“Geleia de maconha” e a ignorância do proibicionismo

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A incompetência ou perfídia de veículos que não se comprometem com a qualidade da informação infelizmente já não é mais motivo de espanto, mas “geleia de maconha” é insólito

A ignorância não tem limites quando o assunto é maconha e quem noticia são veículos tradicionais com um “jornalismo” fraco que não faz o mínimo de esforço para checar uma informação passada pela polícia em um país que ainda vive um contexto de proibicionismo.

Nos últimos dias vem sendo noticiado que comerciantes de drogas de bairros nobres de São Paulo foram presos por vender, entre outras substâncias, “geleia de maconha”, que, segundo os veículos, seria uma “maconha pastosa” para ser consumida como alimento.

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 Geleia de maconha e a ignorância do proibicionismo

Foto: Polícia Civil.

O produto em questão, como pode ser visto na foto divulgada pela polícia civil, se não for uma porção de doce de leite esticada em um plástico — o que em tempos de kit flagrante não seria surpresa —, claramente não passa de um concentrado/hashish, que é o resultado da extração de cabeças de tricomas das inflorescências (buds) de plantas de cannabis.

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Um concentrado de maconha até pode ser utilizado na culinária, mas nesse caso deve passar por uma série de procedimentos — como a descarboxilação — para poder ser ingerido como alimento. Hashish não é geleia de maconha como estão divulgando alguns veículos, mas sim um produto derivado da cannabis para ser utilizado, geralmente, vaporizado/dabeado ou fumado, como muitos consumidores optam aplicando o hash na erva e/ou baseado.

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Os concentrados de cannabis são o produto da extração dos tricomas dos buds e folhas da maconha (principalmente as sugar leaves). Eles contêm todos os canabinoides e terpenos das inflorescências, em uma proporção muito maior do que na cannabis in natura — um concentrado de maconha nada mais é do que uma acumulação densa de tricomas.

Dependendo da forma final que assumem, os concentrados de cannabis podem ser consumidos sozinhos, em um baseado ou incorporados em um prato canábico.

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A má-fé ou incompetência de atores da imprensa tradicional que não se comprometem com a qualidade da informação infelizmente já não é mais motivo de espanto para nós. Há mais de dez anos na luta de informar, desconstruir mitos e fake news, argumentar e promover atos e provisões legais para a regulação do uso e venda de maconha, já vimos todo o tipo de estória da carochinha — de cannabis não é maconha até maconha invisível — mas “geleia de maconha” é a primeira vez.

Seja uma “ignorância estratégica” para tentar conturbar o debate sobre a urgente reforma da política de drogas e corroborar com a falida guerra às drogas, sensacionalismo para ganhar audiência ou pura falta de competência na checagem de informações, o fato é que o desserviço de informação de alguns veículos pode agravar ainda mais o lamentável quadro de proibição em que vivemos atualmente, que pune, encarcera e assassina a população negra e pobre.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra uma porção de concentrado de cannabis de cor âmbar-claro e aspecto pastoso, remetendo a um Rosin, em uma folha branca. Imagem: Herb Ceo.

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