Na seca: como lidar com a abstinência de maconha na quarentena

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O isolamento social em tempos de escassez pode potencializar os efeitos da síndrome de abstinência de maconha. Veja quais são os sintomas e como minimizá-los

Todo ano o drama se repete na vida de quem depende do mercado ilegal para ter acesso à ganja no Brasil. A oferta de maconha some entre problemas comuns ao sistema, como apreensões e pragas, e, aos desprevenidos, o que resta é “prensado da flor roxa”, de folha, ou então só chá mate mesmo, disfarçado de erva.

Este ano, porém, a sazonal seca coincidiu com nada menos que uma pandemia viral, extremamente contagiosa e que colocou o mundo sob isolamento. O que era seca virou deserto, e, nessa analogia, o oásis parece cada vez mais distante. Em tempos de quarentena, muita gente deve experimentar a sensação (e os efeitos) da abstinência de maconha, que, em alguns casos, pode ser problemática.

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“A abstinência é o ato de privar-se do uso”, explica Alexandre Monteiro, um dos idealizadores do projeto Dichavando a Redução de Danos, iniciativa voluntária que instiga milhares de pessoas no Instagram a debaterem temas que orbitam a política de drogas no Brasil, sob a perspectiva da RD. “Não necessariamente o usuário tem uso abusivo quando opta pela abstinência”, destaca ele.

Porém, quando cortar o cafezinho pós-almoço ou deixar de comer aquele chocolate à tarde traz alterações no humor, no sono ou no apetite, entre outros sintomas, abster-se ao consumo pode não ser tão tranquilo quanto parece. É o que se chama de crise, ou síndrome, de abstinência.

“A crise de abstinência pode levar à morte, dependendo do caso, por conta da dependência física da substância usada”, conta Alexandre. “Por isso, pela perspectiva da redução de danos, quando há possibilidade de adotar a abstinência, é extremamente necessário conhecer a relação do usuário com a droga, e que ele participe de forma ativa nesse processo”.

Mas e a maconha, planta medicinal, conhecida por suas propriedades terapêuticas, que nunca matou ninguém e que muita gente, inclusive, se ofende quando tratada por droga?

“Este foi o ano que, de longe, fiquei mais tempo sem fumar maconha, totalizando já 8 dias consecutivos”, conta Jorge*, que se define “usuário crônico” de cannabis, com consumo diário há 14 anos. “Por enquanto, a saúde e o bolso estão agradecendo”, completa, sem antes deixar de relatar as reações que teve nos primeiros dias em abstinência: alta irritabilidade, ansiedade e insônia.

“Após os três primeiros dias, a irritação baixou gradativamente, porém comecei a perceber falta de apetite e de produtividade”, conta ele, que aproveitou para cortar também o cigarro, que consumia religiosamente há 16 anos – o que pode ter agravado a situação. “Comecei a sentir enjoos e ter vômitos e diarreia por dois dias”.

Para Jorge, a crise durou uma semana. “Após o sétimo dia, senti minha produtividade voltar, vontade de fazer as atividades e felicidade. Me senti melhor, talvez pelo descanso que dei aos pulmões, e mais disposto”, ele conta. “Ainda tenho vontade de fumar maconha, porém não fico com essa ideia na cabeça e nem me afeta mais saber que estou sem”.

Os sintomas da síndrome de abstinência de maconha variam de pessoa para pessoa, segundo Alexandre, assim como a duração. “Os mais comumente relatados são dificuldade em dormir, sonhos estranhos, irritabilidade, inquietação e mau humor”, explica – sintomas que, em tempos de quarentena, podem ser potencializados.

“A abstinência no isolamento social pode não ser uma opção, deste modo, os efeitos tendem a se intensificar”, diz Alexandre. “O setting também interfere, se a pessoa não tem a possibilidade de ‘substituir’ o uso por outra prática, seja com leituras, ver filmes ou atividades físicas, o ócio também pode inflar a vontade de usar”.

Quem se vê em um inevitável contexto de privação de maconha em breve, seja pela seca, seja pelo coronavírus, pode minimizar os efeitos de uma possível crise desde já, a começar pela gradual redução do uso. “A maioria das pessoas deve reduzir sua ingestão diária de cannabis em cerca de 25% a cada semana sem notar muita abstinência”, explica Alexandre. “Lembrando que quanto mais você estiver fumando quando parar, mais intensa será sua retirada”.

Agora, se a crise de abstinência for uma realidade, Alexandre sugere algumas alternativas para lidar com seus efeitos: “o uso de kumbayás (aromaterapia) é uma opção de substituição. Outra opção válida é a prática de exercícios físicos (yoga ou artes marciais). Tem também o tratamento medicamentoso que é feito somente por médicos psiquiatras” que, na visão dele, seria a última possibilidade. “Recomendamos práticas não medicamentosas” completa, em nome do Dichavando a Redução de Danos.

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Quando é o momento, então, de buscar ajuda profissional? “Se o usuário não consegue reduzir ou parar sozinho, se o uso estiver atrapalhando seus relacionamentos, trabalho, estudo ou saúde mental e física, é bom conversar com um médico especializado ou psicólogx”, explica Alexandre. “A maconha pode sim causar problemas de saúde, principalmente mental”.

Diferente do discurso proibicionista que defende a abstinência total como política social, a auto reflexão e a busca pelo uso consciente é um convite ao cuidado – e uma prova de amor próprio. Nessa perspectiva, cabe a cada um entender sua relação com a erva, enxergar a linha entre uso e abuso e, sobretudo, respeitar seus limites.

“Para quem é consumidor inveterado e weed-friendly total, tudo é melhor com a ganja, mas não tê-la no cotidiano não me impede de fazer nada por motivo de abstinência”, conta João*, que, há dez meses, opta por não usar maconha. “Hoje eu olho pra tudo de bom que a erva já me proporcionou e me sinto bem em poder provar pra mim mesmo que ela não é uma droga pesada e viciante como cocaína ou açúcar”, declara.

Tal insight parece óbvio, mas, na real, é fruto de um mergulho profundo para dentro, que requer um baita fôlego e, muitas vezes, ajuda. “A relação humano x substância nem sempre será compreendida pelo próprio usuário, essa relação pode ser melhor entendida com terapia, por exemplo”, explica Alexandre. “Cabe deixar claro que ir ao psicólogo não é só para quem tem uso abusivo ou dependência. Enfatizamos a importância de o usuário reconhecer a sua relação com a substância, pois esse é um passo importante para compreender o uso e saber lidar melhor com ele, e lidar com gatilhos que despertem a vontade”, declara.

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De volta à superfície, vale o lembrete: vai passar. Assim como a pandemia. E é bem provável que ambas as experiências, abstinência e quarentena, com ou sem crises, ao passarem, te mudem por completo. E isso pode ser bom. “Percebo que agora não preciso mais fumar os sete baseados diários, mas apenas um ou dois já me satisfariam, vou tentar seguir assim quando voltar a fumar”, reflete Jorge. “Ah, e com certeza adotarei um período de desintoxicação de tempos em tempos. Gosto como estou me sentindo”.

Nota da Redação: Os nomes com (*) foram alterados para preservar a identidade das fontes.

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#PraCegoVer: fotografia (em destaque) que mostra uma porção de maconha triturada, colocada sobre um papel de seda aberto, em uma superfície lisa de cor amarela. Foto: THCamera Photography.

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