EUA: comissão federal incita pesquisa sobre maconha e psicodélicos para veteranos militares

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A comissão, nomeada pelo Congresso e pela Casa Branca dos EUA, está recomendando que o Departamento de Assuntos Veteranos se envolva em pesquisas sobre o uso medicinal da cannabis e de drogas psicodélicas no tratamento de saúde mental. As informações são do Marijuana Moment e a tradução pela Smoke Buddies

Uma comissão federal encarregada de desenvolver recomendações para melhorar o tratamento de saúde mental para veteranos militares chegou a uma conclusão surpreendente: o Congresso e o ramo executivo dos EUA precisam promover pesquisas sobre o potencial terapêutico da maconha e psicodélicos, como os cogumelos de psilocibina e MDMA.

Após meses de reuniões, a Comissão de Criação de Opções para Recuperação Acelerada de Veteranos (COVER) divulgou seu relatório em janeiro. Mas, apesar da novidade de suas descobertas sobre políticas de drogas, o documento passou despercebido em grande parte pelos defensores da reforma e pela mídia. Presidido pelo nomeado presidencial Jake Leinenkugel, o painel determinou que a cannabis e os psicodélicos representam opções promissoras de tratamento de saúde mental para os veteranos que devem ser totalmente exploradas.

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“Cannabis medicinal e drogas psicodélicas podem ter utilidade no tratamento de problemas de saúde mental entre veteranos; no entanto, essas substâncias são atualmente classificadas como Anexo 1 sob a Lei de Substâncias Controladas, que impede o VA de realizar pesquisas sobre sua eficácia”, afirmou o painel.

O status de anexação dessas substâncias significa que o processo de obtenção de aprovação para pesquisá-las é desnecessariamente oneroso e que o suprimento de maconha e outras drogas controladas disponível para estudos é inadequado, fundamentou a comissão, cujos membros foram nomeados pelos líderes do Congresso e pelo presidente.

“As políticas do governo federal dos EUA bloquearam ensaios clínicos randomizados, externamente válidos, sobre os efeitos da cannabis”, diz o relatório. “Os cientistas que desejam realizar pesquisas sobre a cannabis devem se submeter a um árduo processo de inscrição que pode durar anos. A pesquisa requer a aprovação de várias agências governamentais, incluindo algumas com oposição declarada a qualquer uso terapêutico da cannabis”.

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O painel afirmou ainda que o status das drogas do Anexo I efetivamente impediu o VA de pesquisá-las, embora esse ponto tenha sido contestado pelos defensores.

“Como o VA não pode conduzir pesquisas sobre questões que afetam ativamente os cuidados de saúde de veteranos (cannabis medicinal) ou questões que podem afetar drasticamente os cuidados de saúde de veteranos (psicodélicos médicos), o VA não consegue explorar possibilidades, como a eficácia da psilocibina médica na diminuição da ansiedade e depressão em pacientes com câncer com risco de vida. A epidemia de opioides destacou a necessidade de pesquisas de terceiros sobre os efeitos negativos das intervenções de tratamento e ressaltou que a aprovação da FDA por si só não revela todas as possíveis consequências negativas que podem ocorrer quando um tratamento com receita é disponibilizado ao público”.

Veteranos em todo os EUA já estão usando cannabis em conformidade com as leis estaduais para tratar uma série de condições de saúde mental, afirma o relatório, o que “exige que o VA compreenda melhor a maconha medicinal e como ela pode beneficiar e prejudicar os pacientes que a usam, para então os provedores do VA poderem cuidar melhor desses veteranos”.

Os defensores da reforma e um grupo crescente de legisladores bipartidários argumentam há muito tempo que expandir a pesquisa sobre o valor medicinal da cannabis para veteranos é um imperativo — mas o que é particularmente impressionante no relatório desta comissão é que também reconhece explicitamente o potencial de psicodélicos específicos. Ele observa que o “movimento de pesquisa psicodélica está ganhando força” com investigações sobre como a psilocibina e o MDMA podem impactar condições como o transtorno de estresse pós-traumático, realizadas de maneira particular pelas universidades e institutos de pesquisa.

“Embora os resultados tenham generalização limitada devido ao tamanho da amostra e questões de homogeneidade, os estudos mostraram alguma promessa para o tratamento de distúrbios para os quais os tratamentos disponíveis são insuficientes — humor, distúrbios de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático — usando psicodélicos, incluindo MDMA“, diz o relatório da Comissão COVER.

Para esse fim, a comissão emitiu uma recomendação: o VA deve “se envolver com outras agências federais, conforme apropriado, para pesquisar os riscos em potencial a curto e a longo prazo, bem como os benefícios, da cannabis medicinal e drogas psicodélicas”.

Também recomenda que os poderes executivo e legislativo exijam que o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas desenvolva “cepas de cannabis com níveis de THC equivalentes às usadas por usuários de cannabis medicinal nos estados onde a cannabis medicinal é legal para garantir que as pesquisas sobre o uso de cannabis medicinal gerem informações significativas sobre os riscos e benefícios relacionados”.

Isso abordaria o fato de que estudos demonstraram que a maconha produzida na única instalação de fabricação autorizada pelo governo federal é quimicamente mais semelhante ao cânhamo do que à cannabis vendida nos mercados legais estaduais.

