Maconha e Fake News: notícias que quase se tornaram verdades em 2019

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Vivemos uma era de Fake News acompanhadas de histerismos, onde mentiras que saem das bocas, notas e tweets de políticos e influenciadores são pregadas como verdades supremas. Na busca da real versão dos fatos, combatemos, em 2019, várias Fake News que por um triz não se tornaram verdades na boca dos desinformados

Para uns pode parecer brincadeira ou estratégia propagar notícias falsas, ainda mais que no Brasil não há uma legislação específica para punir quem produz e compartilha notícias falaciosas ou sem embasamento (as chamadas Fake News). Mas, isso não quer dizer que quem não checa a veracidade das informações compartilhadas está livre de ser responsabilizado.

Existem instrumentos legais para acionar quem produz e divulga Fake News nas justiças civil e criminal. O mais “comum” é acionar a justiça civil e solicitar que o conteúdo seja retirado do ar pelo provedor por meio de autorização judicial, como elenca o Marco Civil da Internet, no artigo 19, prevendo que:

“Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário.”

A propagação das Fake News, igualmente o seu combate, ultrapassou a linha eleitoral de uma sala de imprensa. A tática, também usada entre candidatos a cargos no governo, se propaga com celeridade a outros motes de discussão com grande repercussão no Brasil, como a maconha.

Se hoje o universo científico e canábico consideram os professores Raphael Mechoulam, de Israel, ou o brasileiro Elisaldo Carlini como pais da cannabis medicinal, podemos considerar que dentro do atual governo do mito minto, o ministro Osmar Terra é o pai da mentira sobre maconha e outras drogas.

E como um de nossos objetivos é desmistificar décadas de falácias sobre a maconha, listamos abaixo uma seleção de artigos em que nem sempre o que é falado ou publicado é verdade e, por isso, deve ser verificado.

Quase que cabalisticamente, a primeira Fake News que elencamos brotou no dia da mentira, 1º de abril, quando o governo tentou esconder o Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição ligada ao Ministério da Saúde, que revela que não há uma epidemia de crack, maconha ou outra droga ilícita, mas sim de álcool.

Guerra à informação: Governo esconde levantamento nacional sobre o uso de drogas

Pode parecer perseguição quando falamos que o ministro Osmar Terra é o pai da mentira quando o assunto é maconha. Inimigo declarado do uso da cannabis, Terra realiza uma intensa campanha de desinformação, mentira e pânico, com o objetivo de defender seu posicionamento pessoal proibicionista e do governo.

No lançamento da campanha nacional de prevenção ao uso de drogas, em junho deste ano, Terra disse que “a epidemia de drogas vem acompanhada de uma epidemia de violência. Estamos em uma situação grave, violenta e em que o único caminho que temos para enfrentar isso, além da repressão da violência, é fazer com que diminua o consumo de drogas e a quantidade de drogas na rua para a nossa juventude”. Os meios para a repressão ao consumo, na visão do ministro, são ações como a internação involuntária de dependentes químicos.

Cinco discursos equivocados de Osmar Terra que reforçam o proibicionismo

Em agosto, em entrevista concedida à revista Veja, o ministro defendeu a sua tese de que há uma “epidemia de drogas” no Brasil, referindo-se a estudos realizados através de uma epidemiologia de esgoto, que tenta quantificar o consumo de drogas analisando os esgotos das cidades. Segundo Osmar Terra, esse estudo descobriu que em Brasília se consome entre 8 e 10 toneladas de cocaína por ano. MENTIRA!

Em 2012, a UnB divulgou o resultado de amostras em oito estações de tratamento de esgoto em Brasília, e concluiu que, por ano, se consumia 753 kg de cocaína no Distrito Federal. A revista “Perícia Federal”, produzida pela Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APFC), na sua edição 42, publicada em dezembro de 2018, também realizou uma análise de amostra de esgoto em Brasília, chegando à conclusão que o consumo estimado de cocaína no Distrito Federal é cerca de 2000 miligramas por dia, chegando a 3,8 toneladas por ano. Portanto, os estudos da UnB e a da Polícia Federal mostram um consumo de cocaína inferior àquele que foi dito pelo ministro.

