Luiz Caldas revela que usa maconha e critica quem condena a planta

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Indicado ao Grammy, precursor do axé music fala sobre sua trajetória, da mudança do visual e dos benefícios da cannabis em sua vida: “É uma planta, não considero droga”. As informações são d’O Globo

Você se lembra desses cabelos? Eles continuam os mesmos, mas os pés, quanta diferença… Lá se vão mais de 30 anos desde que cantor e compositor baiano Luiz Caldas surgiu descalço, brinco de pena na orelha, cantando “Fricote”, canção que ficou conhecida como marco zero do axé music.

— Sou igual ao super-homem: se não estiver descalço, ninguém me reconhece — brinca o autor de hits como “Ajayô” e “O beijo”, que passou a infância arrancando os calçados que a mãe lhe colocava.

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Certa vez, no auge de seu sucesso (estima-se que só nos anos 1980 tenha vendido cerca de três milhões de cópias de discos), embarcou sem sapatos rumo a shows agendados no inverno nova-iorquino. Quase congelou.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Hoje, aos 58 anos, o pai do axé prefere vestir botas, pintar as unhas de preto e parou de cantar seu maior hit, que caiu em desgraça por causa do refrão (“nega do cabelo duro / que não gosta de pentear”), considerado racista por muitos.

Pai de três filhos e casado há 45 anos, o artista, que se tornou multi-instrumentista tocando em conjuntos de bailes dos 7 aos 16 anos (“saí da casa dos meus pais com 7 anos para morar nas sedes das orquestras, com que rodei a Bahia inteira fazendo shows”, conta), prepara uma ópera com o maestro Carlos Prazeres, da Orquestra Sinfônica da Bahia (“Luiz Caldas é um gênio musical”, define Prazeres), e está indicado ao Grammy Latino 2021 com o álbum “Sambadeiras”. Também dá seguimento ao projeto que começou em 2013 de lançar um disco por mês. Já são 116 álbuns (com parceiros como Seu Jorge, Zeca Baleiro, Sandra de Sá, Gilberto Gil, Chico Cesar, entre outros), de gêneros que vão do metal ao afro, passando pela salsa, pop e sertanejo, e somam mais de mil músicas.

No próximo dia 29, ele lança “Playlist brasileira 1” (pela gravadora Deck), álbum de regravações de algumas de suas canções favoritas (compostas por outros atores) como “Deslizes”, “A força do amor”, “Caçador de mim”, “A lua e eu”, entre outras. Tudo começou no início da quarentena quando, sem poder fazer shows, passou a postar vídeos tocando canções. Daí, surgiu o convite para que gravasse um disco de voz e violão com uma seleção afetiva de canções.

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Capa do novo disco de Luiz Caldas, composto por uma seleção de algumas de suas músicas preferidas. Foto: reprodução.

Além do seu gosto, quais outros critérios nortearam a escolha das canções que compõem o novo disco?

Desliguei o senso crítico de quem trabalha com música e senti o que a canção provoca. Você pode fazer uma música de mil acordes e não despertar nada em ninguém. E outra com um acorde só, como é o caso de “Sossego”, do Tim Maia, toda em dó maior, que não deixa ninguém parado.

Respeito a original, mas dou a minha cara. Canto muito grave, basicamente nenhuma está no tom original. Venho do baile e nesses shows a gente tinha que copiar de Stevie Wonder a Martinho da Vila. Isso moldou minha forma de tratar com a música, não tenho preconceito musical e consigo diferenciar o caça-níquel do que é feito com feito emoção.

Mas não foi fácil para você fazer com que suas músicas fossem ouvidas no início da sua carreira…

Ralei muito. Eu colava cartazes na rua, pegava cada pedaço do som emprestado porque não tinha estrutura de show na Bahia. Me apresentava num palco que ficava em cima de dois cavaletes em um circo. Comecei a gravar e lutava para colocar as músicas na rádio. Eram os anos 1980 e o Brasil escutava música do Rio São Paulo, americana ou europeia. Música nordestina, regional, não tinha vez.

Eu mudei isso. Já que queriam música americana, fiz uma versão de “Mrs Robinson”, do Paul Simon, com tempero baiano. Começou a tocar nas rádios, e as pessoas passaram a ligar para pedir. Sabe aquela fila no orelhão que aparece no filme do Zezé Di Camargo? Aconteceu comigo! Em menos de um mês eu estava no primeiro lugar.

Isso depois de ter escutado muitos nãos de gravadoras…

Nessa época, em 1982, fundei o Bloco Beijo, fiz uma música e lancei meu primeiro compacto com o nome de Luiz Caldas e Acordes Verdes. Fui até o Rio com o disco embaixo do braço, batendo de porta em porta. Um famoso diretor de gravadora me disse: “Mais um baiano aqui, não”. Aí voltei e fui fazer sucesso na minha terra. Pensei: “Vão ter que ir atrás de mim”. Ou seja, aquilo me serviu como um impulso.

