A maconha é terapêutica, mas não substitui terapia; entenda

abstinencia A maconha é terapêutica, mas não substitui terapia; entenda

Embora tenha muitos benefícios terapêuticos, a cannabis por si só não pode e nem deve ser considerada como um processo de terapia. Entenda melhor na coluna Girls in Green

1 323x400 A maconha é terapêutica, mas não substitui terapia; entenda

#PraTodosVerem: ilustração geométrica com uma cobra e linhas que envolvem e partem dela. Fonte: pinterest.

Nos últimos anos, foram feitas muitas descobertas sobre a nossa querida plantinha — inclusive que a maconha pode ter inúmeros benefícios terapêuticos e medicinais, inclusive para a saúde mental. Pesquisas mostram seu potencial no tratamento de sintomas da depressão, transtornos de ansiedade e até transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Entretanto, a psicoterapia e os seus processos são coisas sérias, e não podem ser simplificados a ponto de pensarmos que a planta pode substituí-los.

É como acontece com os remédios psicotrópicos: muita gente pensa que, por usá-los para tratar seus sintomas, estão atacando as causas da doença. Mas não é bem assim. Nem eles — nem a maconha — podem substituir os avanços e processos exploratórios da psique promovidos por profissionais habilitados.

Atualmente, vemos uma expansão no campo da saúde mental, que vem acompanhada também por muitos tabus, confusões e promessas falsas. Aqui, nosso principal objetivo é trazer um pouco mais de luz aos conceitos relacionados à terapia, ao papel da cannabis dentro dela, bem como seus riscos e potenciais, além de como cada profissional pode ajudar você a encontrar caminhos da sua própria mente.

Vem com a gente entender melhor tudo isso!

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O que é terapia?

Terapia se refere ao ato de cuidar ou tratar de alguma doença, transtorno ou questão — seja física ou mental. O termo é bastante amplo, e, por isso, deve ser usado com cautela. Afinal, as linhas para definir o que é terapia ou não estão cada vez mais tênues com o surgimento de “gurus” e outros profissionais que não necessariamente possuem uma formação especial para tratar de questões emocionais.

Quando falamos sobre psicoterapia, no entanto, nos referimos a uma forma de tratamento que, de acordo com o Instituto de Psicologia Aplicada (INPA), tem como objetivo aliviar o estresse emocional, identificar as causas dos problemas de saúde mental e ajudar o paciente a descobrir novas formas de lidar com as questões da vida, tanto boas quanto ruins.

A psicoterapia deve ser guiada por um profissional de psicologia devidamente capacitado e habilitado, que vai trazer o apoio na análise e obtenção de insights sobre as escolhas de vida e as dificuldades enfrentadas por indivíduos, casais ou até mesmo famílias inteiras. Se você deseja saber se o psicólogo ou terapeuta que escolheu tem credenciais, deve procurar seu registro no Conselho Regional de Psicologia (CRP) da região onde ele atua!

E quais os principais tipos de terapia?

Existem diversas vertentes de psicologia, e cada uma aborda as questões de uma maneira diferente para identificar problemas, padrões de comportamento e até mesmo possíveis transtornos. Vamos falar de algumas delas?

A psicanálise, concebida originalmente pelo famosíssimo Sigmund Freud, é considerada por muitos uma das formas mais antigas de terapia. Ela tem como base um tipo de conversação que permite trazer pensamentos e sentimentos do inconsciente para o consciente — identificando possíveis problemas, padrões de comportamentos nocivos e distúrbios da mente. Algumas técnicas usadas para isso são a associação livre de palavras e a análise dos sonhos, e suas principais vertentes são a psicanálise freudiana, a lacaniana e os conceitos de Melanie Klein.

A psicologia analítica, criada pelo psiquiatra Carl Jung, também tem muito da psicanálise de Freud — seu principal mentor. A técnica também é baseada na fala, mas o papel do terapeuta é mais ativo, e ele tenta compreender o que o paciente quer dizer através dos símbolos. Os terapeutas que seguem essa vertente também podem usar várias outras estratégias, como experiências criativas, que incentivam a autoexpressão e a criatividade.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (ou TCC) também se baseia muito na fala, mas, ao contrário de focar no subconsciente, costuma se voltar a problemas específicos e ter uma abordagem mais objetiva. Uma de suas principais metas é identificar e trabalhar para modificar comportamentos e pensamentos “disfuncionais”, investigando crenças irracionais e bloqueios do indivíduo. Esse tipo de terapia parte do princípio de que os pensamentos influenciam os sentimentos e emoções, causando um impacto nas ações. Por isso, muita gente considera a vertente mais prática e voltada a situações problemáticas imediatas.

A Análise Comportamental nasce a partir do behaviorismo, que acredita que a parte mais importante do processo terapêutico é analisar não os pensamentos, mas o comportamento em si. Esse tipo de psicoterapia parte do princípio de que somos condicionados a certos tipos de comportamento e seus padrões pelos ambientes que nos cercam — ou seja, o behaviorismo busca a raiz do seu condicionamento e como os acontecimentos da sua vida moldaram a sua maneira de agir.

