Estudo identifica feridas semelhantes a queimaduras em usuários de cigarros eletrônicos

raio x pulmao Estudo identifica feridas semelhantes a queimaduras em usuários de cigarros eletrônicos

O estudo avaliou amostras de biópsia de 17 pacientes, dos quais 70% compartilham um histórico de utilizar cigarros do tipo “vaping” com maconha ou óleo de cannabis. As informações são do NYT, via O Globo

O dano identificado nos pulmões de pessoas que adoeceram com o uso de cigarros eletrônicos à base de nicotina ou de maconha lembram o de uma queimadura provocada por produtos químicos. A conclusão é de médicos da Mayo Clinic, uma organização médica baseada nos Estados Unidos. A descoberta é baseada em amostras de tecido pulmonar de 17 pacientes — entre os quais dois falecidos — ao redor do país, que vive uma epidemia.

O conteúdo da biópsia foi enviado para a Mayo para a análise microscópica por especialistas em doenças de pulmão. Os danos são semelhantes aos encontrados em pessoas expostas a armas químicas como o gás mostarda, utilizado na Primeira Guerra Mundial, segundo Brandon T. Larsen, um cirurgião que faz parte da filial da organização no estado do Arizona.

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#PraCegoVer: quadro com quatro imagens computadorizadas, em tons de rosa, que mostram os tecidos danificados de pulmões analisados no estudo. Créditos: New England Journal of Medicine.

Todos os nossos 17 casos mostram um padrão de ferimentos no pulmão que se assemelham a uma exposição química tóxica, ou uma queimadura química — relata Larsen. — Para ser sincero, eles se assemelham ao tipo de anomalia esperada de um trabalhador industrial envolvido no vazamento de um grande barril de químicos tóxicos. Essas pessoas, na verdade, estão expostas a vapores tóxicos, e há queimaduras nas vias aéreas.

Os resultados foram publicados na última quarta-feira na revista científica “The New England Journal of Medicine”. Entre os 17 pacientes que tiveram amostras de biópsia avaliadas, 13 eram homens e quatro, mulheres. A faixa de idade, por sua vez, varia entre 19 e 67 anos, e 70% deles compartilham um histórico de utilizar cigarros do tipo “vaping” (vaporizadores) com maconha ou óleo de cannabis. Onze são do do Arizona, cinco de Minnesota e um na Flórida, todos estados onde a Mayo possui filiais.

Mais de 800 casos de doenças pulmonares em 46 dos 50 estados americanos estão ligados ao uso de vaporizadores, e 16 pessoas morreram desde o início da crise. A maioria usou o THC, o ingrediente psicoativo presente na maconha, mas não são poucos os que utilizaram apenas produtos à base de nicotina.

No Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizou em agosto duas audiências públicas, uma em Brasília e outra no Rio, para discutir a eventual revisão da regulamentação dos cigarros eletrônicos no Brasil, onde são proibidos desde 2009. As principais companhias da indústria tabagista defendem a introdução desses produtos no mercado como um mecanismo de controle de danos para quem não consegue largar o vício — pouco menos de 10% da população brasileira. Alegam, ainda, que são muito menos prejudiciais do que o cigarro comum.

Especialistas, por outro lado, alertam para a ausência de estudos conclusivos sobre os possíveis efeitos que os produtos podem trazer para a saúde dos usuários. Além disso, se mostram céticos quanto à aposta de mercado. A exemplo dos EUA, empresas têm investido em formatos e publicidades voltados para o público jovem que, muitas vezes, nunca experimentou qualquer tipo de cigarro. Como a maioria dos produtos contém nicotina, uma substância viciante, a nova aposta de mercado fidelizaria uma nova geração de clientes.

A Anvisa baterá o martelo até dezembro. Uma proposta de texto normativo foi formulada a partir das audiências públicas e submetidas às partes favoráveis e contrárias. Caso decida por liberar os cigarros eletrônicos, a agência revisará o Relatório da Diretoria Colegiada (RDC) de número 46, que regulamentou a proibição dos cigarros eletrônicos há dez anos.

Doenças misteriosas

Médicos que têm investigado o fenômeno ainda não identificaram precisamente a causa dessas doenças, ou mesmo quantas substâncias maléficas dos cigarros eletrônicos estão envolvidos no problema. Também não se sabe se a fonte dos malefícios está nos líquidos que são vaporizados ou nas toxinas potencialmente liberadas pelos materiais utilizados nos equipamentos. Outra indefinição é se a origem está em cigarros eletrônicos defeituosos.

Inicialmente, a preocupação estava voltada para a possibilidade de entupimento dos pulmões pelo vapor dos óleos utilizados nos vaporizadores, como os feitos à base do THC ou do acetato de tocorefol, por vezes utilizado para diluir o psicoativo à venda no mercado americano. Os pesquisadores da Mayo Clinic não encontraram, no entanto, vestígios de acúmulo de óleo no tecido pulmonar. Mas detectou-se a presença de células chamadas macrófogos com a aparência fina e “esponjosa”, típica de ferimentos químicos, segundo Larson.

