Curso orienta profissionais de saúde sobre particularidades da cannabis medicinal

medical cannabis pixabay 1 Curso orienta profissionais de saúde sobre particularidades da cannabis medicinal

Com curadoria do Dr. Cid Gusmão, referência em oncologia no país, e participação de especialistas no assunto, didática passou pela história e panorama mundial da planta, sistema endocanabinoide, farmacocinética e potencial terapêutico, e discutiu as questões burocráticas, éticas e legais que envolvem a cannabis medicinal

“Mudar o mindset dos médicos é o maior desafio para o uso difundido da cannabis medicinal”, afirma, com convicção, o Dr. Cristiano Fernandes, logo no início da aula que ministrou por toda a manhã do último sábado (17) para cerca de 15 médicos e profissionais de saúde que participaram do curso Cannabis Medicinal, em São Paulo (SP). Com o objetivo de capacitá-los a prescrever cannabis dentro dos parâmetros atuais do país, o curso trouxe à luz pautas de fundamental importância sobre a cannabis na medicina.

Diretor médico da OnixCann e responsável por todo conteúdo da plataforma CanTera, que promoveram o curso presencial do último fim de semana em parceria com a InterCan, o Dr. Cristiano conduziu profissionais das mais diversas especialidades, da medicina integrativa à nefrologia, da psiquiatria à odontologia, pela história da cannabis, desde 4000 a.C. em Pan-p’o village, na China, até os medicamentos sintéticos e vegetais contemporâneos, passando pela intrigante trajetória da planta em terras brasileiras, os motivos de sua proibição e o papel de vanguarda de pesquisadores brasileiros, como o Prof. Elisaldo Carlini e o Prof. Antonio Waldo Zuardi, no reconhecido trabalho de construção de evidência científica sobre o assunto.

Diante de uma classe de interessados e curiosos, a exceção de um ou dois já prescritores, o Dr. Cristiano fez questão de parabenizar a iniciativa de quem ousa “pensar fora dos padrões cartesianos” da medicina e aprofundar o conhecimento em uma planta cujo potencial terapêutico é conhecido há tanto tempo.

É o caso de Naly Soares de Almeida, neuropsiquiatra que veio de Macaé, no Rio, para aprender mais sobre cannabis medicinal. “Tenho história de uso na família com boa resposta clínica e tenho muitos pacientes que se beneficiariam com cannabis medicinal”, explica ela, que nunca prescreveu medicamentos à base de cannabis, seja em seu consultório particular, seja pelo convênio, porque sentia a necessidade de “ouvir mais quem tem experiência”.

Para a nefrologista de Campinas, Veronica Maria, o interesse pelo tema, assim como as referências internacionais, a motivaram a buscar mais sobre o assunto, já que, segundo ela, a insegurança é um dos motivos que a impede de prescrever. “Já tinha lido textos a respeito e sabia que no exterior ela é muito utilizada, mas nunca prescrevi porque não me sentia segura, não tinha o conhecimento necessário”, conta.

De fato, os questionamentos sobre a cannabis medicinal no Brasil parecem não ter fim. A cada nova informação, um debate pairava na sala e fazia cada profissional refletir sobre parâmetros e aplicações na conduta diária. “Vamos dizer, por exemplo, que um diabético é dependente de insulina, porque faz uso diário?”, questionou um dos alunos durante discussão sobre os riscos de dependência em medicamentos com THC.

Para além dos ricos debates que aprofundaram as questões éticas, legais e de princípios que balizam a prática médica em relação à cannabis, o fato é que o curso ofereceu ferramentas para embasar e dar segurança aos profissionais sobre as circunstâncias, os meios e as formas de viabilizar um tratamento com cannabis no Brasil. O caráter de excepcionalidade da condição clínica, a construção de um relatório técnico forte para submissão à Anvisa e outros aspectos práticos, mas essenciais, sobre a prescrição e a importação de medicamentos à base da planta foram também levados em conta na construção do curso.

