“Maconha invisível” e o sensacionalismo midiático da guerra às drogas

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K1, K2, K3, K4, spice NÃO é maconha, não se deixe enganar por veículos de comunicação sensacionalistas que não se comprometem com a qualidade da informação

Nesse último domingo (14), o programa Domingo Espetacular, da Record TV, exibiu uma matéria desinformativa sobre a droga K4, denominando-a como “maconha invisível”.

A matéria sensacionalista exibida no programa dominical diz que a “nova droga” é um “tipo de maconha”, quando na realidade a substância, que de maconha não tem absolutamente nada, é uma droga sintética desenvolvida no ano de 1994 por John W. Huffman, professor pesquisador de Química Orgânica na Universidade de Clemson, na Carolina do Sul (EUA), em uma pesquisa financiada pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA que visava estudar a relação estrutura-atividade dos receptores canabinoides. Em um esforço para determinar como moléculas estruturalmente diversas do THC (tetraidrocanabinol) poderiam se encaixar no mesmo receptor, Huffman sintetizou o composto JWH-018.

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Os primeiros registros na internet sobre a comercialização da droga são de meados de 2006, sob o nome de “spice”. No início de 2010, o Centro Médico da Universidade de Saint Louis informava sobre adolescentes que estavam tendo alucinações, frequência cardíaca e pressão arterial elevadas, vômitos e, em alguns casos, tremores e convulsões, em razão de terem usado uma substância conhecida como K2 ou “fake weed” (erva falsa).

Em entrevista ao ABC News, em março de 2010, Huffman disse que seu laboratório havia sintetizado 463 compostos e o encontrado na spice (JWH-018) não era o mais potente.

K2, spice ou maconha sintética: conheça os riscos dessa droga e fuja dela

 

 

 

O nome K4, atualmente usado pela polícia, como foi relatado pela desastrosa matéria da Record, também não é uma novidade. Em 2010, o termo já era utilizado por pesquisadores do estado da Pensilvânia, nos EUA, bem como K1, K3, K20, pep spice, voo doo remix, C4, em estudo para identificar os canabinoides sintéticos presentes em incensos vendidos no país como droga recreativa.

A pesquisa encontrou diversos canabinoides sintéticos, além do JWH-018, e ainda drogas não canabinoides nos produtos analisados, um efeito colateral da política de proibição que sujeita os consumidores a substâncias desconhecidas, sem nenhum controle de qualidade.

Em 2015, o estudo Global Drug Survey detectou pela primeira vez a K2/spice sendo consumida no Brasil, segundo divulgou a Folha de S.Paulo na época.

Para Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e pesquisador da Unifesp, a droga surgiu por conta da proibição das drogas. “Toda medida proibicionista leva a novas modalidades de uso das drogas, muitas vezes mais perigosas”, afirma.

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O desserviço de informação de veículos sensacionalistas

A política de repressão às drogas nunca trouxe benefícios para a sociedade em lugar nenhum do mundo onde ocorreu e seus efeitos catastróficos são nítidos: explosão da população carcerária, proliferação de novas substâncias mais potentes e perigosas, oneração demasiadas dos cofres públicos com o sistema de justiça, entre outras mazelas sociais.

O que pode agravar ainda mais esse quadro de proibição é o desserviço de informação, que em nada contribui para o debate da descriminalização e evolução da política de drogas e ainda promove a desinformação do público, como vimos na matéria veiculada pela Record no último domingo, onde a droga K4 foi chamada de “maconha invisível”.

A droga sintética que vem driblando a segurança carcerária não é um “tipo de maconha” ou “maconha invisível”, como foi falado no programa Domingo Espetacular, mas sim uma mistura de substâncias químicas pulverizada em papel ou qualquer outro material.

K1, K2, K3, K4, spice, spike, black mamba, entre outros inúmeros nomes atribuídos à droga, NÃO é maconha, não se deixe enganar por veículos de comunicação sensacionalistas que não se comprometem com a qualidade da informação.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, esta droga (K1, K2, K3, K4, spice, spike, black mamba) pode causar náuseas, ansiedade, paranoia, inchaço do cérebro, convulsões, alucinações, comportamento agressivo, palpitações cardíacas, dores no peito e, em alguns casos, risco de vida.

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#PraCegoVer: foto de uma mão que, com luva cirúrgica, borrifa com um frasco spray, de válvula azul-claro, em um papel branco, que aparece parcialmente no canto inferior esquerdo da imagem, e um fundo escuro.

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