A guerra contra as drogas é um erro

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Entre os dias 19 e 26 de junho, foi realizada em todo o país a Semana Nacional Antidrogas, uma campanha que divulgou informações falsas, impondo medo à população e desincentivando o debate sobre o tema na sociedade. Saiba mais no artigo de Daniela Amadeu* para o TRENDR / Medium Brasil.

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#PraCegoVer: peça gráfica divulgada pelo Senado Federal com fundo preto e fotografia da cabeça de um cachimbo com crack sob o texto “Os males causados pela cocaína ou crack. Possíveis efeitos imediatos: paranoia, agressividade, delírios e alucinações, irritabilidade, propensão a comportamento de risco, tremores e morte. Possíveis efeitos do uso continuado: perfuração do septo nasal, câncer, doenças pulmonares, doenças vasculares, degeneração irreversível dos músculos, desenvolvimento de doenças psiquiátricas graves, prejuízo da visão, lesões cerebrais e morte. Semana Nacional Antidrogas”.

A Página do Senado Federal no Facebook começou a postar algumas imagens informativas a respeito das drogas. O propósito das publicações, segundo eles, deve-se a Semana Nacional Antidrogas, que ocorre de 19 a 26 de junho, estabelecida pelo Decreto 28 de 1999.

As imagens possuíam uma variedade de senso comum e desinformação. E foi por ver tanta desinformação que eu decidi escrever este texto.

Saiba mais: Senado apaga publicação no Facebook com informações falsas sobre a maconha

O que é vício em drogas?

Tudo começa pelo vício. Todas as pessoas, no geral, desencorajam o uso de substâncias psicoativas pelo risco de haver o vício. Peguemos a heroína como exemplo.

Se uma pessoa usa heroína durante vinte dias, todos os dias, conclui-se que se ela tentar parar de usar no 21º dia, ela não conseguirá pois estará viciada. Correto? Você concorda com essa história? Sim ou não?

Mas se uma pessoa fizer uma cirurgia para corrigir uma fratura no quadril, por exemplo, e precisar tomar diamorfina (diamorphine) durante o período de internação para não sentir dores, ela não será uma viciada em heroína quando obtiver alta. Para quem não sabe, diamorfina é a heroína em seu formato mais puro, sem as contaminações que ocorrem na heroína obtida nas ruas. Bom, muitas pessoas utilizam esse opiáceo nos hospitais e as ruas não estão infestadas de ex-pacientes viciados.

Qual a diferença em quem usa heroína nas ruas e quem usa heroína nos hospitais? Já se fez essa pergunta? Quer tentar tirar uns minutos para refletir a respeito antes de saber a resposta?

Revendo os conceitos de dependência química

Em tese, heroína causa a dependência por heroína. Quanto mais você usa, mais necessitado o seu corpo se tornará. Certo? Errado. Perda de conexão humana causa dependência em heroína. Não apenas em heroína, mas em maconha, cocaína, crack, etc.

Uma pessoa que usou diamorfina no hospital durante a sua cirurgia usou para obter os efeitos anestésicos da droga. Após a cirurgia, ela retoma a sua vida, sua rotina, sua conexão com a família e amigos. Ninguém irá julgá-la, condená-la ou excluí-la por ter usado heroína no hospital. Ninguém deduzirá que ela se tornou uma pessoa desvirtuada ou uma má companhia. Ela não será marginalizada pela família e pela sociedade.

Já uma pessoa que usa heroína nas ruas é marginalizada. É vista como uma má companhia, um bandido, uma prostituta. É excluída pela sociedade, pela família e pelos amigos. Se a pessoa começou a drogar-se por falta de conexão humana, a punição que a família fornece excluindo-a e envergonhando-a só reforça o uso da droga.

No senso comum, a melhor abordagem é isolar o usuário de droga. É punir e envergonhar. É remover dele tudo o que o fornece prazer e sentido de vida. E esse isolamento, essa ausência de prazer e de propósito de vida só agravam o vício.

É fácil entrar, mas é difícil sair

Lembro certa vez de ter escutado essa frase de uma pessoa que estava tentando parar de usar cocaína. Sabe qual a justificativa da pessoa para concluir que era difícil de sair? As amizades. No “mundo das drogas” você conhece gente de todo o tipo e muitas vezes são pessoas com histórias de vida muito parecidas com a sua. Essa similaridade causa conexão, proximidade. No senso comum, parar de usar drogas implica em abandonar os amigos que ainda usam. E abandonar as amizades quando se tem tanta conexão é algo muito triste. É uma escolha muito difícil.

Não é possível criar um novo conceito de “sair do mundo das drogas”? Parar de se entorpecer, mas manter os amigos? Talvez você esteja pensando que manter as velhas amizades seja a receita perfeita para a recaída, certo? Errado. Vamos ao próximo tópico.

O experimento com os ratos

Em 1970 Alexander, K. B et al fez dois testes com ratos de laboratório para compreender o que significava ao certo o vício.

Um grupo de ratos ficou em uma gaiola isolada, sem absolutamente nada que pudesse os entreter além de água pura e cocaína diluída em água. Os ratos desse grupo ficaram altamente viciados na água que continha cocaína.

