Maconha medicinal: ‘Precisei de um tumor na cabeça para vencer preconceito’

gizele cultivo Maconha medicinal: Precisei de um tumor na cabeça para vencer preconceito

Uma mulher de 61 anos precisou enfrentar o próprio preconceito e o da família para tratar um tumor no cérebro com óleo de maconha. E o que parecia impossível aconteceu: o tumor regrediu e permanece estável. As informações são do UOL

Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pode decidir hoje a regulamentação no Brasil para o registro de medicamentos à base de canabidiol, um componente presente na maconha. Há a expectativa também que o órgão decida regras para o plantio da erva com fins médicos.

A decisão pode mudar a vida de brasileiros que há anos travam uma cruzada para conseguir a substância, seja ela importada ou extraída de plantas cultivadas no próprio quintal. Hoje, cada paciente precisa pedir autorização à Anvisa para a importação das substâncias.

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“Médica não quis receitar canabidiol”

A dona de casa Neide Martins, 55, enfrentou preconceito de médicos quando decidiu pedir a uma especialista que receitasse canabidiol para o filho, Vitor, hoje com 7 anos. “Ela não quis receitar. Disse que não sabia o que poderia acontecer a ele daqui a dez anos”, disse a mãe ao UOL.

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#PraCegoVer: fotografia do pequeno Vitor, em meio perfil de costas, observando patos em um lago. Foto: arquivo pessoal.

Vitor foi adotado quando tinha 10 meses. Saudável, falou e andou precocemente. “Depois de quatro meses em casa, percebemos alguns espasmos”. Ela procurou um médico, “que disse que não era nada”, e foi a outro profissional que o diagnosticou com epilepsia refratária.

Com o tempo, as crises começaram a aumentar. “Só a quinta médica descobriu a Síndrome de West”, um tipo de epilepsia que deu origem a outra, a de Lennox-Gastaut. “Entramos com medicação tradicional, mas não adiantou. Ele foi perdendo a coordenação motora, a fala e chegou a ter 80 crises por dia. Eu estava perdendo meu filho”.

Foi quando ela ouviu falar do canabidiol e pediu à médica que o receitasse. “Ele estava tomando 18 comprimidos por dia. Caia tanto no chão que tem cicatrizes por toda a cabeça. Conseguimos um capacete apropriado e uma cadeira de rodas porque ele não conseguia mais ficar em pé. Vi meu filho regredir gradativamente. Ele já não engolia a comida, não esticava o braço, ficou em estado vegetativo. Entrei em depressão”, afirma Neide.

Neide, que era agente de viagem, abandonou o emprego para se dedicar exclusivamente ao filho. “Fui para o sexto médico. Pedi pelo amor de Deus: ‘ele já tomou de tudo, eu assino qualquer termo de responsabilidade’. E ele prescreveu canabidiol pela primeira vez em fevereiro de 2016”.

Os resultados não apareceram tão rápido.

“Quem fazia uso do remédio resolvia o problema em um, dois meses, mas o Vitor não melhorava”, relata. “Não desisti. Com sete meses de uso, a gente conseguiu achar a dosagem e controlar a Lennox. Ele já não caía e pudemos tirar o capacete.”

“No ano seguinte, a West começou a diminuir. As convulsões caíram para três ao mês. Aos poucos, ele saiu do estado vegetativo e começou a andar e voltou a falar. Este ano ele dançou a festa junina pela primeira vez. Eu chorei como uma louca.”

No final do ano passado, a melhor das notícias: um eletroencefalograma indicou que a síndrome West estava contida. “Quase caí da cadeira, nem a médica acreditou. O Vitor não vai deixar de ser epilético, mas será esporádico, com intensidade cada vez menor”, conta a mãe.

Neide gasta em média 3.000 dólares, fora o frete, para importar os 12 frascos de 19 ml de óleo que o garoto precisa consumir todo ano, um valor que chega R$ 12,6 mil em valores de hoje. “A gente tinha um carro bom, mas vendemos para ter o dinheiro para o tratamento.”

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#PraCegoVer: fotografia em primeiro plano de Vitor, em perfil, no colo de sua mãe e usando capacete. Foto: arquivo pessoal.

“Planto em casa e faço meu remédio”

A dona de casa Gizele Thame, 61, precisou enfrentar o preconceito próprio e o da família quando decidiu tratar um tumor no cérebro usando óleo à base de maconha. “Eu tenho um tumor ao lado da hipófase, responsável pelos hormônios do corpo. Se eu operasse, poderia ficar cega, mas sem tratamento o tumor poderia crescer até estourar.”

