Cozinheira e empreendedora canábica, Lilica promove desafio gastronômico

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O Desafio da Cozinha Cannábica, que acontece de terça a sábado no canal da Lilica no Youtube, reúne os alunos da especialista em culinária 420 em uma competição gastronômica ao vivo, com comentaristas, votação do público e prêmios exclusivos

Das analogias mais sublimes que podem ser traçadas com o ritual social da maconha, a interação ao redor da mesa farta traduz, como nenhuma outra, a essência de partilha que dá o tom nas rodas. Do cuidado no preparo ao prazer em dividir, seja um prato, seja um bowl, as semelhanças entre a cozinha e a session vão muito além do aroma irresistível que permeia o ambiente.

“Há gesto mais carinhoso, mais bonito, do que alguém te preparar uma refeição? Servir é um exercício de humildade”, diz Lilica, cozinheira, empreendedora, professora e influenciadora digital especialista em culinária canábica, que encontrou na junção de duas paixões uma vocação.

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Adepta ao que é “mais natural possível”, como uma boa risada, um cosmético caseiro ou o cheiro do manjericão fresco, Lilica é a personificação do elo entre a gastronomia e a maconha. Mas, nem sempre foi assim. Embora a gaúcha de 42 anos tenha uma relação antiga com as duas palavras, tendo crescido no restaurante da família e maconheira desde a época de faculdade, Lilica conta que a grande transformação em sua vida veio aos quarenta, de uma brisa que envolve um pé de prenseed no quintal.

“Um dia eu joguei uma semente no jardim. E nasceu. Nasceu uma planta grande, bem bonita, só que nunca dava flor”, ela diz. “Aí estava com uma amiga aqui, sentada no quintal, olhando para a planta, fumando um e, na época, eu que não sabia nada de cultivo, perguntei como daria para fumar aquilo. E minha amiga disse: ‘você tem que estudar’. Em seguida, eu me inscrevi em um curso de cultivo”. E foi aí que tudo mudou.

A dedicação ao estudo, teórico e prático, foi tão intensa e profunda, com vários outros cursos sobre cannabis, de extrações à cozinha 420, que Lilica desenvolveu seu próprio método de culinária com maconha e, com o perfil de uma comunicadora nata, encontrou uma forma didática de passar seu vasto conhecimento adiante. De aprendiz a mestre, em dois anos ela conquistou espaço como professora em um curso on-line de culinária canábica, hoje com três turmas e 180 alunos, e como influenciadora neste segmento.

E quando se trata de falar sobre fazer a cabeça através do estômago (ou melhor, do fígado, que é o órgão responsável por metabolizar o THC nesta forma de consumo), Lilica ressalta que, assim como a maconha comestível pode ser uma ótima maneira de reduzir danos de seu consumo, através da incorporação da planta na alimentação com microdoses e tinturas, por exemplo, também pode ser um tanto traiçoeira com quem não conhece suas particularidades.

O controle de dosagem na culinária canábica é uma forma de redução de danos”, ela explica. “Você tem que saber quanto tu tá ingerindo, como tu tá ingerindo, onde você está, tudo isso, porque dependendo do dia, vai bater de uma forma mais suave ou vai bater de uma forma mais violenta. Tu tem que te conhecer”.

É curiosa essa descoberta de autoconhecimento. Porque, em uma jornada própria, no caminho para entender sobre aquilo que consumia, Lilica acabou aprendendo muito mais sobre si: sua capacidade de, pela cozinha e pela comunicação, defender de forma proativa algo em que verdadeiramente acredita.

“Eu sempre me senti bem fumando maconha. Nunca fiquei jogada, sem fazer nada. Eu fumava, trabalhava, fazia faculdade, fazia de tudo, e me sentia melhor, porque baixava minha ansiedade”, ela diz. “E quando eu comecei a aprender sobre cultivo, fazer os cursos, entender o sistema endocanabinoide, os canabinoides, terpenos, isso me abriu os olhos. Eu me dei conta que se eu, que sou uma maconheira produtiva, sou CDF, sempre fui tri certinha, se eu esconder que sou maconheira, eu nunca vou transformar a minha realidade, nem a realidade das pessoas”.

