FASCISTA OU MACONHEIRO

maconheiro fantasma foto phill whizzman smoke buddies pipe maconha FASCISTA OU MACONHEIRO
Newsletter Open Green

Em ato público de lançamento do programa Segurança Presente no Largo do Machado, o governador do Rio de Janeiro foi chamado de fascista. Sem expressar qualquer indignação por sua honra nem se defender da ofensa, Witzel começou a chamar o transeunte de maconheiro. Se quem cala consente, o governador vestiu a carapuça, mas, pelas suas atitudes, não tem vergonha de assumir seu viés ideológico

O fascismo teve forte influência da teoria lombrosiana, que por sua vez se baseava no positivismo e no discurso científico vigente para afirmar que as pessoas já nasciam criminosas. O tamanho do crânio, da mandíbula e até tatuagens eram características de “criminosos natos”. O ápice do discurso fascista da ideia de superioridade da “raça branca” e dos “arianos” foi o nazismo, que matou milhões de seres humanos em campos de concentração. Essa teoria caiu como uma luva no Brasil após a abolição da escravidão. Mesmo tendo gerado as riquezas do Brasil com o trabalho escravo na cana-de-açúcar, no café e no minério, os negros não receberam um palmo de terra e foram criminalizados pelo sistema penal racista brasileiro de bases lombrosianas.

Quando manda um helicóptero sobrevoar a favela da Maré com policiais atirando de fuzil, Witzel ordena a continuação da histórica política racista de Estado, em maior escala com seus “caveirões voadores”, uma política fascista de raiz lombrosiana. Quando chama alguém de maconheiro, destila seu ódio, pois é a forma racista de atacar quem fuma maconha. Chamada de cânhamo pelos portugueses, a erva foi trazida nas cordas e velas de suas caravelas.  Os africanos trouxeram como parte de sua cultura, plantaram em seus quilombos, como o dos Palmares, e a chamavam pelo anagrama de cânhamo: maconha.

lazy placeholder FASCISTA OU MACONHEIRO

Um fascista pode até fumar maconha, mas jamais será um maconheiro, pois este tem orgulho de ser chamado assim, já que a luta pela legalização da maconha faz parte da luta contra o racismo no Brasil. A maior população de negros escravizados do planeta vivia no Rio de Janeiro, primeiro lugar a criminalizar a maconha no mundo, por razões evidentemente racistas: o parágrafo sétimo da Lei de Posturas Municipais (1830) estabelecia três dias de cadeia para os negros escravizados que consumissem o “Pito do Pango”. Assim era chamada a forma pela qual os negros fumavam a maconha, em pequenos cachimbos de bambu e cuia de argila. Até os anos sessenta do século XX, só os negros, índios e pobres fumavam maconha, conhecida também como “fumo de Angola” e “ópio dos pobres”, marcando sua discriminação racista e classista.

Além disso, a importância científica para o desenvolvimento da nossa medicina é imensurável,  pois o mundo já descobriu o “sistema endocanabinoide”, moléculas análogas aos princípios ativos da maconha produzidas pelo próprio organismo humano. A legalização da maconha é uma medida possível e concreta para reduzir essa política de segurança pública racista de Estado. Se a maconha pode ser vendida legalmente no Estado do Colorado nos Estados Unidos, por que não pode ser vendida legalmente na favela da Maré? Qual é a dificuldade de colocar algumas flores da planta num embrulho para vender? Por que seu mercado legalizado pode gerar riquezas, tributos e o aumento no PIB num país tão rico e não pode ser legalizado num país tão pobre e terrivelmente desigual?

A legalização da venda da maconha nas favelas é uma questão de reparação histórica, um meio possível de reduzir o racismo de Estado e gerar trabalho e riqueza para as favelas do Rio de Janeiro com seu mercado bilionário de toneladas. Por tudo isso, cantamos na Marcha da Maconha: “eu sou maconheiro,  com muito orgulho, com muito amor!”

Leia também:

A VERDADE É DURA

#PraCegoVer: Foto (de capa) mostra um pipe de vidro, com fumo, sendo carburado pela chama de um isqueiro. É possível ver a mão da pessoa segurando o pipe, além de parte de seu rosto. Ao fundo, um cultivo. Imagem: Phill Whizzman.

lazy placeholder FASCISTA OU MACONHEIRO

Sobre André Barros

ANDRÉ BARROS é advogado da Marcha da Maconha, mestre em Ciências Penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sociopopular da Ordem dos Advogados do Brasil e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!