“Como estava perto do nervo óptico, eu poderia ficar cega e dependeria de 21 remédios após a cirurgia. Preferi não operar, contra tudo e contra todos. Só um filho meu me apoiou”, conta Gizele, que também resistiu a se tratar com o óleo da maconha.

“Eu tinha um preconceito muito grande. Para mim não havia diferença entre maconha e cocaína. Pensava que quem usa é drogado. Demorei oito meses até aceitar, me informar, conseguir médico e autorização da Anvisa.”

Sem dinheiro para importar o remédio, Gizele decidiu plantar em casa por conta e, com os exames em punho, foi à Justiça acompanhada de um advogado a fim de conseguir um Habeas Corpus que lhe permitisse cultivar. “Se alguém viesse aqui em casa, eu mostraria meus exames e o Habeas Corpus. Mesmo assim, eu poderia ser detida até conseguir o Habeas Corpus definitivo.”

O documento chegou oito meses depois. “Ninguém pode me prender agora porque eu posso plantar 30 pés, mas apenas cinco em floração. Também posso portar até 180 ml do óleo”.

Vencendo o preconceito

Gizele demorou oito meses para aceitar o tratamento e ainda mais tempo para contar aos amigos e familiares. “No começo eu não falava para ninguém, era segredo. Aos poucos fui contando aos mais próximos. Uma grande amiga me disse que, se não gostasse tanto de mim, não aceitaria meu tratamento”.

“Eu achava que não contar era me poupar, mas percebi que se me expusesse, ajudaria muita gente. Meu preconceito era forte, e por isso eu entendo quem não aprova. Eu precisei de um tumor na cabeça para enfrentar o preconceito. Eu ainda sou contra fumar maconha: é fumaça para o pulmão, faz mal à saúde.”

Ela conta que a planta demora quatro meses para crescer e florescer. Ela colhe, deixa a planta secando de ponta cabeça por uma semana e então extrai o óleo. “Limpa, põe no forno para ficar bem seca. Aí põe em uma sacola com gelo seco, que serve de peneira. Eu misturo em um diluente a parte que cai peneirada. Depois coloco em uma panela e deixo cozinhando por quatro horas. Esse óleo é o que eu uso”.

Gizele afirma que, em dois meses de uso, os sintomas eram outros. “A insônia e o estresse acabaram e a qualidade do sono é excelente”, diz. E o que parecia impossível, aconteceu: “Depois de um ano e meio, o tumor regrediu de 1,2 centímetro para 0,7 e se mantém assim há um ano e meio”.

Leia: Mulher cura câncer terminal no cérebro com óleo de maconha

Justiça autoriza 4 a cada 5 pedidos para plantar

A decisão de hoje da Anvisa pode facilitar a importação do remédio ou mesmo regulamentar a fabricação em solo nacional. Hoje há 14 mil pedidos em andamento na Anvisa para importar o medicamento, com 12,5 mil solicitações já aprovadas.

Cerca de 56% dos pacientes que já tiveram acesso ao medicamento pediram autorização de renovação, uma vez que o aval dado pela agência vence em 12 meses em um processo que dura, em média, três meses.

A Anvisa também deve se posicionar sobre o plantio de maconha no Brasil para uso medicinal. De acordo com levantamento da Rede Reforma (Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas), a cada cinco pedidos feitos à Justiça para plantar maconha para esse fim, quatro recebem aprovação.

Entre novembro de 2016 e novembro deste ano, o judiciário contabilizou 64 pedidos de Habeas Corpus e 51 concessões, 16 apenas em São Paulo.

Advogado da Comissão de Direito Médico e de Saúde da OAB-SP, Leonardo Sobral Navarro diz que “as demandas judiciais ganharam força e acabam sendo o meio mais rápido para iniciar o tratamento”, ainda caro. “Existe apenas um produto registrado no Brasil, o Mevatyl, que custa aproximadamente R$ 2.800”.

Ele diz que “será inevitável o aumento desse tipo de demanda” com a popularização do tema. “O Estado não pode mais ficar inerte. A cannabis medicinal é uma realidade e precisa ser regulada”, defende. “Hoje, resta ao doente demandar contra o Estado para que tenha o fornecimento do remédio ou para que realize o cultivo medicinal”.

#PraCegoVer: fotografia (de capa) em plano fechado de Gizele Thame (parte esquerda da imagem), com um sorriso aberto, e, ao fundo, um cultivo com vários pés de maconha, sob uma estrutura aredondada de tela. Foto: arquivo pessoal.

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