Sempre tive certeza do meu caminho. Quando lancei o disco “Magia”, que tinha “Fricote”, ganhei disco de ouro na Bahia, e as gravadoras ficaram loucas para ter um contrato comigo. Aí, o Roberto Santana, produtor responsável pelo tropicalismo, Bethânia, Fafá de Belém, me levou para a Polygram, para o Rio. Aí foi “Fantástico”, “Chacrinha”…

Você mudou um pouco o seu visual. Aquela coisa mais tropical, os pés descalços, deu lugar a um estilo mais sóbrio, até com referências metaleiras, unhas pretas, coturno. Resolveu ficar mais discreto?  E como cuida do seu cabelo?

Nando Souza cuida do meu cabelo há 30 anos. Ele é meio cientista e sempre cria coisas interessantes. Agora, criou uma escova gelada que trata onde está quebradinho. Tenho orgulho de ser cobaia dele, sempre dá certo.

Sou de usar o que me dá vontade. Se quiser usar saia, uso. Ninguém permanece igual, tudo muda. Lembra que nos anos 1980 tinha aquela ombreira que não passava na porta, à la Renato Aragão? As pessoas achavam bonito. Tudo tem sua beleza, dependendo da época. Uma pessoa velha vai ser bonita se ela se portar com a idade dela, a beleza está no que você é e representa no momento.

Sofreu preconceito por causa do seu estilo andrógino na época?

Sim. Muita gente falava que eu era gay. Eu dava risada, não tinha nada contra. Sempre houve essa coisa de o ser humano achar que por que faz parte da maioria é um modelo e o outro, que é diferente, não é. Rio dessa ignorância.

Mas acho que a sociedade era até menos careta naquela época. A gente estava saindo de uma ditadura, vinha um colorido, a liberdade em poder falar algumas palavras. Eu ainda sofri um “prego”, minha música “Bervely hills” foi censurada. Fiquei puto. E foi uma música só, imagina um Chico, um Gil, um Caetano…

Sofri um “prego”, mas muitas pessoas sofrem não só esse tipo de arbitrariedade como na pele mesmo. Não canto mais “Fricote” em show. Por que a letra era daquela forma e, naquele momento, as pessoas curtiam. Mas as coisas mudam. Eu não quero ofender. O Mussum não existiria hoje. É aquela coisa de você respeitar a sociedade se quer fazer parte dela.

Como se sentiu quando “Fricote” passou a ser considerada racista por algumas pessoas, a partir de 2015?

Quem fez essa música virar sucesso foi o povo da Bahia, cuja maior parte é negra. Ofereço esse disco, está escrito lá, aos meus pais, minha cunhada e aos negros da Bahia. Se eu tivesse o intuito de sacanear… Inclusive meu parceiro de composição, Paulinho Camafeu, é negro. Como se explica isso? Existem várias músicas que falam desse universo e não cabem hoje. Se quer viver bem em uma sociedade é preciso respeitar as regras. Admiro essa geração que está colocando muitas coisas no eixo.

Hoje, não canto “Fricote”, acho desnecessário. Se tivesse só um sucesso, como muitos artistas, teria que cantá-la até morrer para me sustentar  e sustentar minha família. Mas tenho muitos, são mais de 1.000 só desse novo projeto.

Acho que “Fricote” cumpriu o papel dela, de ser o elo com essa corrente toda que chama axé music e que não é bem um estilo musical como samba, o rock, mas uma forma de fazer música, que faz um convênio com todos os estilos.

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Luiz Caldas está indicado ao Grammy Latino com disco de sambas do Recôncavo e prepara uma ópera. Foto: André Fofano / Divulgação.

Mas quando surgiu essa polêmica, você disse que era preciso contextualizar e questionou: “Vamos parar de cantar ‘Cabeleira do Zezé?’”, disse. Muitos blocos do Rio pararam mesmo de cantá-la. Como enxerga a onda revisionista em cima de canções do passado?

Enxergo como um retrocesso, porque não se pode apagar a história. É tipo cancelar na internet. Não dá para deletar a história. O que  agente pode é seguir em frente não cometendo os mesmos erros. Mas elas nos ajudam a entender as coisas. É o movimento da vida.

Se não dá para cantá-las e é um retrocesso apagá-las da história, qual é o lugar dessas músicas?

Além do saudosismo, elas vão ficar na história como exemplos de coisas que aconteceram. Não se pode falar de axé music, de Banda Eva, de Ivete Sangalo sem falar de “Fricote”. Só existem eles por que existiu ela. Mas não há necessidade de cantá-la. Já que as coisas estão mudando, vamos em frente. Mas não vou apagar o que fiz, tenho o maior orgulho dela, mas posso me dar ao luxo de não cantá-la em público.

