda visão sobre a história, que topou me encontrar na tal sessão de yogannabis em uma quinta-feira à noite.

Pois bem: meias antiderrapantes, tapetinho, garrafa d´água e um pré-enrolado (vai que, né?) foi o check-list para sair de casa rumo à prática do dia – ou melhor, da noite. Chegando lá, já atrasada pelo trânsito de São Paulo, começo a entrar no clima de um espaço de convivência que possui um grande galpão nos fundos, que jamais se percebe da fachada simples da casa, todo pintado em preto e com o pé direito alto. No chão, tatames encaixáveis de cor roxa. No teto, telhas aparentes, algumas translúcidas. Aquele galpão amplo, mas frio para uma noite de inverno, onde já ensaiaram e se apresentaram grupos de teatro paulistanos, segundo um dos residentes, serviu de palco para nossa prática elevada. Sem dúvida, era um ambiente que facilitava grandes brisas contemplativas.

A roda

Éramos oito, incluindo o instrutor, sentados em uma roda disposta com os tatames – coloquei o meu tapetinho por cima, para ajudar a bloquear o frio que vinha do chão, que dividi com minha amiga. Meia luz, uma vela acesa no centro da roda e uma música instrumental de fundo davam o tom do rolê. E eu, que vinha da frequência do trânsito de São Paulo, ansiosa e com expectativas, tirei o pré-enrolado da bolsa e, atravessando qualquer possível ritual, já estava em busca de um isqueiro para acender e fazer rodar aquele baseado.

Enquanto a gente trocava uma ideia esfumaçada sobre yoga e cannabis, contei sobre minha dificuldade de aliar as duas práticas e quis saber do nosso professor, assim como fiz a outras pessoas que estavam lá, o que ele achava de juntar as coisas. Aparentemente, ele faz isso sempre que possível, mas tenho que confessar que não lembro exatamente o que ele disse – eu já estava vendo tudo em uma perspectiva diferente a partir daí, e o contexto de estarmos em lados opostos da roda, ele ter como idioma nativo o espanhol e eu já estar sem meus óculos, para tentar uma leitura labial, deixou tudo mais sensível naquele momento.

Eu sei que, em um intervalo de tempo que pode ter sido de dez minutos ou uma hora, com dois baseados sendo compartilhados por nós, a conversa passou por temas (e termos) ligados e/ou muito distantes ao universo que eu conheço da ganja e da yoga, como tantra, lugar de fala, escutar, falo (o verbo também), e até o surpreendente “embocetar”. Lembro de, no auge, pensar que estava sorrindo com os dentes exageradamente à mostra.

Senti uma atmosfera de respeito, acolhimento e de confiança entre os que estavam na partilha, como em outras experiências de terapia coletiva que vivi, mas parte de mim dizia que o que estava rolando era mesmo uma enorme brisa coletiva – tanto que nem ousei olhar para meu lado direito, onde minha amiga estava, para evitar correr o risco de que nosso cruzar de olhos chapados resultasse em uma gargalhada em dupla (o que já ocorreu antes), que pudesse romper o clima que estava sendo criado para a yoga. Findados os dois baseados, todos estavam suficientemente altos para a prática. Pelo menos, eu estava.

A session

O que aconteceu a partir daí é a comédia de uma tragédia anunciada. O ruído da cannabis foi intensificado. No tatame em frente ao professor, para garantir que eu acompanhasse as asanas (poses da yoga) sem precisar de óculos, tive que me esforçar para tentar ouvir o que ele queria dizer em portunhol baixinho, além de seguir a sequência, com posições das mais básicas possíveis, como a montanha (tadasana, em sânscrito), a cobra (bhujangasana), o cadáver (shavasana) e a criança (balasana), e me equilibrar em outras que requerem o mínimo de equilíbrio, como o guerreiro 1 (virabhadrasana), tudo isso sem deixar a respiração diafragmática, abdominal ou completa, de lado.

Embora entenda a importância da percepção corporal até para as poses mais básicas, o fato é que passei a duvidar se eu sabia mesmo como executá-las. E como o som ambiente e a acústica do galpão dispersavam a fala do professor, além de outras distrações que visitavam minha mente por conta da ganja, por vezes eu simplesmente não fazia a mínima ideia do que estava rolando – se deveria ficar ali, em posição de cadáver, se abraçava o joelho direito (ou é o esquerdo agora?), se respirava, se parava para olhar…

E olha, pelo visto não era só eu. Quando espiava à minha volta, a confiança tinha ido embora do galpão, e o que se via eram pessoas meio perdidas, tentando, cada uma a sua maneira, entender e acompanhar com o corpo e com a respiração o que estava acontecendo. Em certo momento, o professor teve que avisar que estava apenas mostrando a pose, que não era para a gente repetir, enquanto braços e pernas tentavam acompanhar os dele.

Ao final da sessão, na parte meditativa, no escuro, minha mente se revezou entre admirar o incrível pé direito e as telhas translúcidas daquele espaço, me perguntar como seria escrever sobre a experiência, sentir frio, sentir fome e controlar a vontade de dar risada (uma risada nervosa) de tudo aquilo. Estava no passado, presente e futuro ao mesmo tempo.

E, para não dizer que não insisti, fui buscar uma técnica de meditação que aprendi em um retiro, para ver se me ajudava a concentrar. Mas, depois de me sentir exausta pela resistência de uma mente sativada, percebi que tinha que simplesmente me render e pensar, mesmo, se minha amiga ia querer comer em algum lugar legal saindo dali. Depois, soube que a sessão, que para mim pareceu mais de Muay Thai do que de yoga, não chegou nem a durar uma hora.

Na roda de conversa pós yoga, desta vez careta, o professor disse perceber nossa agitação e as lesadas coletivas, e reforçou que propôs uma sequência básica, como já sabemos. Lamentei oficial e publicamente o fato de que, para mim, cannabis e yoga servem ao mesmo propósito separadas, mas não se misturam. Talvez através da superação de dominar a mente alta durante a yoga esteja a sutil mágica de unir as duas práticas, me sugeriu sabiamente uma das participantes, que ainda compartilhou que sua vivência da yoga com cannabis foi incrível e que viveu momentos realmente emocionantes naquela noite. Por ela, fiquei feliz que a yogannabis esteja sendo praticada, mesmo que de forma bem tímida e experimental.

Que noite!

Dei uma carona para minha amiga, e tive a oportunidade de analisar, através de uma conversa cheia de risadas, “o que foi tudo aquilo”. E, depois de laricar um prato de yakissoba vegetariano feito pelo marido cozinheiro, deixei meu último registro em uma mensagem para ela à 0h18, que dizia “hahaha, criança com sono, essa é a pose”. E dormi, literalmente, como uma criança com sono.

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#PraCegoVer: Fotografia (de capa) mostra, de cima para baixo, parte da perna cruzada e braço direito de uma pessoa que, com a mão em mudras, segura um baseado aceso. Foto Thaís Ritli | Smoke Buddies.

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