Curando Ivo: a(s) história(s) por trás do vídeo

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Entrevistamos Filipe Suzin, que optou pelo tratamento com óleo de cannabis ao pai, precocemente diagnosticado com Alzheimer, e viralizou na internet ao compartilhar o resultado em vídeo

Um homem de 52 anos, casado há 26, pai de um jovem de 22. Um cara brincalhão, nas palavras do filho, sempre cheio de piadas, dedicado à família e ao trabalho. Empresário do ramo de transportes em Goiânia, o Sr. Ivo Suzin, pai de uma família comum, típica de tantas casas de classe média Brasil afora, tinha, porém, uma história diferente para traçar dali em diante – e é parte dela que, com a ajuda de seu filho e neste Dia dos Pais, eu peço licença de contar.

O vídeo em que Filipe Suzin conta que, com a ajuda do óleo de cannabis, seu pai, hoje com 58 anos e diagnosticado com mal de Alzheimer há cerca de seis, o reconheceu, toca profundamente quem experimentou algo do tipo na família.

Em maior ou menor intensidade e velocidade, a doença degenerativa e ainda sem cura que transformou a vida do Sr. Ivo e, consequentemente, de sua esposa Solange (“a verdadeira guerreira”, segundo Filipe) e de seu filho, segue um caminho doloroso e desgastante, emocional, física e afetivamente, para todos os envolvidos.

Da falta de reconhecimento de nomes e rostos à agressividade, dos lapsos de tempo e espaço à gradativa perda de funções básicas, o Alzheimer desafia, em cada nova sutileza (e, diria até, com toques de crueldade), a memória de quem cruza com ele. E, para quem acompanha, fica a busca atenta, entre momentos de lucidez, cada vez mais raros, de um olhar, um sorriso ou uma palavra que resgate o todo que, sabemos, logo não está mais lá.

É por isso que a história de um filho que consegue, com óleo extraído da maconha, recuperar alegria, vivacidade e apetite no pai acometido com Alzheimer atrai a curiosidade de quem, como o próprio Sr. Ivo, talvez nunca tivesse pensado na maconha como uma alternativa para trazer bem-estar e – por que não? -, um sorriso a uma condição tão difícil.

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#PraCegoVer: Print de vídeo traz o Sr. Ivo Suzin em um momento de afeto com sua esposa, Dona Solange Barsan. Imagem: Reprodução | Curando Ivo (@curandoivo).

Para entender a história por trás do vídeo, troquei uma ideia com Filipe Suzin, filho de Sr. Ivo, e descobri que não estava apenas diante de uma história sobre um óleo de cannabis, sobre Alzheimer, sobre uma família comum ou a relação entre pai e filho. É tudo isso ao mesmo tempo e mais.

Confira a entrevista:

Smoke Buddies – Como foi o diagnóstico e o início do tratamento de seu pai?

Filipe Suzin – Começou com falhas de memória. Fazíamos todos os exames, porém os médicos sempre afirmavam que era apenas estresse. Até que começou a prejudicá-lo muito visivelmente, a impossibilitar suas ações.

Posso afirmar tranquilamente que, além de qualquer fator genético, um dos fatores que mais influenciou a doença, e a força com que ela veio, foi o estilo de vida do meu pai: muito estresse, dormia pouco, a alimentação totalmente errada, com muito açúcar e industrializados.

Desde que começamos (Filipe e a mãe) os tratamentos para Alzheimer com meu pai, já passamos por vários médicos, que receitaram vários medicamentos diferentes, que nunca trouxeram benefícios de verdade. Nós apenas assistíamos ele ser sempre dopado sem nada poder fazer. E foram cinco para seis anos até desistirmos dos tratamentos convencionais, pois nenhum tinha dado nem um pouco de esperança, nem um pouco de eficácia. Só ficávamos com coração apertado de dar aquela pancada de remédios, que ele tomava manhã, tarde e noite.

SB – De onde surgiu a ideia de tentar o óleo de maconha? 

FS – Já pesquiso sobre isso desde 2013. Derrubei minha casa com muitos artigos científicos falando sobre cannabis, sistema endocanabinoide, e consegui na época convencer minha mãe que eu tinha que plantar e tentar aquilo, porque acreditava na melhora. Mas, o medo dela em relação às questões legais me fez destruir o cultivo e não consegui na época colocar em prática. Conheci um membro da AGAPE (ONG que fornece o óleo de cannabis ao Sr. Ivo), e depois de tudo que já sabia, não tinha nenhuma dúvida sobre isso. Nem foi um assunto a se discutir aqui em casa, simplesmente iniciamos o tratamento.

SB – Como os médicos lidaram com isso?

FS – Tentamos conversar sobre o assunto antes, porém tínhamos a mesma resposta de sempre:  que cannabis mata neurônios etc. Na época que iniciamos o tratamento, estávamos participando de uma pesquisa sobre Alzheimer e dieta cetogênica, e já havíamos abandonado os remédios convencionais. A cannabis sozinha parou e reverteu alguns sintomas da doença.

SB – Qual era a situação do Sr. Ivo quando o tratamento com cannabis começou?