Com coragem para dar as caras no virtual e assumir ao mundo seu lado maco(zi)nheira, sobretudo em espaços até então dominados por narrativas masculinas, Lilica acredita no poder da culinária na desmistificação da imagem sobre maconha nas casas brasileiras – afinal, em torno da mesa, sempre acabamos encontrando gostos em comum.

“Tem uma senhora de 61 anos que é minha aluna”, conta Lilica. “Tem também a Maria*, de 56 anos, que nunca fumou, mas é muito ansiosa. A filha fuma, o filho começou a fumar e parou de tomar remédio para dormir e ela entrou na culinária porque não gosta de fumar. Diz que tentou, não gostou, mas ela quer consumir cannabis. Ela entrou de corpo e alma no curso e vai estar no Desafio”.

Desafio da Cozinha Cannábica

Assim como Maria, são os alunos do curso de culinária da Lilica que concorrem no Desafio da Cozinha Cannábica, que acontece de terça (22) até sábado (26), ao vivo, pelo Youtube (para acompanhar, inscreva-se aqui). É ali que os participantes têm a chance de apresentar o que aprenderam ao longo do curso: como aplicar a maconha na culinária para garantir os melhores efeitos, na mente e no paladar, em vários tipos de receita.

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Agora é a hora da verdade! Toda semana tenho uma live com meus alunos e sempre cozinho ao vivo pra eles. O ingrediente principal sempre é a maconha, mas não do jeito que vocês imaginam. . Quando falamos da culinária cannabica, o mais importante é dominar diferentes técnicas para fazer infusões e preparos com a nossa amada erva. . Na 2ª edição do meu Desafio da Cozinha Cannabica é a vez de vocês verem meus alunos em ação. . Fiquem ligados então, hein. Tô ansiosa de novo pra essa competição inédita no Brasil. . #culinariacannabica #cozinhacannabica #maconha #weed #ganja #cannabis #desafiodacozinhacannabica #lilica420 #alunos #receitas #aovivo #competicao #cookingwithcannabis #boracozinhar #cozinha #mulheresmaconheiras #disputa

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A competição entre colegas, digna dos realities de tevê mais famosos, com comentaristas, prêmios e votação pelo Telegram, traz a promessa de uma disputa acirrada entre os concorrentes, e não apenas pelo reconhecimento: os quatro finalistas receberão aventais personalizados e cafés Mary4:20, enquanto quem vencer a competição, sob o olhar do público que vota, ganhará um prato exclusivo feito por uma ceramista gaúcha.

“Eu digo para os meus alunos que qualquer um pode colocar maconha na alimentação, nas receitas que mais gosta, do jeito que mais gosta de fazer, seja vegano, seja paleontológico, do jeito que você se alimenta, pode incluir a maconha”, ela explica.

Entre pratos como o “guacannabis com pestonha”, o “creme de ervonha”, o “hambúrguer com maconhese”, incluindo doces, como o “sagonha”, os ensinamentos de Lilica dão origem a uma abundância de opções nutritivas e saborosas que a planta nos oferece, das sementes, que viram o granulado do brisadeiro, às folhas, que, empanadas, no suco, no vinagrete ou na salada, transformam refeições triviais em divertidas – para dizer o mínimo. Mas também constrói uma cultura de como incorporar, na cozinha, um ritual que é tão familiar a ela.

E olha que de comida, e de maconha, essa guria entende.

*o nome da aluna foi alterado para preservar sua privacidade.

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#PraCegoVer: Fotografia (de capa) mostra a cozinheira e empreendedora canábica Lilica olhando para a câmera e soltando a fumaça de um trago do bolado que ela segura em sua mão direita. Atrás, compondo o cenário, a bancada de uma cozinha, com armários, uma pia e um forno elétrico. Crédito: Divulgação.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.
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