Como o ministro Osmar Terra difunde mentiras e pânico social sobre a maconha

MENTIRAS E NEGAÇÕES

Ledo engano de quem acredita que esta condição patológica, a mitomania, é exclusividade de Terra. Como é habitual nas sessões que debatem a cannabis no Congresso Nacional, as mentiras também estiveram presentes durante as reuniões deliberativas em algumas comissões do Senado, como as falas do senador Eduardo Girão (PODEMOS-CE) que caiu em negação e mentiras, ao não reconhecer os efeitos terapêuticos do THC, para sustentar suas críticas à proposta de regulamentação da cannabis.

Segundo o senador Girão, “o discurso que promove a maconha medicinal não se sustenta, pois não existem estudos conclusivos para comprovar que a cannabis, nas suas diversas formas, óleo, fumada, inalada, venha proporcionar efeitos medicinais definitivos”.

Pouco satisfeito com sua defesa contrária sem sustentação, argumentou ainda que o plantio de maconha no Brasil pode trazer “graves implicações ambientais, que o cultivo em larga escala da maconha ou cânhamo acarretaria num aumento considerável de herbicidas, fungicidas e nutrientes usados para enriquecer o solo das plantações e protegê-las das pragas”. Dizendo ainda que são plantas que consomem água e energia de forma excessiva e que provocariam a “liberação de dióxido de carbono na atmosfera, sendo alarmantes os impactos na fauna e flora”.

Emoções, mentiras e negações: assim se debate a maconha no Senado

Outro político com diagnóstico precoce de mitomania é o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que esteve presente na “Marcha da Família Contra as Drogas”, onde alegou que Farcs, Foro de São Paulo e partidos de esquerda como o PT lucrariam com a liberação das drogas. Mas, o que o deputado quer mesmo esconder é que a proibição é uma política interessante para a Milícia.

Eduardo Bolsonaro diz que liberação das drogas beneficia o PT, na verdade proibição favorece Milícia

POR FALTA DE VERIFICAÇÃO?

Felizmente, hoje as notícias correm na velocidade da luz, e para quem é profissional do ramo ou influenciador digital é mega importante a checagem, mesmo que a publicação atrase ou faça perder o furo de reportagem. E uma falta de verificação foi o que levou o colunista do jornal carioca O Dia a lançar a informação de que a atriz Cláudia Rodrigues, que passou mal em um evento em Salvador, tinha sido transferida para o hospital Albert Einstein devido ao tratamento à base de maconha, que acabou sendo desmentindo pela empresária da atriz, que solicitou retratação publica de Léo Dias.

Tratamento de Cláudia Rodrigues não é à base de maconha

SONHOS DE FAKE NEWS

Claro que, para quem defende uma regulamentação em que toda a sociedade brasileira usufrua dos benefícios alimentício, industrial, social e terapêutico da maconha, quanto mais notícias positivas sobre a planta melhor, mas, em nome da verdade, fica a frustração de desmentir notícias que muito bem poderiam ser verdadeiras.

A primeira delas envolve o vice-presidente. Apesar da cannabis ter suas influências na libido, a notícia de que Mourão defende o uso de maconha para potencializar a libido é uma das Fake News desmentidas neste ano.

Defesa de Mourão no uso da maconha para potencializar libido durante sexo é FAKE

Tal como a anterior, foi revoltante cortarmos a brisa de várias pessoas, influenciadores e veículos de mídia quando lançamos o artigo que mostra a verdade sobre a gigante LEGO, empresa dinamarquesa que faz a cabeça de milhões de crianças mundo afora desde 1932, quando foi noticiado que a mesma teria o plano de usar bioplástico de cânhamo como matéria-prima de seus produtos até 2030, dentro de um projeto de sustentabilidade desenvolvido pela marca: o que não passou de uma sonhada Fake News.

Desejadas ou não, enquanto forem notícias falsas, continuaremos combatendo, afinal, não queremos uma sociedade portadora de mitomania. Será que há tratamento à base de cannabis para esta condição?

LEGO feito com bioplástico de cânhamo? Nem em 2030!

#PraCegoVer: em destaque, imagem em preto e branco que mostra um pôster do Reefer Madness, um filme de propaganda proibicionista estadunidense de 1936 montado para exibição nas escolas contra o uso da maconha, onde pode-se ver dois casais fumando e frases como “The burning weed with it’s roots in hell” (A erva queima com suas raízes no inferno, em tradução livre).

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.
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