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Além disso, os médicos do VA devem receber “informações atualizadas sobre pesquisas relacionadas ao uso de cannabis medicinal e psicodélicos, incluindo MDMA”, e ter uma educação melhor sobre “sua capacidade de discutir os benefícios e possíveis efeitos negativos da cannabis medicinal com veteranos em seus cuidados”, continua o relatório.

O painel disse que “existem questões significativas sobre os benefícios e custos do uso de cannabis e psicodélicos no tratamento de problemas de saúde mental. A eficácia e a segurança desses tipos de tratamentos não são claras, mas é essencial que o VA se envolva em pesquisas para entendê-los melhor”.

“O VA deve se envolver com outras agências federais para conduzir pesquisas sobre os efeitos positivos e negativos na saúde mental dos veteranos da cannabis medicinal e psicodélicos, incluindo a metilenodioximetanfetamina (MDMA)”, declara um resumo do relatório.

O deputado Lou Correa (D-CA), defensor de longa data da pesquisa sobre maconha para veteranos que está patrocinando a Lei de Pesquisa sobre Cannabis Medicinal do VA, disse ao Marijuana Moment que o relatório da comissão “mostra exatamente por que meu projeto de lei é tão importante”.

“O Departamento de Assuntos dos Veteranos reconhece que a cannabis pode ser uma ferramenta médica valiosa para os nossos veteranos”, disse ele. “Precisamos aprovar a Lei de Pesquisa sobre Cannabis Medicinal para que o VA possa finalmente conduzir essa pesquisa crítica e obter para os veteranos o medicamento de que precisam”.

O projeto de lei de pesquisa de maconha medicinal de Correa foi aprovado por um comitê da Câmara em março, mas ainda não foi agendado para a ação dos líderes democratas.

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Com base em testemunhos de audiências anteriores, não está claro se o VA estará inclinado a adotar as recomendações da Comissão COVER, pois as autoridades do departamento se opuseram a vários projetos modestos de reforma da maconha que foram discutidos no comitê no ano passado. Isso incluiu legislação para proteger os benefícios do VA para veteranos que usam maconha, permitir que os médicos do departamento recomendem cannabis medicinal e expandir a pesquisa sobre o potencial terapêutico da planta.

De qualquer forma, o relatório da comissão parece refletir uma compreensão evoluída das mudanças políticas que seriam necessárias para investigar efetivamente se a maconha ou certos psicodélicos seriam capazes de fornecer alívio aos veteranos que sofrem de uma ampla gama de condições de saúde mental. Foi lançado três anos após a criação do painel, como parte do Ato de Dependência e Recuperação de 2016.

As transcrições das reuniões da comissão que antecederam a publicação do relatório mostraram que os membros participavam rotineiramente de conversas sobre as limitações das oportunidades de pesquisa em saúde mental para substâncias controladas sob a proibição.

Por exemplo, Leinenkugel, o presidente, que já havia manifestado interesse em avançar os estudos do VA sobre os benefícios médicos da maconha para veteranos, disse durante uma audiência em julho de 2018 que estava “impressionado” com a quantidade de pesquisas realizadas sobre o assunto em outros países como o Canadá e Israel.

“Eles, por algum motivo, encontraram muito mais motivos para tornar a cannabis e óleos de canabinoides legais de alguma forma para seus veteranos, não para recreação, mas para uso dos veteranos”, disse ele. “Foi um alerta para mim pessoalmente”.

O coronel Matthew Amidon, membro da comissão, disse ao presidente que o painel “deve se lembrar também de que existe o HR 5520, que é o Ato de Pesquisa de Cannabis de 2017, que é um projeto de lei ao qual podemos querer nos referir quando articulamos uma visão sobre projetos de lei de cannabis”.

Em outra reunião, Leinenkugel disse que “acho que nossas maiores [organizações de serviços para veteranos] declararam, por meio de seus membros, que mais de 90% da Legião Americana, com dois milhões de veteranos, defende que, pelo menos, demos uma olhada sobre pesquisas dentro do VA, o que acho que não estamos fazendo”.

“Para mim, isso não faz sentido. É uma planta, é uma erva. Eu não estou defendendo o uso recreativo, mas a partir desta comissão, precisamos analisar todas as variações de tipos de cuidados complementares sob o que tínhamos ontem, toda a saúde”, disse ele. “Sei que estou editorializando um pouco, mas quero, pelo menos, divulgar publicamente que essas são coisas que acho que precisamos começar a dar uma olhada”.

No geral, as conversas refletem um reconhecimento crescente de que — apesar das constantes proibições federais — é necessário promover a pesquisa de substâncias controladas com potencial terapêutico. E isso não é proveniente apenas de defensores, mas também de nomeados por Trump e de militares.

Agora cabe ao Congresso e à Casa Branca seguirem as recomendações do painel que os dois ramos criaram e nomearam.

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#PraCegoVer: a imagem de capa é formada por duas fotos, sendo uma de um bud de maconha que ultrapassa a borda do recipiente de vidro onde está, com fundo vermelho, e a outra de uma porção de comprimidos coloridos em formato de coração sobre um pratinho branco. Fotos: THCameraphoto / Pxhere.

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