“Maconha medicinal ou canabidiol medicinal: você defende a causa certa?”

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Atitude que reflete o quão atrasado está o Brasil em questões como a garantia de direitos fundamentais é a disseminação de informações falsas sobre a maconha e seus benefícios medicinais

Em artigo publicado num blog da Veja Rio, intitulado “Maconha medicinal ou canabidiol medicinal: você defende a causa certa?”, a psicóloga Elizabeth Carneiro contou algumas mentiras e sofismas em relação à cannabis e suas propriedades medicinais.

O discurso falacioso começa quando o texto faz uma ligação da cannabis a uma “força de paralisação” ou “efeito letárgico”. Existem inúmeros relatos de atletas de várias modalidades sobre os benefícios da planta como alívio de dores, recuperação muscular, efeito anti-inflamatório e até mesmo como pré-treino, auxiliando na concentração, por exemplo.

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Estudo realizado com estadunidenses idosos revelou que os consumidores de cannabis tenderam a fazer mais exercícios formais e se envolver em mais atividades físicas do que os não consumidores durante o período de quatro meses do experimento. Veja, a seguir, outros casos e estudos que derrubam a tese da psicóloga:

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A psicóloga também diz que, “pela conveniência psíquica da ignorância”, poucos acreditam que a maconha seja capaz de causar “síndrome amotivacional”, que seria “uma ‘falta de apetite’ pela vida, com menor produtividade”. Uma afirmação que também não condiz com a realidade. Em 2016, uma reportagem da CNN falou sobre empresas nos EUA que permitem e até incentivam o uso de cannabis durante o expediente, levando em conta que a erva ajuda os colaboradores a cumprir suas tarefas.

Um estudo recente realizado nos EUA mostra que o uso de cannabis após o horário de trabalho não tem relação com impactos negativos no desempenho dos funcionários, podendo ainda oferecer alguns benefícios, como a restauração da energia gasta durante o dia através do relaxamento induzido pela erva.

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Uso de cannabis após expediente não tem impacto no desempenho do trabalho, diz estudo

O texto também menciona que o uso de maconha aumenta em oito vezes a chance de uma pessoa desenvolver um surto psicótico. Na realidade, a pesquisa existente até o momento aponta para uma relação estatística entre a ocorrência de psicose e o uso pesado de cannabis.

A epidemiologista britânica Suzanne Gage publicou um artigo na revista The Lancet, onde se demonstra que esquizofrênicos crônicos e pessoas que sofrem surtos de psicose têm mais chances de serem usuárias crônicas e pesadas de cannabis de alta potência. Contudo, o estudo revelou que pessoas sujeitas a ter surtos psicóticos ou desenvolver esquizofrenia buscam a cannabis mais do que a média da população, sem encontrar indícios de que a planta cause esquizofrenia.

Leia mais: Há uma associação estatística entre uso de maconha de alta potência e crises psicóticas

Outro trecho falacioso no texto da psicóloga diz que: “quanto mais disponível e aceitável socialmente é uma substância, mais chances de ela circular e aumentar o número de dependentes pelo simples fato de tornar-se lícita. Hoje a maconha é a droga ilícita mais consumida do mundo. Imagine se for legalizada”.

Os dados e pesquisas realizadas em lugares onde o uso adulto da cannabis foi regulamentado mostram que o consumo não aumentou após a legalização, como pode ser visto nos links a seguir:

Legalização não aumentou consumo de maconha no Uruguai

Maconha legal no Uruguai não aumentou o consumo, mostra estudo
Consumo de maconha caiu entre jovens canadenses após legalização
Consumo juvenil de maconha no Colorado (EUA) não mudou expressivamente após legalização

A psicóloga mente ao dizer que os benefícios medicinais no tratamento de doenças, como Parkinson, autismo e Alzheimer, são devidos somente ao canabidiol (CBD) e não à cannabis como um todo, incluindo o tetraidrocanabinol (THC) e outros canabinoides. Confira, abaixo, alguns dos estudos que demonstram os efeitos terapêuticos da cannabis além do canabidiol:

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THC: Componente ativo da maconha é capaz de acabar com células tumorais
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O artigo da psicóloga Elizabeth Carneiro é um desserviço para a saúde pública e para o avanço da regulamentação da cannabis no país. É lamentável ler manifestações como essa, que servem apenas para desinformar a população e alimentar o tabu que ainda existe sobre o tema. Uma atitude que reflete o quão atrasado está o Brasil no âmbito da política de drogas e na garantia de direitos fundamentais, enquanto outras regiões pelo mundo usufruem dos benefícios medicinais e econômicos proporcionados pela regulação da maconha.

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