— Talvez temos que olhar mais atentamente aos compostos químicos, e não apenas os óleos, para descobrir quais são mais danosos para a saúde — explica o médico.

Leia: O que se sabe até agora sobre as fatalidades envolvendo vapes nos EUA

As doenças pulmonares derivadas do uso de vaporizadores, ainda segundo o cirurgião, causam danos ao tecido dos pulmões e a morte de células do próprio órgão. Na medida em que o corpo reage, o tecido incha e estreita as vias aéreas. As células mortas se desprendem ao longo delas, o que bloqueia ainda mais a passagem do ar e libera fluidos na direção dos brônquios. O processo pode impossibilitar a respiração.

— O pulmão deixa de ser funcional quando está danificado e tentando se recuperar. Não há outra opção enquanto o corpo tenta se curar, então os pacientes adoecerão severamente e ficarão ligados a um respirador, pois não conseguirão oxigênio suficiente nem expulsar o dióxido de carbono — explica Larson, reforçando que as vias aéreas e aos pulmões de usuários de vapers parecem ter sido “incendiados. — Alguns não devem conseguir se recuperar e acabarão morrendo.

Além disso, ainda é cedo para afirmar se os sobreviventes terão seus pulmões plenamente recuperados.

— Baseado na gravidade dos ferimentos que avaliamos, eu não ficaria surpreso, ao menos em alguns casos, se nos depararmos com esses pacientes tendo problemas respiratórios crônicos mais à frente — prevê o especialista. — Alguns parecem passíveis de recuperação, mas não acredito que saibamos as consequências a longo prazo.

Tabagismo

Dois dos casos estudados pela Mayo ocorreram antes de 2019. O médico suspeita que o problema exista há algum tempo, talvez há anos, mas os episódios eram isolados e as causas, desconhecidas. Por décadas, médicos tem perguntado a pacientes sobre o seu histórico de tabagismo, mas não questionavam, até bem recentemente, sobre o uso de cigarros eletrônicos.

— Na medida em que nos tornamos mais atentos, acredito que tomaremos conhecimento de mais e mais casos, e talvez identificaremos mais riscos do que imaginávamos inicialmente — reconhece o médico.

Uma das pacientes do relatório da Mayo Clinic, uma mulher de 31 anos, veio a falecer apesar do tratamento intensivo a base de esteroides, além de uma máquina que bombeava oxigênio diretamente em sua corrente sanguínea. Seus pulmões estavam tão danificados que nem mesmo um respirador foi capaz de ceder oxigênio suficiente. Embora ela fosse usuária de vaporizadores, não se sabe quais compostos ela utilizava.

Outro paciente, um homem de 21 anos que disse ter vaporizado nicotina ao longo de cinco anos, ficou doente pouco tempo após ter adicionado maconha no cigarro eletrônico. Ele se recuperou e deixou o hospital. Outro, de 28, teria fumado de 20 a 30 cartuchos por dia — os dispositivos são reutilizáveis —, além de ter utilizado THC com alguma regularidade.

Na última sexta-feira, o Centro de Controle de Doenças e Prevenção, uma agência do Departamento de Saúde dos EUA, identificou uma série de produtos à base de THC vendidos em cartuchos pré-preenchidos mencionados por pacientes que acabaram doentes. Entre os vários produtos listados por pacientes dos estados de Wisconsin e Illinois estão Dank Vapes, Moon Rocks, Off White e TKO.

Representantes do órgão, no entanto, afirmaram não ter conhecimento se as doenças pulmonares ou mortes em outras regiões do país estão relacionados às mesmas marcas listadas nos dois estados americanos. Além disso, pontuaram que a Dank Vapes  não é uma marca comercial, mas um rótulo utilizado por qualquer pessoa interessada em vender óleos de THC para vaporizadores.

Para a agência, o uso de cartuchos de THC sugere que os produtos podem ter um papel importante na epidemia. Segundo o mesmo relatório divulgado na última sexta-feira, dos 771 pacientes identificados nacionalmente, 91% foram hospitalizados, 69% eram do sexo masculino, e pouco menos de 60% tinham entre 18 e 34 anos. Das 13 mortes confirmadas até a última semana, cerca de 60% eram pacientes homens, com idade média de 50 anos.

Nesta semana, três novas mortes foram registradas nos estados de Nebraska, Virgínia e Nova Jersey, somando 16 vítimas fatais. Muitas delas eram pessoas mais velhas e que sofriam de outras doenças, embora poucos detalhes tenham sido divulgados pelas autoridades americanas.

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