Guia politicamente incorreto para a legalização da maconha

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Como o uso social e adulto da erva poderia melhorar as pessoas e o mundo

Que a canábis enrolada em papel fino e fumada ou ingerida por algum meio tem propriedades terapêuticas é hoje um clichê tão batido que até os mais renomados médicos já começam a se dar conta dele. Mas a intrepidez para defender o uso adulto ainda é reservada aos entusiastas da erva, que costumam ver nela uma panaceia para os males da vida. Essa teoria não é absurda e tem sua razão de ser.

A natureza humana, em essência, é fadada ao fracasso. O homem médio destrói o meio ambiente em que vive, mata seu semelhante, assedia a cunhada e compra livro de autoajuda. Naturalmente não dá certo. A maconha, contudo, nos desembaraça. O usuário inteligente sabe aproveitar o banzo e deixa a primeira baforada relaxante para depois do trabalho feito e do dever cumprido, quando deseja desonerar-se de seu mau humor cotidiano.

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Dentro da cabeça, a maconha eleva o sarrafo das sensações e nos deixa menos sensíveis aos estímulos externos que nos são desagradáveis. Ao reprimir todas as características que nos permitem brilhar na sociedade capitalista — a ambição, a combatividade e a ardileza —, a planta liberta as qualidades que nos enternecem e aumentam nosso carisma: a tolerância, a afabilidade e o humor, atributos que fazem com que as pessoas gostem de nós. Um homem com a cabeça feita por cinco ou seis baforadas não será capaz de realizar um transplante de coração nem reger a Nona Sinfonia de Beethoven, mas será muito melhor em acolher um amigo ou ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven. As tarefas mais úteis e complicadas, como implantar um dente em alguém ou vender um plano de previdência, ficam bem melhores quando realizadas por pessoas tão caretas quanto uma carmelita descalça. Mas as coisas mais interessantes, aprazíveis e inúteis, como fruir o crepúsculo ou admirar uma bela mulher, ficam bem melhores quando feitas por pessoas devidamente chapadas.

Com tantas potencialidades humanas e altruístas, seria muito agradável e adequado habitar um planeta em que todas as pessoas vivessem com o córtex levemente alterado por tragadas periódicas de canábis. Uma pessoa sob o efeito da erva consegue exteriorizar os seus melhores sentimentos. Ela não é apenas mais empática do que quem se esquiva da fumaça, é também mil vezes mais virtuosa. Reage às situações da vida de maneira mais humana e gentil, torna-se mais criativa, compreensiva e generosa. Suas escolhas são pela tranquilidade e moderação. Esse tipo de gente nunca declara guerra nem defende a violência. Bem me lembro da ocasião em que um rapaz estava junto a um grupo de jovens se divertindo numa pequena cidade. Todos bebiam muito e evitavam maconha, o contrário do que fazia aquele mancebo afeito à erva. Lá pelas tantas, depois de alguma discussão frívola e estúpida, garrafas e cadeiras começaram a cruzar os ares, ao que a turba de bêbados se engalfinhou. Enquanto a peleja provocava avarias e danos generalizados, o jovem chapado estava ao lado do carrinho de cachorro quente, mandando a larica para dentro e se divertindo com toda aquela cena grotesca. Se Hitler, Stalin, Idi Amin e Papa Doc tivessem sido devidamente apresentados às delícias da maconha, tantos horrores não teriam sido perpetrados ao longo da história. Já algumas das realizações mais encantadoras da raça humana, como a pintura de Picasso e o trompete de Miles Davis, foram concebidas por homens apropriadamente calibrados por canabinoides.

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Manter todas as pessoas nesse estado de graça claramente seria uma missão complicada. Seria necessário descobrir a cepa adequada de canábis e a dose certa para cada indivíduo, de acordo com suas características pessoais. A ministração de cada dose no momento oportuno também seria um dificultador. Por outro lado, haveria o risco de faltar maconha e um número muito grande de pessoas ficar careta ao mesmo tempo. Logo começariam as guerras, a corrupção, os moralismos e as brigas ideológicas. Sabe-se também que sempre há abusos e provavelmente os viadutos das grandes cidades serviriam de teto para maconheiros compulsivos, que abandonariam o trabalho e a família para se dedicar exclusivamente a fazer coisa alguma além de fumaça. Talvez os governos devessem fornecer doses diárias às populações de modo geral, por meio de chaminés gigantes por aonde sai a fumaça de grandes fornos que queimam hectares de canábis em minutos, lançando aos ventos a esperança de paz e bom senso no mundo. A decisão de como isso poderia ser feito em benefício do povo não cabe a mim, mas aos que devotam a vida à atividade política. Esses sujeitos, no entanto, por estarem frequentemente caretas, dedicam a maior parte do tempo a nos aporrinhar e atrapalhar nossos planos. Sob o efeito da maconha, eles poderiam ser mais eficientes e pensar em algo produtivo para fazer durante sua legislatura.

Some-se a isso o fato de que não há comprovação que a maconha cause mal à saúde ou prejudique a expectativa de vida, mesmo quando fumada. Os mais festejados jogadores da liga de basquete norte-americana e os mais triunfantes lutadores de MMA são diletantes da canábis, assim como velhinhas de 90 anos severamente atacadas por artrite, artrose e programa religiosos na TV.

Num mundo onde todos vivessem equilibradamente chapados, os conflitos seriam drasticamente reduzidos e provavelmente o QI médio aumentaria nas gerações seguintes, o que permitiria ao cidadão mediano trocar o sermão da igreja pelo teatro ou ópera no domingo.

Alguém com um ou dois baseados na cabeça pode até parecer tolo, mas não é cruel. Talvez fique um pouco passivo, mas também mais calmo, indulgente e piedoso. Um projeto como esse poderia restaurar os verdadeiros valores cristãos no mundo e acabar com os moralismos. Seria a redenção canábica da humanidade.

As opiniões expressas neste artigo são do colunista que assina o texto e não necessariamente refletem a visão da Smoke Buddies.

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#PraCegoVer: fotografia em plano fechado que mostra detalhes das mãos de uma pessoa, que segura uma seda de papel enquanto enrola um cigarro, e, ao fundo, parte da camiseta, preta, que traz a capa do álbum Unknown Pleasure, da banda Joy Division. Foto: Luiz Michelini.

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Sobre Leonardo Padilha

Leonardo Padilha é advogado canabista, jornalista e especialista em educação. leonardopadilha.advogado@gmail.com
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