Literatura Sativa: Morena flor de cannabis

buds unidos Literatura Sativa: Morena flor de cannabis

— Bia, eu voltei! A liberdade é a liberdade! Você me tirou daqui, Bia! Minha morena flor de cannabis!

— Vamos sair deste lugar, Jorginho, que a porta da cadeia me dá calafrios, meu brother!

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— Acredita em mim, Jorginho? Eu sinto um arrepio na alma. Acho que é a lembrança ancestral da senzala, sei lá o quê. Sei que o bicho pega!

Jorge precisou acertar as contas com o Defensor que estava conversando com um guarda. Ele saiu de perto de mim, mais uma vez eu fiquei sozinha. Era pela tarde e as visitantes dos internos já tinham vazado.

Nunca visitei Jorge lá dentro, não carecia.

Tinham umas cinco ou seis mulheres, duas crianças pequenas e uma de colo ainda na porta da cadeia. Ficaram em busca de renovar carteirinha de visita. Se soubessem, já tinham ido embora, pois naquela hora é tudo sem futuro. Não há atendimento do Serviço Social.

Talvez estivessem esperando a assinatura de um diretor, ou uma autorização para enviar comida para seus familiares. Talvez estivessem esperando a hora do carro para viajarem para seus lugares de origens, numa tristeza só. Brasileiras, tipo eu, com problemas sérios, tipo o meu, e com filhos pequenos para alimentar.

— Oi! Criancinha, qual é o seu nome? Ei, você aceita comer biscoito? Toma!

A criança era um menininho de sete ou oito anos que levou alegremente meu biscoito de cereal e me disse um “bigado!” e eu amei aquilo.

Depois saiu naquela carreira e foi embora para o banco de alvenaria à frente. Por que eu ignorei o protocolo da pandemia, nem me pergunte, acho que por ser criança e ter paquerado o meu biscoito com seus olhinhos pretos.

Mesmo assim, dei um pacote pequeno de biscoito com cereal, tudo higienizado. Fazer isso a gente já podia, visitar loja e tudo mais.

Até o cinema e as aulas da escola já voltaram.

Logo, logo alguém diria que o carnaval foi descancelado, será uma loucura, a pandemia ainda come solta.

Naquele vão de tempo, eu sozinha, fiquei pensando no meu passado com ele. Tinha poucos segundos, talvez alguns minutos. Era dia de semana, não recordo. Eu estava acordada. Precisava tomar algo. Chá ou café?

Talvez leite quente, pois não gosto mais tanto de café como gostava e o chá pra hoje com certeza não daria, pois a minha ganja ficou toda contada e já está sendo fumada com talo e tudo, que é pra economizar até o vento na hora da vida puxada. Fora do meu remédio fumado, ficam apenas as sementes.

Naquele dia, eu tinha pouca massa e só meio de cereal. Já falei que a semente da ganja é cereal? Deixa pra lá! Lembrei-me da polícia que entrou na casa de Jorge e recolheu as plantas entre gargalhadas e gritos. Parei de pensar nisso e pensei em Jorge com a aliança na mão, num quarto de motel, a me pedir em casamento. Vi um guarda alto e forte de presídio, armado na cintura de pistola ponto quarenta. Acho que era uma famosa Taurus, toda prateada. O agente prisional foi se aproximando do Defensor, de Jorge também, e, novamente, eu me lembrei da história da polícia invadindo o quintal de Jorge.

E foi aí que o pensamento se foi, quando Jorge voltou para perto de mim. Ele e eu, com as mãos quase vazias, decidimos nem sentar naqueles bancos de alvenaria, duros e para acomodar os dias de visita, que paradoxo!

A gente ficou se olhando tanto que ele ficou logo de cara e baixou a cabeça sem graça. Se fosse antes, ele sem graça me abraçava e me beijava, introduzia seu amor em mim.

O Defensor Público havia esticado e agora o nosso paradeiro era mais certo do que nunca. Jorge puxou a frente, me segurando pela mão e a gente se movia com a maior leveza até o estacionamento daquela senzala moderna, em busca de um cavalo veloz com duas grandes rodas, a fim de que pudéssemos sair dali voando.

— Bia, qual é a sua moto? Me deixe pilotar hoje, viu, moleca?

— Ficou maluco foi, Jorginho?

E sorrimos assim de uma alegria sem tamanho durante segundos e depois seguimos acelerando por horas e horas soltos pela pista.

O conto acima é parte do livro “Traficante Privilegiado”, da ativista literária Eva Bárbara. Clique aqui para acessar a obra na íntegra e boa leitura!

Leia também – Literatura Sativa: A maresia nutritiva

#PraCegoVer: em destaque, fotografia de dois buds de cannabis recostados um no outro, em seus topos, formando um arco, e um fundo marrom avermelhado. Imagem: THCamera Cannabis Art.

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Sobre Eva Bárbara

Estudante e ativista que sonha publicar o seu primeiro e-book de poesia no próximo ano. Responde pelo e-mail evabembarbara@gmail.com ou através da redação pelo redacao@smokebuddies.com.br.
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