FS – Meu pai estava em um estágio que não entendia mais o que era mastigar, tinha que forçar para engolir. Ele não entendia nem o que era o ato de pegar uma colher e colocar na boca, e para alimentá-lo, a gente tinha que seguir ele dentro de casa, andando e dando a comida na boca, e forçando.

Além disso, ele estava em um ponto agressivo demais, era complicado. Já tentou enforcar minha mãe, já deu muito soco nela, eu também já levei bastante. Às vezes, ele passava sorrindo, e quando você virava as costas, levava uma na nuca!

Antigamente, eu ficava ao lado dele na cama, de meia hora para mais, até ele dormir, porque senão ele levantava, andava, fazia xixi pela casa toda, quebrava coisa.

Mas, no fim, o que mais me marca e sempre vai me marcar é que lembro que antes eu tinha medo de olhar dentro do olho do meu pai, porque antes eu não conseguia ver e sentir uma alma lá dentro. Olhar nos olhos dele me doía tanto! Agora ele tem uma alma de novo, eu amo olhar dentro dos olhos dele, eu vejo e sinto meu pai.

SB – Como é um dia na vida dele hoje?

FS – O seu Ivo acorda de manhãzinha, lá pelas 6h, 7h, toma banho, toma café da manhã, e depois levamos ele para a parte de fora da casa, onde há um jardim grande que ele fica andando o dia todo.

Ele anda de um lado para o outro da casa, já que é tudo trancado com cadeado para ele não poder sair. Ele interage com o que tem no jardim, quebra as árvores todas, tira tampa do lugar, muda móvel do lugar, quebra coisa… ele é bem ativo, viu!

Só vai parar de andar de novo no momento do almoço, quando ele fica doido para comer. Quando dá o horário de comer, o bichão fica doido e já fica rodeando a cozinha! Aí ele almoça, volta pro rolezão de andar, andar e andar. Aí tem intervalo da tarde para o lanche dele, e depois, ele só para no momento em que o levamos para dentro de casa.

Lá pelas 18h, damos banho nele, fazemos a janta e por volta das 20h, 21h, colocamos ele na cama. Depende de várias coisas, pois cada dia é um dia, mas assim vamos!

SB – Que tipo de óleo é ministrado ao Sr. Ivo?

FS – O óleo é de uma extração da planta completa, ou seja, extraímos CBD, THC e vários outros compostos.

SB – Como isso mudou a vida de vocês? 

FS – A doença me afastou totalmente do meu pai, que somente estava vagando por aí, e o óleo simplesmente trouxe ele de volta, fez aquele sentimento de impotência sumir e trouxe muito amor para dentro da minha casa.

Estávamos no limite, e antes de introduzir a cannabis já pensava em internar meu pai, até por questões de segurança mesmo. Hoje, meu pai se alimenta sozinho, não é mais uma pessoa agressiva, toma banho muito mais fácil, tem um entendimento das coisas que às vezes nem acreditamos, dorme bem à noite e permite que minha mãe durma também.

SB – O que seu pai acharia, antes da doença, de usar maconha como medicamento? E sua mãe?

FS – Se ele tivesse consciência, com certeza não aceitaria iniciar um tratamento com maconha. E, mesmo tendo mostrado muitos estudos e matérias para a minha mãe, o preconceito sempre esteve presente, e a luta interna para mudar um pensamento de algo que está fixado há tanto tempo dentro da gente não é fácil. Mas, com a necessidade e desespero batendo à porta, ninguém pensa duas vezes.

SB – Você também é paciente de cannabis medicinal. Como essas histórias se cruzam?

FS – Sim, trato para leucemia, faço tratamento com quimioterápico tradicional e cannabis medicinal desde meus 19 anos.

Já faço tratamento convencional há dez anos, e durante todos esses anos, utilizo cannabis como auxílio para os efeitos colaterais do meu remédio, já que fumar ajuda a aliviar náuseas, dores, vômitos.

Então, desde sempre soube de efeitos positivos da planta, assim como os outros lados positivos que ela já me trazia. Tinha certeza de que ela não faria mal a meu pai, sempre acreditei nisso. Se não fosse por passar na própria pele, talvez não acreditasse tanto, mas eu realmente sabia. Hoje, lutamos juntos pelo mesmo medicamento, porém com resultados de eficácia diferentes.

SB – O que você espera para o futuro da cannabis medicinal no Brasil?

FS – Que ninguém mais tenha que se sentir bandido por tentar salvar sua própria vida. Que o assunto cannabis seja algo normal em consultórios e faculdades de medicina, que realmente o acesso seja fácil para todos aqueles que precisam e que não somente o óleo seja reconhecido como uma forma medicinal, e sim toda a base dessa planta medicinal.

Amém, Filipe!

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#PraCegoVer: Imagem captada do vídeo que viralizou mostra, à esquerda, Filipe Suzin sorrindo, e, ao lado, o pai, Sr. Ivo Suzin, com uma expressão feliz, dançando para a câmera. Imagem: Reprodução | Curando Ivo.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.
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