E o que são terapias holísticas?

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#PraTodosVerem: ilustração de uma criatura com corpo de cobra e vários membros sendo combatida por uma pessoa. Fonte: pinterest.

O termo holístico nasce do grego Holos, que significa inteiro ou todo. Portanto, as terapias holísticas são descritas por muitos como um conjunto de técnicas de diferentes vertentes que possuem o objetivo de trazer a cura do ser por completo — integrando corpo, mente e espírito. Cada vez mais populares, muitas técnicas surgem de medicinas sagradas (como a chinesa ou hindu), e algumas já são reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como terapias complementares.

Como assim complementares? O indicado é que essas terapias sejam feitas com o acompanhamento de um médico ou profissional formado. Por se tratarem de técnicas sem bases 100% científicas, podem ser usadas como um complemento em seu processo terapêutico, ajudando a trazer um viés mais espiritual — para quem curte e acredita.

Entretanto, o cuidado com as terapias holísticas deve ser grande, e não podemos cair em promessas falsas de cura milagrosa! Atualmente, com a popularização de várias dessas técnicas, são muitos os que atuam na área sem formações específicas. Para quem está desesperado com os problemas de saúde mental, pode até parecer uma boa ideia apelar apenas para essas ferramentas — mas, se exercidas de maneira antiética, elas podem causar mais mal do que bem.

Precisamos sempre lembrar que estamos tratando de possíveis transtornos, que podem ser graves, e é fundamental dar seriedade ao assunto.

Maconha, saúde mental e seus possíveis benefícios

Como a gente já falou aqui, a relação entre a maconha e a nossa saúde mental pode ser bastante dicotômica. Isso por que, quando usada com sabedoria, ela pode ser uma ferramenta incrível para buscar a cura. Fica o alerta de que todo cuidado é pouco: seu uso indiscriminado também pode trazer uma piora em certos casos e quadros, o que pede a nossa atenção.

Mas também não é 100% certo dizer que a cannabis pode ser a causa única de episódios depressivos ou outras condições. A relação entre a cannabis e os problemas relacionados à saúde mental é, para muitos médicos e especialistas, como o dilema do ovo e da galinha: é muito difícil saber quem veio primeiro — o uso ou o transtorno. Portanto, não há exatamente como estabelecer uma relação causal.

Além disso, conforme as pesquisas avançam, já podemos ver o potencial da plantinha quando falamos no tratamento de inúmeras condições que podem afetar nossa psique, como:

Ansiedade e depressão. Muitos dos estudos voltados à relação entre a cannabis e a saúde mental focam nos dois transtornos — os mais incidentes e debilitantes nos dias de hoje. Esse artigo, publicado no jornal Frontiers In Psychiatry, descobriu que o uso de cannabis medicinal estava associado a uma menor depressão autorrelatada, bem como à diminuição da ansiedade em adultos. A pesquisa foi conduzida pela Universidade Johns Hopkins em associação com a Realm of Caring Foundation. Além disso, existem estudos que ligam o CBD à diminuição dos sintomas da ansiedade.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Estudos apontam para a eficácia da cannabis entre pacientes que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), particularmente na redução de pesadelos. Ela já é bastante usada por veteranos de guerra, cujos centros e associações já estão revisando pesquisas sobre o assunto e até mesmo financiando a cannabis medicinal para alguns pacientes vinculados.

Relatos de pacientes, com poucas evidências científicas, ainda apontam para a redução de sintomas de agorafobia, ansiedade social, fobias, transtornos de pânico e problemas de sono relacionados à ansiedade. Esses efeitos, entretanto, ainda devem ser investigados e sustentados de maneira mais concreta!

Já nos disse o psiquiatra e Redutor de Danos Rafael Baquit: é preciso pensar na cannabis como um possível complemento, e não como um único remédio. Existem milhares de variações genéticas de cannabis, e o problema é que ainda não se sabe exatamente como a combinação funciona perfeitamente. O tratamento é um conjunto de ações, atitudes e mudanças, e não pode ser apenas uma planta. 

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E onde estão os riscos?

Não é por ser algo natural que a cannabis está totalmente livre de riscos — principalmente quando o assunto é a nossa saúde mental. A principal preocupação nessa área é a possibilidade de que o usuário ou a usuária desenvolva quadros de psicose, segundo o professor e pesquisador Sidarta Ribeiro. Os sintomas variam entre os indivíduos, mas podem incluir:

  • Pensamentos incomuns;

  • Alucinações visuais e auditivas;

  • Crenças paranoicas ou delirantes.

Embora o THC possa causar paranoia em pessoas sem doenças mentais, as evidências sugerem que aqueles que desenvolveram uma doença psicótica em resposta ao uso de cannabis provavelmente estavam predispostos a isso.

