Literatura Sativa: Amizade colorida de cannabis

buds coloridos Literatura Sativa: Amizade colorida de cannabis

A gente nunca ia para longe do nosso país. O nome disso era patriotismo canábico em nossas vidas, talvez por que somos e moramos em Kaya-Free. Aqui, em nossa grande ilha, o clima tropical favorece sempre a nossa maconha, permitidíssima em qualquer lugar, casa ou esquina.

— Como é o lance da cannabis em Kaya-Free, Gata? — perguntava-me uma nova colega, digitando.

lazy placeholder Literatura Sativa: Amizade colorida de cannabis

Respondi, tranquilamente, por meio de um áudio, que para nossa sociedade a cannabis já é um negócio cultural. Expliquei-lhe que a gente só não se liga mesmo em estimular o ilegal em outros países. Isso é careta. Tipo a nossa cervejaria, a Kaya-Beer, que vende cerveja mista, de lúpulos com THC. Em nossas exportações, se o destino for o Brasil, por exemplo: nem pensar!

— Ah, eu já ia pedir alguns litrinhos de Kaya-Beer, Gata! Soube que é o maior sucesso entre os gringos. E soube também que tem quem pira e morga, mas que isso era com a minoria, pois a galera mesmo vai com força e não perde a festa. É sério isso? — devolveu-me o áudio com outro áudio, questionando-me tudinho com aquela curiosidade apaixonante das brasileiras que vivem (ou sobrevivem?) proibidas de terem acesso a uma planta de cannabis orgânica.

— É verdade! Aqui a gente usa tão pouco o álcool. Porém, turistas que chegam a nós, cada um com fala e charme próprios, apaixonam-se pelas nossas praias e maresias cheias de Kaya-Beer e de muita gente gostosa, simpática e anfitriã — explicava-lhe e flertava com as fotos dela no Insta.

– Proibir a maconha não dá rock, Gata! — concluiu minha coleguinha indignada.

Enquanto pesquisava mais imagens da minha nova amiga, ela mesma me enviava outras fotos inéditas, nunca postadas antes. Ela ousando, muito sexy, na Marcha da Maconha: cabelos aos dreads, presos com estique, e uma roupa de heroína com capa aveludada, flutuante. A insígnia da folha canábica, brasão de guerra. Nariz com um piercing que lhe dava aquele ar de realeza tribal. Em cada fotografia, ela revelava um olhar obtuso. Respirei fundo e lancei novas perguntas.

— Por que medicinal, e nunca recreativa? E por que nunca recreativa, se tão medicinal, amiga? O Brasil vai legalizar depois da pandemia, será? — perguntei-lhe, num áudio ligeiro, música ao fundo.

— É um paradoxo criminoso, Gata. Sou brasileira e sei que o Brasil promete. Sequestrado está entre fundamentalistas e oportunistas. Que fazer, a não ser lutar, amiga?

Minha camarada engajou-se de paixão ativista, e pensamos juntas: nosso encontro dava um livro!

— E, se eu chegar ao Brasil, tu descolaria uma hospedagem para nós duas?

— Tem hospedagem para mim, Gata, se eu decolasse até Kaya-Free?

Perguntas simultâneas. Incrível. Sintonia feminina, quiçá! Assustada pela coincidência, antes de ter lido um “YES” incondicional de minha amicíssima, eu respondi alta, independente e já submissa:

– Pode vir depois da pandemia!

Leia também – Literatura Sativa: Legaliza meu haxixe

#PraCegoVer: fotografia (de capa) que mostra dois buds de cannabis em cores laranja, verde e roxo, repletos de tricomas, estando um no segundo plano e fora de foco, sobre uma superfície azul. Imagem: David Cardinez | Pixabay.

lazy placeholder Literatura Sativa: Amizade colorida de cannabis

Sobre Eva Bárbara

Estudante e ativista que sonha publicar o seu primeiro e-book de poesia no próximo ano. Responde pelo e-mail evabembarbara@gmail.com ou através da redação pelo redacao@smokebuddies.com.br.
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!