O que é micélio?

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Os fungos e cogumelos mágicos fazem parte de um universo fascinante, e o micélio é um elemento fundamental para explicar toda a sua importância para a humanidade. Vamos falar dele? Confira a coluna Girls in Green

Fungos são seres extremamente complexos. Eles são os mais novos e mais antigos, maiores e menores, e estão dentro de todos nós desde que nascemos até nosso último suspiro. É isso que nos conta o incrível documentário Fungos Fantásticos, da Netflix: ele traz especialistas incríveis, como o micologista Paul Stamets e o jornalista Michael Pollan, para explicar o fascinante universo dos fungos — e do micélio.

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Fonte: Pinterest.

Você deve lembrar um pouquinho das aulas de biologia, quando estudou sobre os fungos. Mas a verdade é que ela traz apenas pequenas pinceladas — e o quadro inteiro, amigos, amigas e amigues, é uma verdadeira obra de arte. Para você ter uma ideia:

  • São os fungos que fazem o solo ser vivo e trazer a vida que nos sustenta;
  • O fungo é seu próprio reino, com mais de 1,5 milhão de espécies, 6x mais do que plantas;
  • Cerca de 20 mil produzem cogumelos, que variam em cores, tamanhos e substâncias ativas.

E isso é apenas o que sabemos agora. A cada dia, novas espécies de fungos são descobertas, com funções e propriedades que podem nutrir, curar e, obviamente, chapar.

Mas, afinal, o que é micélio? Onde ele entra nessa história toda?

Vem com a gente que, aqui, vamos explicar tudinho!

Afinal, o que é um micélio, meninas?

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Fonte: Pinterest.

                             

Se você adora fungos, já deve ter observado os cogumelos — sejam os mágicos ou até mesmo aqueles que crescem no seu quintal após uma boa chuva! O que acontece é que o cogumelo é a parte frutífera do fungo, como uma maçã, por exemplo.

A outra parte cresce embaixo da terra, em um emaranhado de longos fios. Esses fios crescem uma célula por vez e se ramificam continuamente, crescendo em todas as direções em três dimensões. Essa massa de fios é conhecida como micélio.

Se um graveto cai no chão da floresta, você o junta e já pode observar que vão haver micélios ao seu redor. Isso por que os micélios estão em praticamente todos os lugares.

Um micélio tem mais ligações do que nossos cérebros possuem vias neurais, e funciona de uma maneira bem parecida, através de eletrólitos e pulsos elétricos. Atualmente, cientistas já sabem que eles são as espécies mais comuns na face da terra. Para termos uma ideia: há cerca de 500 km de micélios abaixo dos seus pés a cada passo que você dá — em qualquer lugar do mundo. Eles formam elos enormes, como uma grande teia.

Micélios crescem pra caramba e podem ter literalmente trilhões de ramificações.

Como os micélios funcionam e para quê servem?

Todo mundo aqui conhece a internet (afinal, convenhamos, estamos nela agorinha mesmo). Segundo micologistas como o célebre Paul Stamets, que estuda e trabalha com fungos há mais de quarenta anos, o micélio compartilha do mesmo tipo de rede. Ele é como a internet da floresta, e até faz as vezes de rede social:

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Fonte: Pinterest.

  • As árvores se comunicam através da rede de micélio, pois ela liga uma árvore à outra subterraneamente. Assim, a vegetação também usa o micélio para se alimentar, trocando nutrientes com a outra através desses filamentos.

Além disso, por causa deles, se descobriu que as árvores possuem um instinto de proteção bem parecido com uma mãe do reino animal. Plantas podem reconhecer seus “bebês” através de sinais enviados e recebidos pela rede de micélios, e, assim, protegem as mais fracas. Se elas sabem que existem pragas ao redor, por exemplo, aumentam o ambiente competitivo em direção aos seus bebês para que eles se regenerem mais longe.

Isso não seria possível sem os fungos — por isso, eles são um dos principais fatores para o desenvolvimento da biodiversidade. Sem eles, as florestas não sobreviveriam e prosperariam.

Em seu livro Mycelium Running, Stamets conta que o micélio se mantém em constante comunicação com o ambiente onde se encontra, desenvolvendo diversas respostas enzimáticas e químicas para qualquer desafio que apareça. Através dele, os fungos respondem a seu ambiente, procuram comida e se defendem. Eles resolvem problemas. E isso é inteligência.

De onde vêm os micélios?

Olha, não se sabe ao certo! Stamets conta que encontraram seres parecidos com micélios de fungos em sedimentos de lava na África do Sul com mais de 2,4 bilhões de anos. É o registro mais antigo de um organismo multicelular na Terra! Outro fóssil em sedimentos aqui do Brasil tem 113 milhões de anos e o formato perfeito de um cogumelo.

Acredita-se que nós, animais, nos separamos dos fungos há aproximadamente 650 milhões de anos. Enquanto os animais desenvolveram o estômago e a digestão interna, o micélio permaneceu no solo, digerindo seus nutrientes externamente. Quando as extinções em massa aconteceram, foram os fungos que herdaram a Terra. Os organismos que se uniram aos fungos sobreviveram.

Somos mais similares aos fungos do que a qualquer outro reino — o que significa que, de alguma forma, descendemos do micélio. O micélio é a mãe de todos nós.