Nas últimas décadas, houve uma série de estudos — como esse aqui, que é bem famoso — que apontaram uma relação entre o uso de cannabis por adolescentes com um maior risco de desenvolvimento de psicoses funcionais como a esquizofrenia, principalmente em casos de predisposição familiar.

Depressão e uso abusivo de cannabis também estão associados, mas, como já mencionamos, não está claro se a associação é causal ou se fatores compartilhados podem aumentar a probabilidade de consumo de cannabis e depressão.

Além disso, o uso de cannabis rica em THC pode ser um gatilho para crises de ansiedade.

Cannabis e terapia: como conciliar?

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#PraTodosVerem: fotografia em close de um baseado sendo acendido com fósforo. Fonte: pinterest.

Alguns estudos analisados nessa revisão apontam que o uso da maconha pode estar relacionado à não aderência a tratamentos para problemas psiquiátricos — principalmente o uso de remédios antipsicóticos. Entretanto, um grande problema é perceber que são poucos os profissionais da área da saúde mental que estão dispostos a enxergar o uso da cannabis e de outras substâncias através da ótica da Redução de Danos — ao invés da total abstinência.

Tanto a falta de vontade de deixar de fazer o uso quanto o desconforto perante os julgamentos podem ser fatores que contribuem para a falta de adesão dos usuários e usuárias a um programa terapêutico profissional.

Para ajudar, a gente criou uma lista de profissionais da psicologia e psiquiatria antiproibicionistas*. Nela, é possível encontrar terapeutas que trabalham sem preconceitos com o uso de qualquer tipo de substância e que sabem acolher pacientes que fazem uso de drogas com uma visão aberta e livre de julgamentos. Acreditamos que apenas assim, com o desenvolvimento de uma relação de confiança, é possível encontrar uma forma de relacionar a saúde mental e seus possíveis transtornos (como depressão, ansiedade, síndrome do pânico e inúmeros outros) ao consumo — seja de cannabis ou de outras drogas.

Além disso, é possível selecionar o profissional mais próximo de você, ou que ofereça atendimento on-line, e até valores sociais para as consultas, para aumentar ainda mais a acessibilidade dos tratamentos.

Outras dicas importantes para preservar a cabeça

É sempre importante ressaltar que pacientes com vulnerabilidades de saúde mental que tomam a decisão consciente e informada de não se abster da cannabis ainda podem contar com a Redução de Danos para mitigar possíveis efeitos negativos.

Aqui, vamos mostrar algumas estratégias de RD especiais para esses casos:

Se for possível, comece a fumar apenas depois da adolescência. Acredita-se que a cannabis afete o desenvolvimento do cérebro dos jovens, o que pode acarretar alguns dos riscos à saúde mental.

Menos THC ou equilíbrio entre canabinoides. Se escolher fazer o consumo, procure por cepas de cannabis com menor teor geral de THC e/ou com uma proporção mais alta de CBD para THC. Mesmo sabendo que a realidade do Brasil é extremamente complicada, precisamos deixar o alerta e pedir que a maconha ilícita, que não foi testada, seja evitada. Nesse caso, autocultivo pode ser uma boa opção!

Comece devagar e vá com calma para reduzir o risco de efeitos colaterais. Se você tiver uma experiência mental ruim enquanto usa cannabis, pare de consumi-la temporariamente e procure aconselhamento de profissionais.

Em casos extremos, considere a abstinência. Por mais que não seja o cenário ideal para muitos maconhistas, é a melhor maneira de evitar os riscos para a saúde mental do consumo de cannabis — principalmente se você tiver um parente próximo que sofre de psicose.

*Não nos responsabilizamos pelo atendimento de cada profissional e não temos controle sobre eles. Esta lista foi construída através de um formulário divulgado em redes sociais, mapeando profissionais com mentalidade antiproibicionista.

É, a relação entre a cannabis e a saúde mental não parece ser muito fácil e ainda carece de investigações e evidências mais completas.

Mas, enquanto isso não acontece, você pode contar com um profissional antiproibicionista para te ajudar a entender o seu consumo, suas causas e até encontrar maneiras de torná-lo mais saudável.

Se você está apresentando qualquer tipo de sintoma mental e/ou psiquiátrico, procure auxílio de indivíduos sérios e competentes. Não deixe que a situação se agrave. Esse é o melhor conselho que podemos dar!

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Maconha vs hash: quais são suas diferenças?

#PraTodosVerem: fotografia que mostra uma porção de maconha triturada, colocada sobre um papel de seda aberto, em uma superfície lisa de cor amarela. Foto: THCamera Cannabis Art.

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Sobre Girls in Green

O Girls in Green é um projeto feito por mulheres canábicas, focado na produção e disseminação de conteúdo digital acessível, livre de julgamentos e tabus, abordando temas como maconha, uso de drogas, cultivo, haxixe e política - sempre sob a ótica da Redução de Danos. O principal objetivo do canal é combater o estigma e a desinformação resultantes da Guerra às Drogas.
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