LSD pode frear declínio mental, diz estudo brasileiro

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Estudo liderado por cientistas de Natal e Rio de Janeiro com ratos e minicérebros humanos indica melhora na cognição com uso do LSD. As informações são da Folha de S.Paulo

Pesquisadores brasileiros enviaram sem alarde, no último dia 5 de dezembro, à página de acesso aberto bioRxiv.org um artigo que pode dar novo impulso ao chamado renascimento psicodélico. “Dietilamida do ácido lisérgico tem grande potencial como estimulante cognitivo”, esse o título, deverá ficar disponível nos próximos dias.

O estudo constitui uma façanha técnica. Une testes comportamentais com ratos jovens, adultos e velhos tratados com LSD, em comparação com semelhantes sóbrios, à análise das proteínas produzidas em minicérebros submetidos ao ácido para concluir que há melhora no aprendizado graças ao aumento de sinapses.

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Na liderança do trabalho estiveram dois especialistas nessas áreas, respectivamente Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Stevens Rehen, da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). Mas quem carregou o piano, com ajuda de outros 13 coautores, foram Felipe Augusto Cini e Isis Ornelas, das mesmas instituições.

O surgimento de novas conexões entre neurônios está na base da fixação de memórias e, por isso, da cognição. Essas funções superiores do cérebro decaem com a idade, mas o grupo de pesquisa descobriu que o LSD ajuda a resgatá-las em roedores idosos se eles contarem, ao mesmo tempo, com um ambiente mais interessante.

Sinaptogênese (formação de sinapses), ou neuroplasticidade, e abertura para experiências novas, cogitam os autores, parecem ser o traço comum por trás do potencial terapêutico redescoberto nos psicodélicos. Centros do Brasil, dos EUA e da Europa já estudam a capacidade de outras substâncias que também atuam sobre o ciclo do neurotransmissor serotonina para tratar aflições mentais.

É o caso do DMT da ayahuasca, estudada de forma pioneira pelo grupo de Dráulio de Araújo, na mesma UFRN, para tratar depressão resistente aos remédios disponíveis. Nos EUA se investiga o MDMA (ecstasy) para transtorno de estresse pós-traumático. No Reino Unido, a psilocibina dos cogumelos mágicos para depressão, de novo.

Antes que alguém se apresse a organizar viagens lisérgicas de avós na praia ou em parques, cabe repetir que o estudo só utilizou animais e minicérebros, esferas de células nervosas humanas cultivadas em laboratório por 45 dias. Falta cumprir a etapa em que os testes envolverão pessoas de carne e osso.

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A equipe multidisciplinar compete na ponta da pesquisa de alternativas para os tratamentos no arsenal limitado da psiquiatria contra transtornos complexos e não raro refratários, como depressão e dependência química. Não será surpresa se ficarem falando sozinhos no Brasil de hoje, em que se autorizaram medicamentos à base de cânabis, mas seguiu proibido o cultivo.

Por ora, o grupo potiguar mostrou que melhora o desempenho dos ratos jovens e adultos quando tomam LSD antes das tarefas. O mesmo não ocorre com os roedores velhos, mas, quando são expostos a ambientes com objetos novos — pode ser até um tubo de papelão —, os idosos lisérgicos se saem bem melhor.

A explicação de que a neuroplasticidade induzida pelo psicodélico estaria por trás ganhou força com os minicérebros. As equipes do Idor e da Unicamp dissolveram e compararam as proteínas produzidas por esses organoides com e sem LSD. Identificaram 234 com presença mais significativa nos minicérebros do segundo time, várias das quais — como a sinaptofisina — diretamente envolvidas na formação de sinapses.

“Os resultados […] dão apoio ao uso de LSD para estimular o aprendizado, mapeiam as vias metabólicas subjacentes a tal efeito e mostram pela primeira vez que o LSD modula proteínas sinápticas em neurônios humanos”, conclui o artigo.

O trabalho resultou da colaboração com outros pesquisadores brasileiros, como Daniel Martins-de-Souza e Luís Fernando Tófoli (Unicamp), e do exterior, como Encarni Marcos, da Universidade Miguel Hernández de Elche, na Espanha.

Figura como coautora, ainda, a britânica Amanda Feilding, 76, da Fundação Beckley. A condessa, que investe há meio século em ciência psicodélica, aproximou-se nos últimos dois anos do grupo brasileiro para avançar mais rápido nas pesquisas, como narrou reportagem recente da Folha.

Para Stevens Rehen, que também é apresentador do podcast Trip com Ciência, o estudo é “um primeiro passo de uma longa jornada de pesquisas que poderá eventualmente apontar na direção do potencial terapêutico de psicodélicos, em especial o LSD, para a idade adulta e velhice”.

“Decidimos tornar o acesso público porque são dados que têm implicações importantes para a saúde de todos, especialmente dos mais idosos”, afirma Sidarta Ribeiro, autor do best seller “O Oráculo da Noite”, sobre sonhos.

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#PraCegoVer: em destaque, ilustração que mostra o desenho, sem preenchimento, de uma cabeça humana em perfil, em traço branco, e seu cérebro, em traços coloridos, com um fundo psicodélico de várias cores em forma de vórtex. Imagem: The Daily Beast.

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