Maconha na TV: uso medicinal pauta tradicionais veículos de comunicação

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Era pouco mais de 10 da manhã quando o telefone fixo tocou. Não costumo atender, porque evito lidar com a insistência de atendentes de telemarketing, e quando o faço, fico uns segundos em silêncio para descobrir se há um humano ou uma máquina do outro lado da linha

Mas, quando ouvi um “ué”, de quem espera ouvir um “alô”, logo identifiquei a voz de meu avô, de 90 anos, que, às vezes, ainda tem o costume de bater papo pelo telefone. Porém, ao invés de falar sobre amenidades e sobre a vida, como sempre, ele tinha um objetivo claro: avisar sua neta, que escreve sobre maconha, que em breve o assunto seria discutido no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, ao qual ele assiste diariamente.

E, embora eu dissesse, com todo jeito, que já sabia e, inclusive, havia entrevistado o Filipe, que contou ao vivo a comovente história de seu pai precocemente diagnosticado com Alzheimer, minha familiaridade com o assunto não despertou nele tanto interesse quanto a expectativa de ver a Fátima Bernardes falando sobre isso.

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Pois bem.

Acompanhei o programa também, é claro, com a visão de quem respira esse tema, e pude notar o cuidado com o qual a apresentadora tentava controlar a conversa entre os convidados que, por estarem ao vivo, tocaram em pontos que provavelmente não estavam na pauta da experiente jornalista – como a importância da legalização do cultivo, os benefícios da planta inteira, não apenas dos compostos isolados, e de seus variados métodos de consumo, como a inalação, por exemplo, e a agenda proibicionista do atual governo.

E, se numa visão crítica, é fácil notar como ainda falta aprofundar o conhecimento e o debate na grande imprensa, que insiste em demonizar a “maconha recreativa” em detrimento da “cannabis medicinal”, na visão de Seu João, que cresceu com uma imagem estigmatizada sobre tudo que é relacionado à erva, ter acesso a este tema no programa matinal diário que ele acompanha é, sim, importante.

“Bom saber que você está no caminho certo”, ele me disse ao telefone, até com certo alívio, depois de saber que até a Fátima Bernardes está apoiando a causa.

Não é de hoje que a maconha entra e sai dos noticiários tradicionais – tal fluxo, inclusive, acompanha as movimentações sobre o assunto em outras esferas do país, como no Senado, na Câmara dos Deputados e na Anvisa, que recentemente deram continuidade aos processos sobre o uso medicinal da planta em suas respectivas jurisdições.

Ainda ontem, o Jornal Nacional deu espaço ao assunto em pauta que explicou sobre o pedido da procuradora Raquel Dodge em estipular prazo para a regulamentação da cannabis medicinal e ainda mostrou o trabalho da associação Abrace, única com autorização judicial para cultivo de cannabis no Brasil – com direito a nota-pé do apresentador, Rodrigo Bocardi, chamando os telespectadores para conferirem o podcast da jornalista da casa, Renata Lo Prete, sobre o tema, que você pode ouvir abaixo.

Por outro lado, a recente estreia de colunistas focados em cannabis (medicinal & negócios, claro!) em tradicionais veículos de comunicação, como Veja, Folha de S. Paulo e Época, é um sinal de que os jornalões e a grande imprensa tomou para si um discurso que, até então, era reservado aos poucos veículos especializados.

E, se por um lado, há a natural preocupação sobre como o discurso será apropriado, também consigo enxergar a situação como uma oportunidade de usar o gancho para abrir o diálogo com quem está fora da nossa bolha – a começar pelo meu avô.

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#PraCegoVer: Fotografia (de capa) mostra a apresentadora Fátima Bernardes entre Solange e Filipe, que contaram a história da família durante o programa. Ela segura uma camiseta do Curando Ivo, a mesma que mãe e filho vestem. Foto: Divulgação | GShow.

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