Um micélio pode tecnicamente viver para sempre, desde que tenha alimento para continuar crescendo e prosperando. Por isso que o maior e mais antigo organismo da Terra é um fungo: ele vive no topo de uma montanha no Oregon, tem milhares de hectares e milhares de anos de idade!

Outras funções fascinantes dos micélios

O micélio é essencial no sequestro de carbono. 70% do carbono sequestrado pelos vegetais durante a fotossíntese vai parar embaixo do solo. Depois, os sistemas de raízes trocam esse carbono por nutrientes. O carbono acaba nas paredes celulares dos fungos, alimentando bactérias, ácaros e nematoides, que reciclam nutrientes através de seu processo alimentar. Por isso, os fungos são essenciais para equilibrar o carbono nos solos. Uma vez estabilizado, ele pode ficar lá por centenas, milhares de anos!

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Fonte: Pinterest.

Prevenção e cura de doenças. O que sabemos é que o micélio é uma membrana que aprende. São organismos autodidatas que funcionam em rede, que compartilham conhecimentos. Os micélios “se vacinam” contra patógenos e podemos nos aproveitar disso — pois muitas das bactérias patogênicas e mesmo vírus que atacam os fungos também podem afetar animais. Segundo Paul Stamets, já foram descobertas muitas moléculas novas ativas contra o vírus da varíola e até contra o HPV, e muitos cientistas estão explorando os fungos para encontrar um novo antibiótico, como a penicilina.

Além disso, eles podem ter um papel crucial na neuroplasticidade, ou seja, na capacidade de regeneração neural.

Biopesticida? Sim! Os fungos da classe entomopatogênicos, em sua fase de pré-esporulação, atraem os insetos. Eles têm o poder de controlar cerca de 200 mil espécies de indicadores naturais, protegendo diferentes plantações. Ele age assim: o micélio é consumido pelos bichinhos e os “mumifica”, transformando-os em cogumelos. Por isso, são uma forma bem sustentável de proteger colheitas!

Micélios quebram óleo e restauram ecossistemas. Em uma experiência, Stamets descobriu que os fungos quebram óleo e derivados do petróleo com mais facilidade que qualquer outro organismo. O micélio absorve o óleo e produz enzimas peroxidases, que quebram as ligações de carbono e hidrogênio. O mais interessante é que cogumelos nasceram e passaram a se alimentar do que era antes “lixo tóxico”; seus esporos atraíram insetos, que atraíram pássaros, formando um novo ecossistema.

Existem mil e uma utilidades para fungos — e você pode descobrir outras aqui, no nosso artigo que fala sobre como os cogumelos podem salvar o mundo!

Quem tem medo de cogumelos?

Os micélios, cogumelos e fungos em geral são incríveis — não é por menos que foram (e ainda são) celebrados em diversas culturas ao redor do mundo. Os povos mesoamericanos, por exemplo, tinham uma cultura referida por muitos historiadores como micófila. Os cogumelos mágicos eram usados como artigo religioso, espiritual e até mesmo divinatório pelos xamãs locais.

Ou seja: eles são muito mais importantes do que uma “droga de festa”.

Entre os anos 50 e 60, a psilocibina, substância responsável pelas viagens causadas pelos cogumelos alucinógenos, passou a ser estudada pela psiquiatria. Seus poderes eram visíveis e podiam ajudar muitos pacientes — principalmente os que lidavam com uma relação problemática com o álcool ou com síndromes como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Mas tudo isso foi por água abaixo nos anos 70, quando o ex-presidente estadunidense Richard Nixon declarou guerra às drogas e as substâncias passaram a ser o inimigo número um não apenas no país, mas na maior parte do mundo. Nixon inclusive chamou Timothy Leary, um dos principais pesquisadores do campo da experiência psicodélica, de “o homem mais perigoso da América”.

O movimento de marginalização dos principais psicodélicos é complexo. Ele se ligou a um movimento de contracultura, antiguerra e antissistema, onde muitas forças estavam em jogo. Então, um dos campos que mais sofreu foi justamente o da pesquisa médica com psicodélicos, que foi atingido por um clima irracional e anticientífico, e bombardeado de informações distorcidas — contra as quais lutamos até hoje.

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O especialista Bob Jesse, da área de psiquiatria e behaviorismo do Instituto Johns Hopkins, ressalta que quem já teve uma experiência com os cogumelos no proibicionismo se encontra preso em uma posição onde algo tão valioso, um grande presente, não é entendido pela cultura — e ainda coloca você e outras pessoas em risco de ser criminalizado. Isso é injusto não apenas com a substância, mas com todos os pacientes que poderiam se beneficiar a partir de seus efeitos.

Nós acreditamos nisso. Inclusive, se você também se interessa por essa face dos fungos, vale ler as últimas descobertas sobre os cogumelos mágicos por aqui!

Para finalizar, vamos deixar uma última palavrinha do nosso querido Stamets, que passamos a amar ainda mais depois de assistir (algumas várias vezes) Fungos Fantásticos:

“O cérebro, o micélio, a internet e a organização do universo compartilham do mesmo arquétipo. Eu acredito que a matéria gera vida, que a vida se torna células únicas, que as células formam cadeias, e que as cadeias formam ramos. As matrizes formam mosaicos de micélio, que se interligam e intersectam, e os organismos tipo micélio se movem, não só neste planeta, mas em outros planetas do futuro.”

Até a próxima!

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#PraTodosVerem: foto aérea de uma porção de cogumelos, de várias cores e formatos, em uma área vegetal. Fonte: Pinterest.

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