Gabrilli vs Terra: confira como foi o debate sobre maconha na GloboNews

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De um lado, alguém que diz que o plantio de maconha para fins medicinais traria mais danos do que benefícios à sociedade. De outro, a prova viva de que a planta pode transformar a qualidade de vida de quem se beneficia de suas propriedades terapêuticas. Veja como foi o debate entre a senadora Mara Gabrilli e o ministro da Cidadania, Osmar Terra, mediado pelo jornalista Gerson Camarotti e transmitido pela GloboNews

Em breve, a Anvisa delibera sobre o uso medicinal da cannabis. A Agência tem discutido critérios para o cultivo e registro de medicamentos à base da planta, mas o governo já se posicionou contra a proposta, como o ministro da Cidadania Osmar Terra, que vê ameças em tudo que contraria sua ideologia.

No legislativo, a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP) é uma das vozes em defesa da regulamentação do plantio da maconha para fins medicinais. Mara é tetraplégica desde 1994, quando sofreu um acidente de carro. Ela consome o óleo de cannabis, já que os produtos convencionais não conseguiram tirá-la da dor e sofrimento.

Convidado pelo programa GloboNews Política, apresentado por Gerson Camarotti e exibido em 11 de outubro, para debater com a senadora o assunto, o ministro da Cidadania inicia enaltecendo seu título médico e condenando o uso dos canabinoides de todas as formas, principalmente a fumada. Segundo Terra, “a medida em que se faz o óleo e fuma maconha, você coloca para dentro 480 moléculas diferentes. A ponto do Valentim Gentil Filho, psiquiatra titular da USP, dizer que, se ele tivesse que proibir uma única droga, proibiria a maconha, de tanto que é o dano a médio e longo prazo”.

Para ele, “na prática, vai ser a generalização do plantio e uso da droga“, e, após um levantamento feito pelo próprio ministro, de 21 mil projetos publicados em 4.800 revistas científicas pelo mundo, 90% dos trabalhos apontam danos severos, a médio e longo prazo, causados pelo consumo de cannabis – e as evidências de benefícios são pequenas. Vale incluir que Terra confessou não ter lido todos eles.

Para o ministro, supondo que haja benefícios medicinais em uma única molécula da maconha – o CBD -, o papel do governo é garantir o acesso ao canabidiol. “O número de pessoas beneficiadas é muito pequeno, são doenças raras, e, em nome disso, abrir o plantio de maconha certamente vai ficar fora de controle. A maconha causa muito mais danos às pessoas do que benefícios.”

15 milhões de brasileiros com doenças raras

“De forma alguma podemos desdenhar do número de pessoas que se beneficiam de algum tratamento com cannabis medicinal”, retruca a senadora Mara Grabilli, que aproveitou para revelar a quantidade de pessoas com doenças raras no país: 15 milhões.

Sobre o consumo adulto, que por eles ainda é chamado de recreativo, Gabrilli é taxativa ao discordar de que fumar maconha causa mais mal que outras drogas, como acredita o ministro. “É óbvio que vou discordar de você, o Valentim Gentil Filho (Psiquiatra) pode ser um Deus, eu tenho experiência com pessoas que usam muitas drogas, como você, e não estamos aqui para falar disso”.

Atualmente, há famílias no Brasil com Salvo Conduto para cultivo caseiro e, para a senadora, “a tendência disso é crescer e se multiplicar. Por isso, a importância de regulamentar – se você regulamenta o plantio, não deixa isso nas mãos dos pacientes e ONGs, sem querer desmerecer, mas você controla muito mais”. Segundo a senadora, quando houver a regulamentação da Anvisa, os plantios assegurados por Habeas Corpus terão de mudar para seguir as regras.

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Após a exibição do depoimento da mãe de Gabriela Lobianco, uma paciente do Rio de Janeiro que utiliza óleo de maconha, Osmar Terra volta a atacar ao dizer que é ignorância da mãe da criança acreditar que maconha é medicinal. Para ele, são “480 moléculas” (canabinoides) que fazem mal, e apenas o CBD que pode ter efeitos medicinais e, para isso, não é preciso regulamentar o cultivo, citando (como quase um lobby) o laboratório paranaense Prati-Donaduzzi ao falar sobre o canabidiol sintético.

Nitidamente irritada, a senadora Mara Gabrilli  questiona o ministro sobre a afirmação de que apenas um canabinoide é benéfico. Citando as descobertas do pesquisador israelense Raphael Mechoulam, que descobriu os efeitos benéficos da interação dos canabinoides no corpo humano, ela pergunta se Israel, Canadá, Estados Unidos, Austrália, Alemanha, Itália, Inglaterra e os países da América do Sul, entre os mais de 40 países que possuem legislação para a maconha medicinal, estão equivocados sobre os usos da cannabis.

Atualmente, o único medicamento que Mara Gabrilli toma é o Mevatyl, que possui registro na Anvisa e contém THC. A parlamentar, que sofreu uma lesão modular que a paralisou do pescoço para baixo, disse que conseguiu na Anvisa o direito de importar o Canabidiol Puro (Purodiol), prescrito pelo Dr. Alexandre Crippa, na tentativa de diminuir espasmos e movimentos involuntários causados por sua condição. Porém, Gabrilli afirma que o medicamento não fez bem a ela, que desenvolveu uma epilepsia visceral como efeito colateral do CBD. “Mas, isso não quer dizer que não faça bem a outra pessoas, o que fez bem para mim foi a interação de outros canabinoides”.

À base de mentira

No segundo bloco do programa, quando o apresentador Gerson Camarotti questionou se o alto custo de importação poderia ser reduzido a partir da produção no Brasil, o ministro da Cidadania se esquivou ao lamentar a falta de um depoimento de uma mãe que perdeu o filho para o uso da droga.

“Filho que não tinha doença nenhuma, que era um menino sadio, que disseram para ele que maconha era remédio, era medicinal e não tinha problema algum usar. Ele começou a usar, ficou dependente, desenvolveu psicose, problemas graves de saúde e começou a usar outras drogas a partir daí (sic)”, diz Terra.

Segundo o ministro, ainda em seus lamentos sem muitos fundamentos na verdade, hoje o maior número de interdições judiciais de jovens no Brasil é de usuários de maconha que desenvolvem esquizofrenia – e, para ele, este risco vai aumentar muito com a regulamentação.

“A Anvisa está num lobby econômico, são grandes empresas, têm jornais da semana passada: ‘são 15 milhões de dólares que vamos colocar’. Eles estão interessados no lucro e não na saúde da população, eles não estão preocupados se os jovens vão se perder ou ficar inutilizados o resto da vida, é essa a discussão que estamos fazendo”, afirma o ministro.

É lamentável ter como ministro da Cidadania o Osmar Terra, que, em um simples debate, não consegue se basear em estudos, fatos e na realidade, que está a poucos palmos de sua face. Completamente cego pela política proibicionista que o sustenta no governo, nosso apelo é para que mais representantes da sociedade civil nas esferas públicas, como a Senadora Mara Gabrilli, apresentem verdades, desconstruam falas mentirosas e, por fim, digam com convicção:

“Não existe no mundo alguém que tenha morrido por fumar maconha”.

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#PraCegoVer: fotografia (de capa) que mostra o estúdio do programa GloboNews Política, com Gerson Camarotti, onde estão sentados o ministro da Cidadania, Osmar Terra, a senadora Mara Gabrilli e o jornalista que mediou a conversa sobre cannabis medicinal. Foto: divulgação | GloboNews.

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.
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