Mas você cantou no Globo de Ouro em homenagem ao axé em 2015…

A Flora (Gil, que assinava a produção do programa) veio aqui em casa com o Gil, e eu disse que faria o  programa, mas não cantaria “Fricote”. Aí, Gil falou: “Mas aí você vai fazer o programa ficar capenga, sem história. A música é sua, um grande sucesso, aconteceu e não tem nada demais. Cante”. Era o Gil pedindo, um cara negro. Se ele não viu nenhum problema de eu cantar…

Você ficou conhecido mais pelo axé, pouca gente sabe que você é um competente multi-instrumentista, que o violão clássico é seu principal instrumento. Se ressente de ter ficado restrito a um nicho? Como avalia a sua trajetória?

Como a melhor coisa que fiz na vida, porque, enquanto muitos artistas fazem a mesma coisa e não têm como surpreender, eu tenho muitas cartas guardadas na manga, instrumentos que as pessoas nem sabem que eu toco. Naquele momento em que eu estava aparecendo, nos anos 1980, todo mundo tinha muito estilo, Magal era um cara único, Legião tinha um rock diferente do Capital, dos Titãs, era um caldeirão maravilhoso. Todo mundo chutando o balde após a ditadura, as latas (de maconha) chegando pelo mar (em 1987, no que ficou conhecido como “Verão da lata”), eu precisava ter uma coisa que fosse minha, daí nasceu o axé music.

Eu podia chegar com uma guitarra no pescoço, mas me tiraria a movimentação corporal, e eu estava apresentando uma música de dança forte, para as pessoas pularem. Não era o momento para virtuosismo. Acho que essa coisa de não ter um ego muito agigantado por ser multi-instrumentista acabou me ajudando a construir minha carreira e, de quebra, a modificar o carnaval de Salvador.

Por que existe o carnaval de Salvador antes e depois de Moraes (Moreira) e também antes e depois de Luiz Caldas. Abri um mercado, um leque para toda uma cadeia de profissionais daqui. Foi meu disco de ouro que fez isso. Minha faixa de venda de disco era de 600 mil.

E como descobriu, inventou o axé music?

Você não descobre, só quer fazer algo diferente. A ideia era me diferenciar do que estava rolando. Sou guitarrista e venho de uma terra de grandes monstros do instrumento. Armandinho, Pepeu, Luiz Brasil… Fiquei sendo um cara único.

O axé music nasce de uma matéria do jornalista Hagamenon Brito, que era roqueiro e, assim como todos eles, tinha verdadeira aversão ao axé. Numa matéria, ele disse sobre mim: “Lá vem o Michael Jackson tupiniquim com seu axé music”. Foi daí para o mundo.

O que mais em você acha que ainda surpreende o público?

O disco indicado ao Grammy, por exemplo. Muita gente jamais iria imaginar que eu fosse indicado num estilo de música tão peculiar, que é a o do Recôncavo. Não é qualquer um que faz, tem que ter um estudo, respeito às formas de tocar. O mestre Roberto Mendes diz que violão de chula não é dedilhado, é pinicado. Isso faz toda a diferença, porque transforma um instrumento harmônico em percussão.

Muita gente não sabe que toco violão nesse estilo, porque é como pegar um violino e tirar som de trompete. Fiz um estudo grande sobre a parte literária, a história. Isso é uma surpresa grande para quem não acompanha. Muita gente não mergulha nas coisas, não tem informação. Olha e fala “ah, é aquele cara da nega do cabelo duro”. Aí, passa na internet, me vê tocando um clássico e a cabeça buga.

Acha que tem seu valor reconhecido ou que é um gênio incompreendido?

Acho que tenho. Sou um cara que está na história da música brasileira. Com toda a humildade, eu sou Luiz Caldas. As pessoas conhecem. Muito gostam, outros desgostam, mas existo. E o melhor é que ainda vou fazer 60 anos, o que para os padrões atuais, é muito jovem. Na época que eu tinha 12 anos, quem tinha 40 era um coroa, velho mesmo. As coisas mudaram, e eu me cuido legal, sou supersaudável. Não como carne, não bebo, não fumo…

Não bebe nem fuma nada?

Só maconha, que me deixa tranquilo, totalmente diferente do que os leigos acham. Por que é uma planta, não considero droga. É uma hipocrisia gigante fazerem propaganda de álcool e condenarem a maconha. A pessoa que bebe fica agressiva. Nunca vi um maconheiro deitado na sarjeta.

Numa entrevista em 2015, você citou uma frase de Nietzsche: “Somente aquele que constrói o futuro tem o direito de julgar o passado” e, logo depois, emendou com “acho que as pessoas vão ter que se distanciar da minha imagem para me entender um dia”. O que quis dizer?

Exatamente o que está acontecendo agora. As pessoas já não me olham como aquele cara que fez o axé music e só. O projeto de discos mensais, que é longo e ousado, alçou o olhar das pessoas sobre mim a outro patamar. Não fui eu quem mudei, mas a forma de me enxergarem. Não tem como a pessoa passar impune. Em algum momento, vai escutar algo e se surpreender, porque a diversidade é gigante.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra Luiz Caldas de roupa e coturno pretos e agachado sobre um dos calcanhares, enquanto faz gesto de namastê, sorridente, em fundo branco. Foto: Henriqueta Alvarez / Divulgação.

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