Sem receita de bolo

“Eu queria muito passar aqui uma receita de bolo, mas infelizmente não é assim que acontece”, alerta a Dra. Carolina Nocetti, que dedicou os últimos anos de sua trajetória médica à cannabis.

Membro da International Association for Cannabinoid as Medicine e co-fundadora da InterCan, a Dra. Nocetti trouxe o peso de referências científicas para apresentar o potencial terapêutico da cannabis em diferentes condições, da Síndrome de Dravet ao alívio da dor, além de um amplo arsenal de experiências próprias como especialista em cannabis medicinal para compartilhar com os alunos.

Dentro do tema “Estratégia e Potencial Terapêutico”, ela explicou a importância da proximidade entre médico e paciente na terapia com cannabis, de ouvir o paciente ao longo do processo, alertou sobre o cuidado na prescrição, dosagem e titulação de medicamentos à base de cannabis, e falou sobre as sutilezas do efeito Entourage, ou seja, da relação sinérgica entre os compostos da planta, como CBD, THC, terpenos e flavonoides, no resultado dos tratamentos.

E agora?

Diante de casos e exemplos que mostraram o poder – e a tendência – da cannabis medicinal, os participantes do curso foram orientados, ainda, sobre as questões jurídicas e os aspectos regulatórios da cannabis medicinal no Brasil.

Em um cenário em que a cannabis, de forma ampla, é disputada em algumas esferas públicas, o advogado Arthur Arstuffi, CLO (Chief Legal Officer) da OnixCann, foi quem esclareceu as dúvidas sobre as leis e os tratados internacionais relevantes aos profissionais de saúde e indicou os caminhos para o acesso aos medicamentos à base de cannabis no Brasil. De acordo com ele, “importar agora é a briga mais importante”.

Entre a expectativa pelas normas da Anvisa e as posições do governo, porém, fica ainda a dúvida sobre como, na prática, médicos e profissionais de saúde poderão acessar medicamentos à base da planta no Brasil a médio prazo.

“Como as expectativas de liberação da cannabis medicinal são altas, segundo o que foi falado no curso, e já que a liberação para importação da Anvisa está demorando de 60 a 90 dias, eu vou esperar, ver o que vai acontecer. Se isso acontecer [a regulamentação], provavelmente teremos essa medicação no SUS e meus pacientes vão ter acesso”, conta Veronica, que atende pelo SUS e convênio, em hospital, ambulatório e hemodiálise.

Plataforma

Dentro da proposta de capacitar médicos e profissionais de saúde a prescreverem cannabis medicinal, o curso dedicou uma pequena parte da programação a apresentar a plataforma CanTera, que reúne informações e evidências científicas sobre mais de 23 patologias em que há possibilidade de tratamento com cannabis, bem como o racional de uso e as doses de parâmetro, e oferece um sistema de busca por medicamentos, selecionados pela empresa, à base da planta, além de suporte para o pleito de importação junto à Anvisa.

Além disso, e conforme explicado pelo Dr. Cid Gusmão, a plataforma se retroalimentará com dados, informações e progressos documentados pelos próprios médicos no dia a dia das terapias, construindo uma base de conhecimento amplo sobre a aplicação da cannabis na prática médica e trazendo “o universo medicamentoso da cannabis para a grande comunidade médica tradicional”.

“Precisamos aprender a coletar dados dos nossos pacientes”, completa o Dr. Gusmão, que ressalta a importância de mudar a lógica de embasamento em estudos clínicos versus em resultados significativos obtidos na vida real, e aposta na documentação médica, através de plataformas como esta, para “mudar o patamar do Brasil na pesquisa científica”.

O curso Cannabis medicinal já tem nova data para acontecer em São Paulo – nos dias 5 e 6 de outubro, mas as inscrições ainda não estão abertas. Acompanhe as novidades AQUI.

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