Um outro grupo de ratos foi colocado em um parque dos ratos. Eles tinham um espaço enorme, vários ratos para brincar, bolas e túneis, tinham amigos e sexo disponível. Também tinham água e cocaína diluída em água. E, por sua vez, esse grupo não se tornou dependente da droga. Pelo contrário, esse grupo não gostava da cocaína diluída em água.

Conclusão

Seres humanos possuem necessidades básicas que precisam ser atendidas. Quando um sujeito é privado de convívio social, criminalizado e envergonhado, ele provavelmente irá buscar conforto nas substâncias psicoativas.

Dado o imenso estigma que usuários de drogas enfrentam, eles acabam sendo encorajados a irem mais fundo em seus vícios.

Criminalizar pessoas que usam drogas não é a solução para que elas parem de usar. Essas pessoas precisam ser acolhidas.

As imagens do Senado Federal e o seu senso comum

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#PraCegoVer: fundo preto e fotografia de uma flor de maconha sob o texto “Os males causados pela maconha. Possíveis efeitos imediatos: dificuldade de pensar, falta de coordenação motora, alucinações, agressividade e morte. Possíveis efeitos do uso continuado: doenças cardiológicas, doenças pulmonares, câncer, falta de motivação, perda da memória, morte, em indivíduos com predisposição, desencadeamento de doenças como psicose e esquizofrenia. Semana Nacional Antidrogas”.

Em todas as imagens divulgadas pela página do Senado a respeito das drogas, havia algo que me chamava a atenção, a palavra morte.

E quando o medo acabar, o que impedirá?

O medo pode sim impedir que pessoas façam determinadas coisas, mas por quanto tempo? Peguemos a maconha como exemplo. Maconha não mata. Uma pessoa que não sabe disso pode até sentir-se impedida de usar, mas e quando ela descobrir que a informação não procede, o que a impedirá?

Não podemos viver em uma sociedade que é movida pelo medo. O medo de falar de aborto porque acredita que todo mundo irá abortar; o medo de falar de drogas porque acha que todo mundo vai morrer de overdose; o medo de falar de homossexualidade porque acha que todo mundo vai virar homossexual; o medo de falar sobre armas porque acredita que todo mundo vai comprar armas para brincar de counter strike. Que mentalidade é essa que foi e está sendo construída na cabeça dos brasileiros? Que cultura é essa que está sendo disseminada entre os cidadãos? Medo? Sério, medo?

Essas imagens divulgadas pelo Senado só reforçam que a campanha antidrogas é toda pautada pelo medo. Não use drogas pois você pode morrer.

Conscientizar sobre os possíveis males causados pelas substâncias psicoativas é bastante sensato, mas conscientização não se dá por meio do medo, pois quando o medo acabar, o que irá impedir?

Por último, porém não menos importante, temos a página da Polícia Federal com uma FAQ bem no estilo “respostas que minha mãe daria” que eu quero muito que você dê uma olhada: www.pf.gov.br/anp/institucional/prevencao-as-drogas-gpred/perguntas-e-respostas-sobre-drogas

A visão sobre consumo de entorpecentes ainda é tão antiquada no Brasil que temos a seguinte resposta:

O interesse da pessoa que se droga geralmente é a busca pelo prazer ou a fuga de seus problemas. As pessoas se drogam porque desfrutam de uma sensação passageira de bem estar dada pela droga psicoativa.

Tantas pessoas usam entorpecentes, tantas culturas diferentes, os mais variados tipos de drogas, ao longo de toda a história humana, e é possível resumir o consumo em (0) busca de prazer e (1) fuga de seus problemas. Vocês acreditam mesmo nisso?

Vou deixar um série de posts aqui no Medium chamada de Trips Worth Telling para quem se interessar. Infelizmente a série é toda em inglês e todos os textos estão fechados para assinantes do Medium. Nessa série o Michael Pollan pinça as mais variadas experiências com drogas alucinógenas. É possível descobrir que há pessoas usando alucinógenos para tratar depressão, traumas, redescobrir ou ressignificar sua espiritualidade, reencontrar-se, e tudo o mais que o site da PF não é capaz de compreender.

O Trips Worth Telling poderia ser uma série brasileira, mas a mentalidade tacanha que nos assombra não permite. Infelizmente.

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#PraCegoVer: fotografia em close de um cachimbo de vidro para maconha verde, das mãos o segurando e o acendendo com um isqueiro e de parte do rosto da pessoa que está fumando. Créditos: Sharon McCutcheon – Unsplash.

Fontes:

http://sencanada.ca/content/sen/committee/371/ille/presentation/alexender-e.htm

Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs — Johann Hari.

What the Cocaine Addiction Rat Studies Reveal

*Daniela Amadeu é acadêmica em análise e desenvolvimento de sistemas, gestão e planejamento organizacional, dedicada ao estudo de inteligência artificial e emocional.

Leia também:

Guerra da desinformação – Nada é por acaso

#PraCegoVer: fotografia de capa de um cartaz verde com o texto “Você sabia que maconha é remédio?”.

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Sobre Smoke Buddies

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