Eu e eu, eu e ela: A ganja nisso tudo que eu chamo de vida

ganja Eu e eu, eu e ela: A ganja nisso tudo que eu chamo de vida

ao longo da última década, minha amizade com a cannabis vem se aprofundando progressivamente, e os aprendizados não param de chegar. Por Laura Maria*

no começo, quando eu não sabia nada sobre mim mesma, sobre plantas de poder ou sobre expansão da consciência, era só para diversão. risadas sem fim, laricas, tardes tediosas que se transformavam numa festa. era só isso, até que se transformou. não foi de repente, foi e tem sido um processo longo de reconhecer tudo o que essa planta faz por mim. tomei algumas broncas da vida e dela, até que comecei a entender.

a cannabis me faz pensar e criar mentalmente, mas principalmente me faz sentir. e depois que eu abraço o sentimento, ela me joga de frente com tudo — até o que eu não quero acessar, o que não é exatamente divertido.

depois que tive meus primeiros contatos com outra planta poderosa, por um tempo quis até evitar fumar, e por outro tempo, parei por alguns meses. nas sessões de ayahuasca, fui convidada a olhar no olho de todos os meus medos mais antigos mais profundamente, e a ganja exacerbava isso de um jeito que eu não sabia lidar. a questão de ela ser ainda por cima nada pura (aka beck prensado de cidade grande) me incomodava muito. esse incômodo nunca mais passou.

nos primeiros meses de gravidez, minha consciência estava naturalmente alterada pela enxurrada de hormônios que se impelia pelo meu corpo. não sentia vontade de fumar, e achava era bom: uma fonte de toxinas a menos. mas como boa maconheira, conforme os meses foram avançando e a ansiedade crescendo, achei que seria bom dar uma desbaratinada. não sei se pela ganja ou por estar mais sensível, batia muito rápido e muito forte, e me assustou.

fumei pouco nessa época, em vezes pontuais, com um propósito claro: relaxar. expandir. retornar. passei a fumar menos e de melhor qualidade — um hábito que gosto de cultivar. não queria ficar chapada só por ficar, queria me olhar de frente nesse novo momento da vida. sem paranoia. e isso, mais uma vez, ela me proporcionou. foi um encontro lindo e terrível; me vi e não me reconheci. eu estava em plena transformação, numa travessia sem volta. temi, tremi, mas segui em frente.

essa planta me foi essencial nessa transição. e por falar em transição, teve outra em que ela se fez presente e necessária: o trabalho de parto. o parto é um evento fisiológico, assim como espirrar ou fazer xixi. a diferença é que em vez de expulsar minúsculos corpos estranhos pelo nariz ou um tanto de líquido pela uretra, você expulsa outro ser humano pelo canal vaginal (isso se você tiver nascido com a sorte de ter um). é surreal. tão simples, no sentido de básico, natural, e tão arrebatadoramente complexo. mais uma vez, só fumei o tanto que senti ser bom para mim e para o meu bebê. fumei, não: vaporizei.

o que se fuma, como se fuma, quando se fuma, quanto se fuma, por que motivo se fuma. como tudo isso importa! como tudo isso se mostra cada vez mais presente nos meus devaneios diários. me vejo pensando antes de comprar, de bolar, de acender. me pego viajando que “essa brisa poderia ser mais assim ou assado…”. que a gente devia poder plantar, que não faz sentido não poder plantar!

poder pensar tudo isso denota privilégios claros, e essa é uma face bem torta dessa história toda. por que não é pra todo mundo? é uma planta. não pertence ao ser humano. não deveria ser símbolo de tanta hipocrisia, tantas contradições. se é natural, por que dizem que faz mal? se é um produto da natureza, por que é criminalizada pelo homem? se outras drogas realmente nocivas à saúde são não só legalizadas mas também/principalmente têm seu uso incentivado, por que uma planta é proibida? se pode ser cultivada tal qual tomates, por que o fazemos às escondidas? já dizia o Pensador: se você quer comprar, é mais fácil que pão. então, pra que todo esse rebuliço?

pensar sobre tudo isso é pensar sobre tudo. a maconha está diretamente ligada à minha vida pessoal e particular, mas consigo relacioná-la a todos os outros espaços da vida, do mundo e das pessoas. ela tem a ver com nossa tradição milenar enquanto seres humanos de utilizar plantas (e abusar delas, como de tudo em que colocamos nossas mãos), para curar, cozinhar, curtir uma onda, ou tudo isso junto, como é o caso dessa planta em especial. está ligada às nossas políticas sociais e à nossa forma de consumir tudo que consumimos, do ar que respiramos à água que bebemos, passando pelos nossos relacionamentos com outros humanos, e todo o resto. me remete às leis que querem que eu respeite sem questionar, e que não respeito porque questiono. me faz pensar nas ações da polícia, tão volúvel, alternando entre o papel de cão de guarda e o de cão raivoso/cachorro louco com um osso na boca (que os cachorros me perdoem as comparações).

é uma planta. é um símbolo, uma bandeira. é usurpada, é adorada. é vendida mesmo sem ter preço, por ser uma forma de vida. é um barato, uma viagem, e é um assunto muito sério. é espiritual e ritualizada desde sempre, mas foi sequestrada pelo rolê. chapa e desperta pra um monte de questões importantes. é tudo isso e mais um pouco. eu ainda não sei muito sobre mim mesma, mas sigo buscando, e tenho uma forte aliada comigo.

*Laura Maria. escrevo como quem pensa. escrevo como quem viaja nas voltas da mente, no jeito que as palavras são escritas e no peso de cada uma delas. a ganja é uma velha amiga, daquelas que me abraçam forte enquanto me dizem verdades duras na cara.

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#PraCegoVer: a imagem de capa traz a foto de uma planta de cannabis, cujo destaque é para um dos buds, bem verdinho e gorducho, e para algumas folhas com rajados em marrom. Foto: Vitor Cavalcante.

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